O homem que quis carregar o Império e acabou esmagado por ele

Há muitas maneiras de um rei morrer. Batalha, envenenamento, conspiração de corte, uma queda não muito discreta das escadas do palácio e até comer demais. A História está cheia de monarcas que partiram desta para melhor de formas que fariam corar qualquer roteirista de tragédia grega. Mas poucos conseguiram a façanha de Ying Dang, o Rei Wu, do reino de Qin, que em 307 A.E.C. decidiu provar ao mundo que era o homem de maior proeza atlética do Período dos Reinos Combatentes, e foi literalmente esmagado pela própria ambição. No caso dele, a ambição tinha a forma de um caldeirão de bronze do tamanho de uma banheira de hidromassagem imperial. Continuar lendo “O homem que quis carregar o Império e acabou esmagado por ele”

Artigos da Semana 308

Enquanto pessoal anda se matando por causa de bobagens como se o Neymar vai pra Copa do Mundo, o que está gerando muito debate idiota e ótimos memes em vídeo, estou aqui no meu canto vendo o que o Papa andou falando da IA, como big techs odeiam privacidade, mulheres tocaram negócios e se tornaram comerciantes poderosas e até como pessoal anda sendo investigado para verem se tem DNA de alienígenas.

Tudo mais interessante que o tosco do Neymar.

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Mulheres, negociantes e trapaceiros na Assíria

Existe uma ideia muito popular, suficientemente errada para incomodar, de que as mulheres entraram no mundo dos negócios em algum momento entre a Segunda Guerra Mundial e a invenção do blazer feminino. A História, no entanto, tem o péssimo hábito de não cooperar com narrativas convenientes. Por volta de 1850 A.E.C., enquanto a Europa estava lá, na Idade do Bronze, sem nem saber escrever direito e se matando e trabalhar com uma agricultura plantada ainda de maneira tosca, mulheres assírias administravam empresas, faziam investimentos em sociedades de capital compartilhado, concediam empréstimos a juros e se correspondiam por escrito sobre fraudes financeiras com uma fluência que envergonharia muitos diretores financeiros de hoje.

Tudo isso gravado em tabuletas que sobreviveram 4.000 anos para nos lembrar que a Humanidade não mudou tanto assim; principalmente em termos de golpistas, salafrários, vagabundos e trapaceiros. Continuar lendo “Mulheres, negociantes e trapaceiros na Assíria”

Neandertal passava por tratamento dentário e você aí reclamando

O primeiro dentista da História provavelmente usava pele de mamute, morava numa caverna e tinha higiene duvidosa. Mas, surpreendentemente, talvez fosse melhor do que muito “profissional” de TikTok vendendo carvão ativado pra clarear os dentes.

Pesquisadores analisaram um molar neandertal de cerca de 59 mil anos encontrado na caverna de Chagyrskaya, na Sibéria, e descobriram algo impressionante: o dente parece ter sido deliberadamente perfurado com ferramentas de pedra para aliviar uma infecção dolorosa. Em outras palavras, um proto-canal dentário feito milhares de anos antes de existir anestesia, consultório ou aquela musiquinha constrangedora de sala de espera. Continuar lendo “Neandertal passava por tratamento dentário e você aí reclamando”

Toba explosivo quase elimina a Humanidade

A grande história da Humanidade começou há muito, muito tempo. Tudo tem tentado matar as pessoas. Não satisfeito com isso, o Toba resolveu acordar e zonear geral com todo mundo. Há cerca de 74 mil anos, uma montanha acordou de mau humor e entrou em erupção com uma violência tão descomunal que foi pedaço de Toba para tudo que é lado, numa violência tão grande que os geólogos ainda hoje usam o evento como régua para medir o que a palavra “catástrofe” pode significar de verdade: a erupção foi mais de dez mil vezes mais potente do que a do Monte Santa Helena, em 1980. Toba sinistro esse.

E no meio de tudo isso, havia humanos. Continuar lendo “Toba explosivo quase elimina a Humanidade”

O mito do camponês que trabalhava menos que os trabalhadores de hoje

De tempos em tempos, a Internet descobre que a Idade Média era maravilhosa. Não o período da peste bubônica que matou um terço da Europa, não o das guerras ininterruptas ou das colheitas devastadas pela geada. A Idade Média romântica, aquela dos camponeses descansados que trabalhavam menos que o trabalhador médio e passavam os invernos bordando tapeçarias à beira da lareira, se banqueteando com uma dieta mais saudável. O argumento circula com a persistência das más ideias: os servos medievais tinham mais feriados do que você, seu CLT tosco, trabalhando só 1.620 horas por ano (contra as 1.780 do trabalhador moderno), e portanto viviam melhor. Soa bonito, eu sei. Continuar lendo “O mito do camponês que trabalhava menos que os trabalhadores de hoje”

O homem que tentou fugir do Vesúvio, falhou e a IA o trouxe de volta

Há duas formas de sobreviver a uma catástrofe. A primeira é escapar dela. A segunda é não escapar, mas ainda assim atravessar dois milênios com uma história boa o suficiente para que alguém resolva contá-la. O cidadão de Pompeia que saiu correndo com um bacião de barro na cabeça claramente falhou na etapa prática da coisa. Mas, em compensação, venceu com folga na parte narrativa. Pouca gente consegue morrer de forma tão absurdamente humana e, ainda assim, reaparecer séculos depois com direito a “retrato” digital.

E aqui estamos nós, em pleno século XXI, usando a mesma tecnologia que produz gatinhos astronautas para devolver o rosto a um sujeito que só queria não ser atingido por uma chuva de pedras vulcânicas. É o tipo de ironia histórica que Pompeia adora oferecer: enquanto o Vesúvio transformava uma cidade em cápsula do tempo, a inteligência artificial, dois mil anos depois, tenta fazer o caminho inverso. Nem sempre com perfeição, mas com uma intenção curiosamente nobre. Continuar lendo “O homem que tentou fugir do Vesúvio, falhou e a IA o trouxe de volta”

O surpreendente Homem de Cheddar

Em 1903, alguns trabalhadores escavavam tranquilamente dentro de uma caverna no desfiladeiro de Cheddar, em Somerset, quando encontraram algo que não deveria estar ali, pelo menos não à vista. Um corpo. Não enterrado com cuidado, não acompanhado de objetos, não transformado em memória. Apenas um esqueleto, encolhido, esquecido, preservado pelo acaso e pela pedra durante cerca de dez mil anos.

Ele já estava ali antes de qualquer coisa que hoje chamamos de civilização europeia. Antes da invenção da escrita, antes das pirâmides, antes de Stonehenge. Ainda assim, quando o encontraram, fizeram o que sempre se faz: deram um nome e encaixaram numa narrativa confortável. Chamaram-no de Homem de Cheddar e decidiram, sem muito debate, que ele era o “primeiro britânico”. Continuar lendo “O surpreendente Homem de Cheddar”

Lacus Eburodunensis: o lago que conservou Roma melhor do que Roma

Roma conquistou o mundo conhecido, pavimentou estradas por toda a Europa, chegou às margens do Reno com suas legiões e seus gladii (plural de gladius ou “gládio”) e, então, numa tarde qualquer do século I da nossa era, afundou um carregamento inteiro num lago suíço. Sem sobreviventes, sem registro, sem testemunha. Dois mil anos depois, mergulhadores vasculham o fundo lodoso do Lacus Eburodunensis – hoje conhecido como lago Neuchâtel – e encontram praticamente tudo intacto, como recém-saído da olaria. A História tem um senso de humor que os professores preferem não comentar. Continuar lendo “Lacus Eburodunensis: o lago que conservou Roma melhor do que Roma”

O churrasco de elefante que mudou a História da Humanidade

Antes que alguém inventasse a dieta paleolítica como moda de academia, com seus shakes de proteína e suas proibições dramáticas de pão, nossos ancestrais já praticavam o “paleo” com uma dedicação que nenhum influenciador de fitness contemporâneo teria coragem de imitar. O cardápio? Um elefante inteiro. O tempero? Provavelmente nenhum. Os talheres? Lascas de pedra. O local? As margens de uma garganta na Tanzânia, há exatos 1,8 milhão de anos. Bem-vindos ao mais antigo churrasco da história da humanidade.

Uma nova pesquisa revelou que hominídeos, muito provavelmente o Homo erectus, abateram e esquartejaram uma carcaça de Elephas recki no sítio arqueológico Emiliano Aguirre Korongo (EAK), no famoso Olduvai Gorge, na Tanzânia. Não era um elefante qualquer: o bicho tinha quase o dobro do tamanho de um elefante africano moderno, que já pesa até 6000 kg. Imagine a cena. Um bando de Homo erectus de pé diante de uma montanha de carne e gordura, pedras na mão, com aquele misto de perplexidade e fome que todo ser humano reconhece nas segundas-feiras. Continuar lendo “O churrasco de elefante que mudou a História da Humanidade”