
Existe uma ciência que dispensa telescópio de bilhões e acelerador de partículas: basta um texto velho, um mapa e uma teimosia admirável. É a ciência que usa registros históricos como instrumento de medição, e ela funciona bem com eclipses. Como Sol e Lua seguem uma coreografia previsível, saber onde e quando um eclipse foi visto permite deduzir, anos-luz de distância do evento (metaforicamente), quão depressa a Terra girava naquele instante. O céu, afinal, sempre foi o melhor cronômetro que já tivemos, e os escribas da Antiguidade eram os únicos que anotavam as leituras.
Foi com essa lógica que uma equipe internacional revisitou um dos registros mais antigos e mais precisamente datados de um eclipse solar total, ocorrido em 709 A.E.C. na capital do antigo Ducado de Lu, na China. Havia um problema constrangedor: quando os pesquisadores refizeram o cálculo com as melhores estimativas disponíveis para a rotação da Terra, a conta teimava em dizer que, naquele lugar, o eclipse não poderia ter sido total. Os cronistas afirmavam uma coisa, a astronomia afirmava outra, e alguém estava errado. Spoiler: não eram os cronistas. Continuar lendo “Antes de criticar o sábio chinês, confira o endereço”









