Os segredos familiares escondidos nos dentinhos do Homo erectus

Durante boa parte do século passado, a evolução humana foi vendida como um álbum de família muito bem organizado: um tronco, alguns galhos, uns poucos ramos, e cada espécie arrumadinha no seu quadrinho, sem se misturar com a gentalha, gentalha. Pois bem, dentes de 400 mil anos acabam de transformar esse álbum em algo mais parecido com o grupo de WhatsApp da família depois do Natal, cheio de parentes que ninguém sabia que se falavam.

Os autores de um estudo recente conseguiram o que, uma década atrás, soaria como ficção científica de qualidade duvidosa: extrair informação biológica significativa de fósseis de Homo erectus antigos demais para ainda guardarem DNA. A saída foi trocar o DNA pelas proteínas, que resistem muito mais ao tempo e contam uma história surpreendente sobre quem andou namorando quem na Ásia. Continuar lendo “Os segredos familiares escondidos nos dentinhos do Homo erectus” →

Museu esconde múmia porque ela não deu permissão para ser bisbilhotada. Chamem um médium!

A humanidade finalmente alcançou um estágio de evolução moral tão extraordinário que agora está preocupada em obter autorização de cadáveres com três mil anos de idade. Depois de milênios de guerras, genocídios, saques, escravidão e outras demonstrações pouco edificantes da nossa capacidade de convivência, descobrimos que o verdadeiro problema civilizatório estava numa vitrine de museu em Glasgow. Uma múmia egípcia, aparentemente, vinha sendo exibida sem ter assinado um termo de consentimento

Isso é um escândalo! Uma afronta à dignidade de um cidadão que não apresenta reclamações formais desde aproximadamente 1000 A.E.C. Felizmente, a burocracia escocesa, sempre vigilante, resolveu intervir antes que o defunto sofresse novos constrangimentos. Mesmo porque, não basta morrer, ser embalsamado, atravessar trinta séculos, sobreviver ao colapso de impérios e acabar numa coleção europeia. Agora é preciso também estar em dia com a legislação de proteção à privacidade póstuma.

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Como a pressão arterial pode dar balão em você se não tomar cuidado

Existe um ritual quase litúrgico em qualquer consultório do planeta. O paciente se senta, estende o braço, a braçadeira infla até quase pedir clemência, e o médico encara o visor com a gravidade de um sacerdote romano lendo as entranhas de um carneiro. Então, vem a sentença: “12 por 8, tudo certo”. Saímos dali absolvidos, leves, prontos para atacar um pastel de feira. Ninguém pergunta o que a pressão andou aprontando nas outras 23 horas e meia do dia. Às vezes o médico resolve isso pedindo o MAPA, aquele aparelhinho que você carrega por um dia inteiro e que infla a braçadeira de tempos em tempos, sufocando o braço (vai sufocando, mesmo, por falta de termo melhor, e se tiver que se dane) justamente para acompanhar a pressão fora do consultório.

Cardiologistas costumam indicar o exame quando suspeitam de hipertensão do avental branco, de pressão que só sobe em casa (a mascarada), quando o tratamento não parece estar segurando bem os números ou para checar se a pressão cai como deveria durante a noite. Bem, pesquisadores identificaram uma pequena população de neurônios no tronco encefálico que parecem ter uma função específica: impedir que a pressão arterial dê trancos violentos. Continuar lendo “Como a pressão arterial pode dar balão em você se não tomar cuidado” →

Hackers fazem geladeiras entrarem numa fria

Eu acho que nada é mais simples que uma geladeira. Você liga na tomada, ela fica gelada por dentro. O que pode ser complicado? Simples: no mundo da enshitification, até coisas simples como geladeiras ficam complicadas. Aí alguém resolveu que conservar comida precisava de interface na internet, manutenção remota e software que depende de uma cadeia de empresas e contratados. Como falei lá no artigo linkado acima, a geladeira da casa dos seus avós durou trinta anos, tinha motor simples, tubulação de cobre, sem firmware, sem parafuso proprietário, sem nada que exigisse chamar assistência técnica autorizada para trocar uma peça de cinco reais. Agora, esta bagaça tem até tablet. PARA QUE?

Agora, o último caso envolvendo geladeiras modernas foi quando um agente infeccioso invadiu equipamentos em centenas de supermercados franceses. A infecção aqueceu o que deveria estar gelado, estragou toneladas de alimentos e, em algumas unidades, provocou incêndios. Em novembro, a infecção voltou. Continuar lendo “Hackers fazem geladeiras entrarem numa fria” →

Artigos da Semana 330

Hoje é Dia de Todos os Santos. A Margareth me disse nos meus tempos de escola que ela só ia sair comigo no Dia de São Nunca. O Dia de Todos os Santos deveria englobar esse dia, também, mas ela não parece ser uma pessoa religiosa e não deu pela conta. Achei muito errado. Enquanto isso, lembre-se que a Grande Abóbora vai trazer muitos presentes pras crianças. Enquanto nada disso chega, fiquem com o que foi postado durante a semana.

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Cientistas estudam o soninho da Dona Aranha

Não é todo dia que vemos o alvorecer e a chegada de um prêmio IgNobel. É sempre uma satisfação ver a História ser escrita quando pesquisas com um quê de bizarras sendo descortinadas na nossa frente. Como exemplo, podemos citar cientistas que passam dias e noites filmando aranhas em pratos de plástico para descobrir se elas dormem. É, pois, é! É o que universidades financiam, enquanto os chefes ainda marcam reunião às 8h. O pior é que o resultado mostrou que as aranhas dormem melhor do que muita gente que você conhece. Bem… dormem melhor que eu, posso garantir isso. Deve ser os boletos. Continuar lendo “Cientistas estudam o soninho da Dona Aranha” →

O milagre colorido da Taça de Licurgo

Havia artistas de mão extraordinária nas oficinas da Roma Antiga. Seus artesãos faziam joias, esculpiam figuras minuciosas e davam ao vidro uma delicadeza que ainda hoje prende o olhar. Algumas dessas peças chegaram até nós e permitem acompanhar, nos detalhes, a paciência e o domínio dos materiais de quem as criou. Uma delas é a Taça de Licurgo.

Guardada no Museu Britânico, as figuras e videiras esculpidas nesta maravilha da tecnologia antiga formam uma trama delicada em torno do recipiente, como uma renda esculpida em vidro. O trabalho já bastaria para admirar seus criadores. Mas a peça tem outra característica que faz seu esplendor mudar conforme a luz. Continuar lendo “O milagre colorido da Taça de Licurgo” →

20 anos de Ceticismo.net. Feliz Aniversário!

Era uma vez uma conversa displicente entre dois amigos. Participantes de fóruns de discussão, um deles comenta que já tinha tido um site antes, feito em HTML puro e simples, hospedado num Geocities da vida. O outro diz que hoje (ok, naquela época), estava ainda mais fácil com o formato de blogs. Seria algo interessante, um blog de divulgação científica, de algo que estava se tornando comum: pensamento crítico, e de mudanças nos rumos da tecnologia, mas não um site de “tecnologia” que só é briefing entregue por empresa de informática.

Era um mundo diferente de hoje, as pessoas escreviam mais, liam mais. Sim, um novo blog, com novos assuntos, com nova estrutura, a estrutura feita com o que os dois amigos queriam ler, e isso devia interessar mais pessoas. Aquele era o mundo de 29 de outubro de 2006, e há exatos 20 anos, Ceticismo.net viu a luz do dia. Continuar lendo “20 anos de Ceticismo.net. Feliz Aniversário!” →

O quimono que queimou Edo: anatomia de um desastre e da lenda que ele ganhou de brinde

Toda catástrofe tem dois enredos. O primeiro acontece nas ruas, com o vento, a destruição, as mortes e gente fugindo. O segundo vem depois, nas conversas, quando os sobreviventes precisam explicar o inexplicável e a explicação simples (fomos descuidados) perde para a confortável (foi um azar sobrenatural). O Grande Incêndio de Meireki, que arrasou Edo em 1657, permite ver os dois, lado a lado: o desastre real, que matou dezenas de milhares de pessoas, e a lenda do quimono amaldiçoado, que lhe deu uma protagonista e uma moral. A lenda é mais famosa. O que aconteceu de verdade é mais interessante. Continuar lendo “O quimono que queimou Edo: anatomia de um desastre e da lenda que ele ganhou de brinde” →

Pesquisa mostra que Ômega-3 é muito bom pro cérebro, mas não é essa Coca-Cola toda que vendem

Sabe as pessoas que dizem que envelhecer é ótimo e que a vida começa aos 40? Pois, é: elas mentem. É legal envelhecer quando se é rico e a vida começa aos 40 para quem acabou de receber herança. Se você tem que levantar cedíssimo para ir trabalhar, Guess what, não vai ver nada de maneiro. Some-se a isso o que vendem de lindo, maravilhoso, incrível e cheiroso: aqueles produtos mágicos que prometem zilhões de coisas, prosperando no cruzamento entre o medo de envelhecer e a fé na embalagem: os suplementos para o cérebro.

O rei dessa corte é o óleo de peixe, aquela cápsula translúcida que mora no armário de milhões de pessoas com a promessa tácita de manter a memória onde a deixamos. Só nos Estados Unidos, o gasto com suplementos de ômega-3 passa de US$ 1 bilhão por ano. Promessa de rótulo e evidência clínica, porém, são primas distantes, e de vez em quando alguém tem a má educação de convidar as duas para o mesmo experimento. Continuar lendo “Pesquisa mostra que Ômega-3 é muito bom pro cérebro, mas não é essa Coca-Cola toda que vendem” →