A diferença de químicos para físicos. Ou resposta à pergunta do Felipe do Café e Ciência

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Perguntas são interessantes pelo ponto que exercitam nossa imaginação e conhecimento. Eu gosto de perguntas. A ciência gosta de perguntas e procura achar a resposta. Por isso, vi com muita satisfação a pergunta que o Felipe do Café & Ciência fez. A resposta, entretanto, era clara e óbvia, mas só para quem realmente entende o Método Científico e seus meandros. A pergunta foi

Alguns responderam, escolhendo uma das três opções. Você é capaz de responder? Ela é tão simples que nem sei porque vou responder, mas vamos lá:

A resposta é… Não tem resposta.

Físicos gostam dessa pergunta, também conhecida como “Enigma da Barcaça”. Em 2005 ela já era discutida na Internet. É uma pergunta interessante que demanda atenção. Físicos, muito afeitos a contas e postulados, correm para respondê-la. Químicos, por outro lado, são extremamente experimentalistas, e perguntas científicas desse quilate só podem fazer sentido se tiverem representação real. Físicos acham que sabem a resposta. Químicos têm certeza que, segundo este formulado, ela não existe.

Você pode até pensar que sim, que a pedra no barco, ao ser jogada na água da piscina faria o volume da água abaixar, pois ela não está mais no barco. Mas não é bem assim. E isso eu digo porque sou de Exatas. Para alguém de Exatas, a resposta a uma pergunta só pode ser dada quando todas as informações estão completas, sem margem para imaginação. Se você precisa imaginar, tem algo muito errado. Analisemos:

Considere um barquinho na piscina com uma pessoa e uma pedra dentro do barco. Daí a pessoa pega a pedra e joga na piscina. O que acontece com o nível da água.

Primeiro: Qual o tamanho do barco? Qual o tamanho da piscina? Qual o tamanho da pedra?

Poso responder em seguida: “nada, pois não havia água na piscina”. Em nenhum momento é dito que a piscina tem água. É a mesma coisa que eu perguntar: “João entrou em casa e deu 3 tiros. Quantas pessoas ele matou?”. Não é dito se havia alguém em casa ou se as balas acertaram alguém ou se, em caso de ter acertado, foi em um ponto vital.

Vamos supor que era apenas uma poça de água na piscina. Jogar uma pedra lá não faria diferença pro nível da água. E qual o tamanho de uma piscina? Uma jacuzzi? Ou uma olímpica? Uma piscina olímpica mede 50 m de comprimento, 25 m de largura e profundidade mínima de 2 metros. Isso dá 2,5 mil m³. Ou, 2,5 milhões de litros de água. Se eu jogar uma pedra de, digamos, 1 litro de volume, o nível será imperceptível. Desce? Sobe? A água está à qual temperatura? Sim, porque se for num dia quente é bem capaz de perder mais volume por evaporação do que o volume da pedra. Se sobe ou desce, como mensurar isso. um milímetro é uma resposta aceitável ou margem de erro?

Essa pedra pode não ser maciça, mas uma pedra porosa, como pedra-pomes, que irá absorver parte da água. O comportamento físico será diferente se comparada a uma rocha de granito. Mas se a pedra ainda assim for de sódio, ela irá reagir com a água.

Uma pergunta em que eu tenha que imaginar as condições não é científico. É platonismo que vivia no mundo das ideias, sem se preocupar com experimentações, testes e análises de resultados. Basta imaginar que tudo está resolvido. Nós coletamos dados, analisamos cada uma das informações. Se eu tiver que inventar, não preciso mais da Ciência e poderei fabricar ratos jogando camisas sujas num canto. A não ser que vocês sejam capazes de dizer quantos peixes cabem na minha geladeira, sem precisar de nenhuma informação adicional.

Desculpe, Felipe, mas a única resposta cientificamente aceitável para a sua pergunta é “A pergunta proposta não admite nenhuma resposta”. Mas eu posso estar errado. Que tal fazer um experimento numa piscina olímpica com uma pedra? Tem que medir a variação do nível da água com exatidão. Que tal? 😉


In this house we obey the Scientific Method!

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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