Grandes Nomes da CIência

Biografias de cientistas conhecidos ou não tão conhecidos assim. Curiosidades e fatos sobre suas pesquisas, inclusive gente anônima que fez ciência e não recebeu os devidos créditos. Mais »

Livro dos Porquês

A sabedoria e o conhecimento. Isso é Poder! Abra sua mente, aprenda mais sobre questões básicas (e complexas) e tire suas dúvidas, de forma mais didática possível, sem ser aquelas aulas chatas de colégio. Mais »

Grandes Mentiras Religiosas

O mundo não é tão bizarro quanto fazem parecer. Mentiras e enganações para ludibriar as pessoas, lindamente desmontados, de forma a trazer à luz a desonestidade para tentar lhe fazer parar de pensar e simplesmente aceitar o que querem que você pense. Mais »

Caderno dos Professores

Para quem quer ensinar e muitas vezes se pergunta como abordar um tema. Como deixar a aula interessante, como levar conhecimento aos seus alunos por meios que pedagogos lhe odiarão, mas serão amados pelos estudantes. Mais »

 

Uma brilhante história sobre os óculos

Contando as Moedinhas

Na época referenciada pelo livro de Eco, não se usava sistema monetário centesimal (você sabe: um real vale cem centavos). As moedas nas cidades-estado que mais tarde comporiam o que modernamente se conhece por Itália variavam muito, e sua base de valor era quanto de ouro fora empregado para cunhar cada moeda. O chamado “padrão-ouro” vem daí. Principados ricos tinham uma quantidade maior de ouro em suas moedas. Alguns nem usavam ouro, mas cobre (daí a gíria “ter alguns cobres” dando a entender que tem algum dinheiro) ou prata.

Um exemplo de moeda de ouro era o florim, que ficou entre mais ou menos 1252 e cerca de 1523 sem mudanças significativas em termos de design e quantidade de metal, implicando uma economia MUITO estável. Por causa d’As Cruzadas, o comércio com o Mediterrâneo Oriental foi intensificado, e isso trouxe enorme quantidade de ouro para a próspera Florença, a ponto de começar a cunhar sua própria moeda de ouro. O “fiorino d’oro” (florim de ouro) da República de Florença foi a primeira moeda de ouro europeia a atingir um papel comercial significativo desde o século VII (repito: SÉCULO SETE!).


Florim de Ouro

Os bancos florentinos começaram a abrir filiais em toda a Europa, e o florim rapidamente se tornou a moeda comercial dominante da Europa Ocidental para transações em grande escala, como é o dólar hoje em dia! A vantagem principal é que substituiu as barras de prata pois moedas eram mais fáceis de serem transportadas e se tinha real ideia do seu valor. A barra de prata era dividida em múltiplos e submúltiplos da marca, a unidade de massa empregada na época equivalente a 8 onças-troy, ou mais ou menos 248 gramas. Isso foi substituído pelo florim, que facilitou o transporte, já que um florim pesava apenas 3,5 gramas de ouro.

Com esse padrão, você realmente sabia quanto valia o dinheiro. Aquela quantidade exata de ouro dava o poder de compra da moeda e ela valia o seu peso em ouro, o famoso “vale quanto pesa”. Para tanto, você tinha que ter uma reserva em ouro bem documentada e controlada para emitir a quantidade de moedas fixada, mantendo uma burocracia estatal bem organizada; e quando falo em “burocracia” eu quero dizer um sistema administrativo organizado, bem documentado, registrado e catalogado, com guarda-livros (atualmente chamados “contadores”) tomando nota de tudo, para que um principado como Florença não fosse à falência.

Agora, se você não tinha ouro suficiente, não emitia moedas suficientes e essas moedas não iam parar no mercado, movimentando a Economia. Se por outro lado algum príncipe tivesse ordenado que se diminuísse a quantidade de ouro na moeda, de forma a ter mais moedas, o valor intrínseco desta moeda cairia, e os negociantes – na maior parte judeus, já que durante o Feudalismo eles foram proibidos de ter terras e partiram para as profissões liberais e de comércio – saberiam muito bem disso, já que sabiam fazer contas e dispunham de balanças. Sendo assim, eles aumentavam o preço de suas mercadorias para aquela moeda, ou seja, se, digamos, uma peça que custava 2 moedas de ouro de 3,5g cada moeda, passaria a custar 4 moedas feitas com 2g de ouro. Sim, um tanto a mais de ouro, para justificar o trabalho envolvido, o que chamamos “juros” e/ou “taxa de serviço”, o que resultava em um menor poder de compra. Sabem como chamamos isso hoje? Inflação, coisa que o homem medieval já entendia e alguns gênios do século XXI não, principalmente os que dizem que para diminuir a pobreza basta produzir mais dinheiro e distribuir aos pobres.

Assim como o dólar hoje, o impacto do florim foi tão grande que muitos principados (o conceito de país, como entendemos hoje não existia) adotaram o nome “florim” para as suas moedas, como o principado da Hungria, que chamou a sua moeda de “forint”. A Hungria era muito importante e rica na Europa pois era uma das maiores produtoras de ouro, só que não tinha o poder e influência que a República de Florença tinha. Para vocês terem uma ideia, só com o advento de carga de metais e pedras preciosos vindas do Novo Mundo quando do período das Grandes Navegações, entre os séculos XVI e XVII, que conseguiram suplantaram a produção de ouro da Hungria, o que afetou seriamente a sua economia, também.

No século XIV, cento e cinquenta Estados europeus e autoridades locais de emissão de moedas criaram seus sistemas monetários e moedas propriamente ditas copiando Florença. Foram várias cópias do florim, mas, obviamente, sem o peso (em termos de massa e poderio econômico) que a moeda florentina tinha, em que Isabel, do Reino de Castela, e Fernão, do Reino de Aragão, depositaram a grana (a maior parte era de Castela, que era quem mandava na bagaça do que viria ser a Espanha) no Banco de Florença. Até mesmo a Inglaterra teve o seu florim, usado para a moeda britânica no valor de dois xelins, ou um décimo de libra, quando a Inglaterra adotou o sistema centesimal.

Já a República de Gênova teve o genovino d’oro, que também era uma moeda de ouro, copiando o modo de cunhar moedas de Florença, em que o doge Simone Boccanegra acabou por implantar um sistema de um terço e um quarto de valor da moeda corrente. E para não nos alongarmos muito, havia o zecchino, também chamado de ducatus (ou ducado, se aportuguesarmos), usado pela República de Veneza, mostrando que, como eles andavam às turras, um não copiava o nome da moeda do outro – principalmente Florença –, embora os sistemas burocrático e econômico fossem semelhantes.


Genovino de Ouro

Uma pequena ressalva. Todas as moedas as quais estou mencionando são de ouro. Mas Guilherme de Baskerville fala “soldos” e o soldo não era uma moeda de ouro nesta época. Era uma moeda de prata cunhada desde o Império Romano, pelo qual era conhecida como “solidus”. Ela tinha 20,7g de prata e fica um pouco difícil de dizer o seu real valor para a época, já que o padrão era ouro. Havia o solidus de ouro no Império Bizantino; entretanto, os dez soldos referenciados por Guilherme eram de prata, e apesar de serem de valor menor, implicava em 207 gramas de prata, o que, de qualquer forma, não era nada pouco; e isso faz total sentido, já que a arte envolvida para a produção dos oculis demandava mestres vidreiros talentosos, já que era um objeto destinado a uma classe social de gente letrada, intelectual e, obviamente, rica. Mesmo porque, o índice de analfabetismo era absurdamente imenso. Raridade, mesmo, era gente que sabia ler e escrever. Se você é analfabeto, não vai ler nada. Se não lê, não precisa de óculos.

Então, o mestre de Guilherme pode ter pago em soldos de prata por não ter à mão moedas de ouro. Vamos voltar ao assunto?


Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

Pages: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13