Artigos da Semana 330

Hoje é Dia de Todos os Santos. A Margareth me disse nos meus tempos de escola que ela só ia sair comigo no Dia de São Nunca. O Dia de Todos os Santos deveria englobar esse dia, também, mas ela não parece ser uma pessoa religiosa e não deu pela conta. Achei muito errado. Enquanto isso, lembre-se que a Grande Abóbora vai trazer muitos presentes pras crianças. Enquanto nada disso chega, fiquem com o que foi postado durante a semana.

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O milagre colorido da Taça de Licurgo

Havia artistas de mão extraordinária nas oficinas da Roma Antiga. Seus artesãos faziam joias, esculpiam figuras minuciosas e davam ao vidro uma delicadeza que ainda hoje prende o olhar. Algumas dessas peças chegaram até nós e permitem acompanhar, nos detalhes, a paciência e o domínio dos materiais de quem as criou. Uma delas é a Taça de Licurgo.

Guardada no Museu Britânico, as figuras e videiras esculpidas nesta maravilha da tecnologia antiga formam uma trama delicada em torno do recipiente, como uma renda esculpida em vidro. O trabalho já bastaria para admirar seus criadores. Mas a peça tem outra característica que faz seu esplendor mudar conforme a luz. Continuar lendo “O milagre colorido da Taça de Licurgo” →

20 anos de Ceticismo.net. Feliz Aniversário!

Era uma vez uma conversa displicente entre dois amigos. Participantes de fóruns de discussão, um deles comenta que já tinha tido um site antes, feito em HTML puro e simples, hospedado num Geocities da vida. O outro diz que hoje (ok, naquela época), estava ainda mais fácil com o formato de blogs. Seria algo interessante, um blog de divulgação científica, de algo que estava se tornando comum: pensamento crítico, e de mudanças nos rumos da tecnologia, mas não um site de “tecnologia” que só é briefing entregue por empresa de informática.

Era um mundo diferente de hoje, as pessoas escreviam mais, liam mais. Sim, um novo blog, com novos assuntos, com nova estrutura, a estrutura feita com o que os dois amigos queriam ler, e isso devia interessar mais pessoas. Aquele era o mundo de 29 de outubro de 2006, e há exatos 20 anos, Ceticismo.net viu a luz do dia. Continuar lendo “20 anos de Ceticismo.net. Feliz Aniversário!” →

O quimono que queimou Edo: anatomia de um desastre e da lenda que ele ganhou de brinde

Toda catástrofe tem dois enredos. O primeiro acontece nas ruas, com o vento, a destruição, as mortes e gente fugindo. O segundo vem depois, nas conversas, quando os sobreviventes precisam explicar o inexplicável e a explicação simples (fomos descuidados) perde para a confortável (foi um azar sobrenatural). O Grande Incêndio de Meireki, que arrasou Edo em 1657, permite ver os dois, lado a lado: o desastre real, que matou dezenas de milhares de pessoas, e a lenda do quimono amaldiçoado, que lhe deu uma protagonista e uma moral. A lenda é mais famosa. O que aconteceu de verdade é mais interessante. Continuar lendo “O quimono que queimou Edo: anatomia de um desastre e da lenda que ele ganhou de brinde” →

Antes de criticar o sábio chinês, confira o endereço

Existe uma ciência que dispensa telescópio de bilhões e acelerador de partículas: basta um texto velho, um mapa e uma teimosia admirável. É a ciência que usa registros históricos como instrumento de medição, e ela funciona bem com eclipses. Como Sol e Lua seguem uma coreografia previsível, saber onde e quando um eclipse foi visto permite deduzir, anos-luz de distância do evento (metaforicamente), quão depressa a Terra girava naquele instante. O céu, afinal, sempre foi o melhor cronômetro que já tivemos, e os escribas da Antiguidade eram os únicos que anotavam as leituras.

Foi com essa lógica que uma equipe internacional revisitou um dos registros mais antigos e mais precisamente datados de um eclipse solar total, ocorrido em 709 A.E.C. na capital do antigo Ducado de Lu, na China. Havia um problema constrangedor: quando os pesquisadores refizeram o cálculo com as melhores estimativas disponíveis para a rotação da Terra, a conta teimava em dizer que, naquele lugar, o eclipse não poderia ter sido total. Os cronistas afirmavam uma coisa, a astronomia afirmava outra, e alguém estava errado. Spoiler: não eram os cronistas. Continuar lendo “Antes de criticar o sábio chinês, confira o endereço” →

Artigos da Semana 329

Está dando arranca-rabo com a eleição, que acabou virando a plataforma político-social do Brasil: uma várzea. Eu nem faço mais elucubrações sobre isso. Vamos ao que foi postado durante a semana, mesmo!

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Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel

A funcionária mais antiga da Drexel University, na Filadélfia, nunca tirou férias, jamais pediu aumento e não faltou um único dia desde o século XIX. A própria instituição a apresentou ao público, em 2012, como sua servidora de mais longa data, e dá para entender o orgulho: poucas folhas de pagamento ostentam alguém que trabalha em regime de alfinetes.

Hoje, essa funcionária executa o seu trabalho no Student Activities Center, entre a cozinha dos estudantes e as mesas de pingue-pongue, com os nervos pintados de branco, os olhos no lugar e um nome que a anatomia mundial pronuncia como se fosse de família: Harriet. Há perguntas no ar: Quem ela foi? Quem teve a gentileza de lhe perguntar se topava virar patrimônio científico? São questões que levaram mais de um século para serem tratadas com seriedade. As respostas, como costuma acontecer quando alguém resolve abrir uma caixa de arquivo, são bem menos reluzentes que o cartão-postal. Continuar lendo “Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel” →

Cavaleiros justos disputam justas em bicicletas sem se justificar

Normalmente, as pessoas acham que a grande frase que caracteriza a capacidade humana de inventar, buscar a diferença, pensar fora da curva, seria “Eureka!”. Eu, pelo contrário, acho que a grande frase é “não seria maneiro se…”. Vejam só: “Não seria maneiro se a gente colocasse esses troncos lado-a-lado para deslizar coisas pesadas mais facilmente?”; “não seria maneiro se a gente cortasse essa pedra no feitio do tronco?”; “não seria maneiro se misturasse enxofre, carvão e salitre?”; “não seria maneiro se a gente metesse o focinho no álcool, prendesse uma lança numa bicicleta e tentássemos nos matar uns aos outros, mas de mentirinha? Seria maneiro, né?”

Estamos em London Fields, um parque no bairro de Hackney, zona leste de Londres, onde centenas de pessoas entediadas se juntaram para assistir a um duelo medieval. Os combatentes: o artista Jack Carden e o ator Camtholomew the First (sim, esse é o nome, e não, não vou fazer perguntas). Os corcéis: bicicletas elétricas de aluguel da Lime, aquelas verde-berrante que o cidadão comum usa para chegar ao trabalho com a saúde em dia, mas a dignidade, não. Continuar lendo “Cavaleiros justos disputam justas em bicicletas sem se justificar” →

Artigos da Semana 328

Falta uma semana para a eleição e estou muito preocupado com ela. Haja vista a quantidade de artigos que eu postei sobre isso. Ok, eu quero que se dane. Eu postei sobre colmeias, gente dando balão em big tech, robô tarado, terrorista bundão e até mesmo carros voadores!

Eleição? Sem tempo, irmão.

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Oito procuradores e um destino da IA

Uma das coisas extremamente irritantes no ChatGPT é aquela pseudovirtude que qualquer usuário reconhece na primeira semana de uso: ele nunca discorda de você. Diga que vender o carro para investir numa criptomoeda cujo símbolo é um cachorro é uma ideia brilhante, e ele concordará, listará cinco passos e perguntará, solícito, se você quer um cronograma. Você quer exatamente que ele te mostre pontos fracos e ele dá aquela de Fagundes, o bajulador, concordando sempre contigo, mas não porque te ama; o motivo é bem mais sinistro.

Em 14 de outubro, oito procuradores-gerais americanos decidiram que essa virtude, vista de perto, tem cara de prática comercial enganosa, alegando que o Gepeto é um produto inseguro, mas que curiosamente seus erros nunca são algo contra a OpenAI, e que prejudicou crianças e enganou pais idiotas que acham que crianças podem muito bem ter um celular na mão que não vai dar nada de ruim. Continuar lendo “Oito procuradores e um destino da IA” →