Uma brilhante história sobre os óculos

Asas, Vidros e Olhos

O Império Árabe foi fantástico na coleta de informações, estudos e ciência de toda espécie. Uma das maravilhas da Era Dourada da Ciência Árabe foi o estudo e trabalho com o vidro. Ao que tudo indica, o precursor dos estudos sobre técnicas de cortar cristais (e depois, vidro) foi Abu al-Qasim Abbas ibn Firnas ibn Wirdas al-Takurini, mais conhecido como Abbas ibn Firnas. Este polímata nasceu em Andaluzia, região sul do que hoje é a Espanha, no ano 809 EC. Era um erudito, inventor, gramático, linguista, astrônomo, poeta, músico, matemático, engenheiro e era fascinado por duas coisas: o voo dos pássaros e o vidro.

Ibn Firnas tentou construir asas para poder voar. Você pode muito bem imaginar que não conseguiu, mas conseguiu! Séculos antes de Leonardo da Vinci, Ibn Firnas conseguiu voar, com a diferença que Leonardo não tentou a proeza, só projetou. Em relação ao vidro, Ibn Firnas estava familiarizado com as propriedades científicas do vidro, conseguindo produzir os primeiros vidros (quase) totalmente transparentes, e isso contribuiu muito para enveredar pelo estudo das lentes (lembrem-se: estamos no século IX ainda). Embora alguns desses trabalhos estejam perdidos, eles foram o ponta-pé inicial para que outro cientista muçulmano investigasse as propriedades da luz.

Abu Said al-Ala ibn Sahl nasceu em algum momento do ano de 940 EC, em algum lugar da Pérsia, hoje Irã, não se sabe direito onde. Muito do que se sabe sobre Ibn Sahl está perdido, junto com as suas obras, das quais restam alguns fragmentos. O que se sabe é que este sábio foi o primeiro a investigar a fundo as propriedades dos raios de luz. Séculos antes de Snell, Ibn Sahl já sabia que quando um feixe de luz incide sobre uma superfície refletora, o ângulo de incidência era igual ao ângulo de reflexão. Não apenas isso, ele examinou que quando um feixe de luz passa de um meio para outro (como do ar para a água), ele muda de direção, no fenômeno que chamamos “refração”.


Parece, mas não é!
 

O trabalho de Ibn Sahl é profundo e dele resultou o livro Kitab Al-Harraqat ou “O livro dos Queimadores”, na alusão que lentes eram usadas para focalizar a luz do sol e atear fogo em madeira. Ele usou todas as propriedades da luz que descobrira para derivar formas que as lentes poderiam focar a luz sem aberrações geométricas. Nas partes restantes do tratado, Ibn Sahl lidou com espelhos parabólicos, espelhos elipsoidais, lentes biconvexas e técnicas para desenhar arcos hiperbólicos. A importância desse trabalho gerou fundamentos para que outro pudesse investigar os fenômenos ópticos: Ibn al-Haytam, também chamado Al-Hazem.

Abu Ali Hasan Ibn al-Haytham nasceu em Baçora, na antiga Pérsia, em 965 EC. Entretanto, ele passou a maior parte do tempo no Egito, governada pelo irascível califa Al-Hakim. Al-Hakim um dia teve uma ideia de jerico: desviar o curso do rio Nilo para controlar as cheias. Claro, isso seria uma imensa roubada! Claro, seria roubada muito maior dizer isso para o Califa. Al-Hazen fez o que estava ao seu alcance: bancou o maluco e se internou num hospital por quase 20 anos.

E se você acha que Aristóteles era algo a ser considerado em termos de Método Científico (tendo seríssimos no campo de observação, já que o tolo de Estagira disse que mulheres tinham menos dentes que homens, mesmo tendo sido casado duas vezes!), Al-Hazem já preconizava os caminhos para o Método Científico, como:

  • A pesquisa deve começar com as introduções e princípios que se queira pesquisar, definindo o problema e todos os estudos e conhecimento que fosse possível sobre o que estaria sendo pesquisado, invés de logo começar com o experimento.
  • Dedução e o estudo do todo por meio das partes.
  • Depois da separação das partes para o estudo do todo, são então vistas as particularidades das partes, para separá-las em categorias.
  • Definir o que é relevante para a discussão e examinar isso em relação aos resultados do experimento.
  • Analisar e criticar a hipótese para chegar à verdade. Essa análise leva a hipótese a ser mais resistente e mais perto da verdade.

Sim, Al-Hazem, diferente da larga maioria das pessoas, já pensava sobre o que mais tarde teria o nome de Teoria Científica, a qual iria explicar determinado fenômeno com detalhes, até que quaisquer obstáculos não pudessem mais demolir a teoria criada. Meio diferente do Mundo das Ideias de Platão, em que basta pensar a respeito que se tem a verdade, sem nenhum esforço para comprovar se a hipótese formulada era válida ou não.

Al-Hazen investigou de tudo o que podia sobre óptica: Da natureza dos olhos até as propriedades da luz.


Olho humano segundo Al-Hazen

Al-Hazen escreveu um dos primeiros tratados de óptica, chamado Kitab al-Manazir, o Livro de Óptica, escrito no início do século XI. Eram oito volumes tratando de olhos, óptica e até câmara escura.


Câmara escura Al-Hazen

Este livro tão importante foi a inspiração para muitos outros. Um tradutor anônimo o levou para a Europa no século XII, e foi aí que os estudos de óptica começaram a se desenvolver lá. Dos seus trabalhos, muitos se basearam para fins diversos. Um deles foi Ibn Sina.

Abu Ali al-?usayn ibn Abd Allah ibn Sina, também conhecido por Ibn Sina, cuja latinização virou Avicena. Ibn Sina nasceu em Bucara (onde hoje é o Uzbequistão) em 980 EC. Ele estudou e publicou trabalhos sobre vários tipos de assuntos, como Medicina, Alquimia, Química, Astronomia, Ética, Filosofia, Geografia, Matemática, Psicologia, Física, Poesia, Ciências Gerais, História, Paleontologia, Teologia etc. Ibn Sina mantinha uma escola onde formava médicos vindos de diversos países, sendo seus trabalhos em Medicina os mais frutificantes. Ele possuía tratados que demonstravam as primeiras operações de catarata por raspagem, algo similar ao que oftalmologistas fazem hoje, mas isso tem mais de 1000 anos!


Cirurgia de catarata por Ibn Sina

Agora estamos na Europa, finalmente. É a chegada do Renascimento, o mundo (europeu) estava acordando depois do longo sono que começara com a Queda de Roma. Com a mudança no mundo, a mudança na sociedade. E isso faz nossa história mais fascinante.


Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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