Quando ratos foram réus num julgamento e um advogado malandro os salvou

O recinto está preparado, a audiência se iniciará em poucos minutos. Os gentis-homens se posicionam com suas graves roupas, adequadas ao ofício que exercem. Chapéus bem arrumados, meias bem esticadas, túnicas bem alinhadas, casacões postos. Um deles passa a mão grossa pelo largo rosto e ajeita a barba; e com sobrancelhas fechadas, olhos diminutos e atentos farejando uma vítima, um réu, um culpado. O home que chega então anuncia que o réu não poderá tomar o lugar que lhe deve e um advogado é indicado. Outro grave homem se senta e espera que se dê início à sessão, pois ali o réu maldoso, o mal encarnado, o facínora será julgado.

A sessão tem início e o julgamento começa à revelia do ausente réu; a saber: um rato, e este talvez seja um dos mais estranhos julgamentos, mas não é o único de sua espécie. Continuar lendo “Quando ratos foram réus num julgamento e um advogado malandro os salvou”

A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas

Há coisas que a gente aceita como óbvias sem nunca se perguntar de onde vieram, e a luva cirúrgica é uma delas. Hoje, a ideia de um cirurgião enfiando as mãos nuas dentro de um paciente soa tão absurda quanto pedir a um eletricista que trabalhe descalço numa poça d’água. Mas até o fim do século XIX era exatamente assim que a medicina funcionava: sem luvas, sem lavagem de mãos entre um paciente e outro, e com uma taxa de mortalidade cirúrgica que beirava os 50%.

Esta é a história de como um romance salvou a cirurgia moderna. Continuar lendo “A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas”

O dinossauro nanico que explica os grandes predadores

Se você pensa que o Brasil só exporta bicho grande, indesejado e fedido como nossa política tributária, revise seus conceitos. Aqui tem dinossauro, e não estou falando de um monte de velharia na política. O Rio Grande do Sul, que já vinha acumulando currículo respeitável como celeiro de arcossauros triássicos (basta lembrar que ali nasceram os primeiros dinossauros conhecidos do planeta, os Staurikosaurus e companhia), acaba de somar mais um nome à lista.

Dessa vez, o fóssil não é um monstro de sete metros pronto para estrelar documentário com trilha sonora épica. É um bichinho do tamanho de um jacaré pequeno, com ossos contados nos dedos de uma mão, e ainda assim capaz de reorganizar um pedaço inteiro da árvore genealógica que separa, ou melhor, que une, crocodilos e dinossauros.

Sim, até dinossauro no Brasil acaba sendo chinfrim. Continuar lendo “O dinossauro nanico que explica os grandes predadores”

Artigos da Semana 315

Hoje é a finalzaça da Copa do Mundo, e estou escrevendo com antecedência. Não sei quem ganhou e, sinceramente, não dou a mínima. Gosto do espetáculos, admirar as boas jogadas, xingar as jogadas merdas e, principalmente, xingar o jogador filho da puta que faz escanteio curto. Seja você ávido torcedor ou não, aproveite o que foi postado durante a semana.

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Abriram uma múmia… e encontraram Homero lá dentro

Há descobertas arqueológicas que mudam datas. Há outras que mudam mapas. E há, muito raramente, aquelas que desafiam tudo o que pensávamos saber sobre o passado: arqueólogos encontraram um fragmento da Ilíada de Homero cuidadosamente colocado dentro de uma múmia egípcia de cerca de 1.600 anos, usado de forma intencional durante o processo de embalsamamento. Não se trata de um texto que caiu acidentalmente na tumba. É literatura grega elevada à condição de amuleto ritual, algo tão inesperado quanto imaginar Os Lusíadas enterrado junto a um antepassado para acompanhá-lo na eternidade. Continuar lendo “Abriram uma múmia… e encontraram Homero lá dentro”

O amor proibido nos tempos do algoritmo

O ser humano passou milênios escrevendo poemas para explicar por que o amor é irracional, um fogo que arde sem se ver, uma ferida que dói e não se sente. Então, inventou computadores capazes de conversar, decidiu transformá-los em namorados e, agora, chegou ao ponto em que um governo precisou publicar uma regulamentação para lembrar que, em princípio, pessoas deveriam se apaixonar por outras pessoas. Se algum arqueólogo do futuro encontrar apenas essa manchete, provavelmente concluirá que nossa civilização morreu de vergonha logo depois.

Foi exatamente isso que aconteceu na China. Entraram em vigor regras que proíbem sistemas de inteligência artificial de estimular dependência emocional ou funcionar como companheiros românticos da maneira como vinham fazendo.

Romanceando pelo algoritmo chatboteano, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “O amor proibido nos tempos do algoritmo”

A IA que vai ensinar seus filhos… e apagar o que eles realmente precisam aprender

Uma criança de onze anos senta-se à mesa depois da escola. Abre o notebook, digita o enunciado da redação ou do problema de matemática no ChatGPT, no Gemini, no Claude ou, na falta de coisa melhor, no tosco do Copilot. O robozinho cospe o resultado e o estudante feliz copia a resposta, troca duas ou três palavras para “parecer dela” (ou nem isso) e chuta pra frente. O professor, quando muito, passa o texto por um detector de IA, e o ciclo se fecha. A nota sai, todo mundo está satisfeito e ninguém pergunta se a criança aprendeu alguma coisa além de formular um prompt decente. Questionar é algo visto como perigoso, danoso e odioso em várias fases da História da Humanidade.

É exatamente nesse momento, quieto e doméstico, que o Apocalipse Tecnológico Moderno deixa de ser abstração e se instala dentro da própria formação cognitiva da próxima geração. Não com explosões nem com robôs assassinos. Com algo muito mais eficiente: a substituição sistemática do esforço intelectual por respostas prontas, personalizadas e sem atrito. Continuar lendo “A IA que vai ensinar seus filhos… e apagar o que eles realmente precisam aprender”

Starchild: a cabeçona misteriosa que deixou ufeiros em polvorosa

O calor opressivo estava batendo como um malho numa bigorna na longínqua década de 1930. Para muitos, seria algo para deixar morgando num alpendre com 300 ventiladores, ou trancado em casa com ar-condicionado no talo, mas para uma adolescente era um dia normal. Talvez por ser de origem mexicano-americana, já acostumada com o calor, a adolescente não estava desconfortável com o verão ao visitar parentes num pequeno vilarejo do interior de Chihuahua, naquele tipo de família binacional que atravessa a fronteira com a naturalidade de quem atravessa a rua.

Entediada com a vida rural e proibida pelos pais de se aproximar dos barrancos e minas abandonadas da região, a jovem fez exatamente o que qualquer adolescente proibida faria: fingiu sair para colher cerejas e foi explorar um desfiladeiro que lhe chamara a atenção. E esta decisão iria causar um impacto no que se sabe sobre Ciência, Arqueologia e até mesmo a busca por civilizações extraterrestres, e isso graças a uma cabeça de proporções descomunais. Continuar lendo “Starchild: a cabeçona misteriosa que deixou ufeiros em polvorosa”

Enshitification: a palavra de ordem justificando o que nossos avós diziam

Sabe quando os mais velhos dizem que antigamente tudo era melhor? Eles não estavam errados. Olhe ao redor e preste atenção. Da geladeira ao Sistema Operacional, dos carros até um forno, em que é preciso logins, e senhas, e IA, muita IA, cheio de IA e para que? Para você sentar na frente da TV e colocar um programa preferido, driblando comerciais. Uma pesquisa te dá tudo, menos o que você está pesquisando. Isso tem um nome: Enshitification, o, como eu prefiro traduzir livremente: esmerdalhamento das coisas. Continuar lendo “Enshitification: a palavra de ordem justificando o que nossos avós diziam”

Robô assiste robô cirurgião operando uma pessoa roboticamente

Imagine confiar a remoção da sua vesícula biliar a um bípede metálico de um metro e meio, pilotado à distância por alguém que talvez esteja de chinelos em casa. Pois é exatamente isso que uma equipe de engenheiros e cirurgiões da Universidade da Califórnia em San Diego acabou de fazer, com sucesso, inaugurando uma era em que a ficção científica perde a exclusividade sobre robôs vestindo (ou quase vestindo) jaleco.

Em resumo: pela primeira vez na história, dois robôs humanoides teleoperados realizaram cirurgias completas em um teste pré-clínico. Em uma delas, um robô trabalhou como assistente de um cirurgião humano numa remoção de vesícula biliar. Na outra, mais audaciosa, dois robôs humanoides operaram sozinhos, em dupla, sem nenhum humano de bisturi na mão. Continuar lendo “Robô assiste robô cirurgião operando uma pessoa roboticamente”