Uma brilhante história sobre os óculos

Simplesmente, Um Cristal

Você pode até pensar que lentes corretivas são recentes, mas não são. Não eram recentes nem na Idade Média. Uma das mais antigas lentes achadas até agora é a Lente Nimrud, também chamada de lente Layard, já que foi descoberta pelo viajante, explorador, arqueólogo, especialista em escrita cuneiforme, historiador de arte, desenhista, colecionador, político, diplomata e cavaleiro do Império Britânico sir Austen Henry Layard, em 1850.


Lente layard

A peça é um pedaço de cristal de rocha cortado com formato ligeiramente oval e lixada nas laterais, provavelmente com uma roda de lapidação. Ok, ela não estava totalmente lisinha ao toque, mas esta peça é um dos mais antigos instrumentos ópticos, tendo sido encontrada na cidade que hoje é chamada de “Nimrud” – nome dado por Karsten Niebuhr em 1760, em homenagem ao rei Nimrod (ou Ninrode) que aparece na Bíblia, mas não teve comprovação histórica até hoje –, cujo terreno se chamava Kalhu e pertencia ao império assírio, ficando ao sul do rio Tigre, na região setentrional (norte, ora bolas!) da Mesopotâmia.


Nimrud

Esta peça magnífica resistiu bem porque é feita de cristal de rocha, que é uma variedade cristalina de quartzo. Fora aqueles dois riscadões, até que ela está bem conservada pela idade. Atualmente, pertence ao acervo do British Museum.

A obra de referência escrita pelo seu descobridor, com 752 páginas de pura História, foi publicada com o título Discoveries in the ruins of Nineveh and Babylon; with travels in Armenia, Kurdistan and the desert: being the result of a second expedition undertaken for the Trustees of the British Museum e é magnífico ler uma obra na Era do Cavalheirismo, quando sir Layard diz que consultou dois especialistas franceses, mas não teve tempo de ler todos os trabalhos publicados por eles. Então, desculpou-se dizendo que se alguma das descobertas já tinha sido publicada por eles antes, ele registrava que a falta de menção era devido à sua ignorância e não ao preconceito.

De acordo com o livro de Layard, foram encontrados dois vasos (ambos com o nome de Sargão II, Rei da Assíria gravado neles). Um deles era de vidro, com cerca de 8,3 cm de altura e outro, feito de alabastro, com cerca de 17,8 cm de altura. Perto deles, a lente de Nimrud, a qual foi datada como estando entre 750 e 710 AEC. Esta magnífica lente possui diâmetro de 1,25cm, espessura (máxima, pois ela é irregular) de 0,25 cm, largura que varia de 3,45 a 4,2 cm (eu falei que era irregular, lembra?).


Vaso de alabastro com o nome de Sargão II gravado

Ainda de acordo com a descrição do seu descobridor, a lente Nimrud é plano-convexa. Sua superfície plana é bastante uniforme, embora mal polida e arranhada. A superfície convexa foi moldada em uma roda de lapidação, ou por algum método igualmente rude. Este lado convexo é toleravelmente polido e, embora desigual, a lente dá um foco toleravelmente distinto a uma distância de cerca de 11 a 12 cm (distância focal). Layard ainda afirma ser óbvio, pela forma e pelo corte rude da lente, que ela não poderia ter sido planejada como um ornamento, alegando ter o direito, portanto, de considerá-la como pretendida para ser usada como uma lente de aumento (com ampliação de cerca de 3 vezes) ou para concentrar os raios do sol, observando que ela faz muito imperfeitamente. Alguns autores alegaram que pode ter sido um pedaço de incrustação decorativa, mas pela descrição de Layard (e sua ênfase em dizer que era feia e mal-feita), é bem provável que não. Claro que quando uma peça foi feita há quase 3 mil anos, não se espera algo lindo e polido como as lentes atuais, não é, mesmo?

Péra. Isso significa que ela não é um óculos?

Não da forma como você entende; mas sim, é uma forma de auxiliar a aumentar coisa e ajudar a enxergar melhor.


Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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