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Uma brilhante história sobre os óculos

Olhando os Óculos que nos Olham

Tommaso Barisini nasceu Modena – província da Emilia-Romagna que hoje é a região nordeste da Itália– em 1326. Por causa do seu local de nascimento, ficou conhecido como Tommaso de Modena. Ele era um pintor renascentista e é creditado como o autor da mais antiga representação artística de alguém usando óculos.

Este mural fica na igreja de São Nicolau, em Treviso e retrata o cardeal Hugo de Saint-Cher, um comentarista da bíblico francês, tendo estudado Filosofia, Teologia e Lei Canônica, presidido vários concílios durante seu ministério, e emissário do papa Gregório IX como Legado Papal para Constantinopla em 1233. Foi Saint-Cher quem dividiu a Bíblia em capítulos, no ano de 1250. Sim, pois é. A Bíblia era um texto direto até esse momento, muito mal sendo separada em livros. Vamos dar uma olhadinha com mais detalhes:

Sei bem o que vocês estão pensando: Como ele foi representado de óculos se, pelo que se sabe até agora, os óculos só apareceram em torno de 1287?

A resposta é simples: ele não tinha óculos. Ele foi REPRESENTADO com óculos! Algo normal em obras artísticas, em que o pintor representa o objeto de sua obra mediante a sua realidade. Por exemplo, temos esta gravura representando Moisés (sim, o da Bíblia).

Ela foi feita por Diebold Lauber, para ilustrar o Deuteronômio de uma Bíblia datando entre 1441 e 1449. E antes que vocês perguntem, sim, aquilo são chifres. Isso foi devido a um erro de tradução do livro de Êxodo cap. 34, versículo 29 (também nos versículos 30 e 35), em que Moisés retorna com os Mandamentos pela segunda vez. A Vulgata Latina traduziu o termo hebraico q?ran como para o latim que seria aportuguesadamente

E quando Moisés desceu do monte Sinai, ele segurou as duas tábuas do testemunho, e ele não sabia que seu rosto estava chifrado da conversa do Senhor.

Atualmente, a tradução mais aceita para Êxodo 34:29 é

E aconteceu que, descendo Moisés do monte Sinai trazia as duas tábuas do testemunho em suas mãos, sim, quando desceu do monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, depois que falara com Ele.

E foi por causa desta confusão da Vulgata que até mesmo Miquelângelo colocou chifres no pobre Moisés.


Dude, what?

Voltando a Tomaso de Modena, fica nítido que ele apreciava empregar em seus afrescos lentes e óculos como artifício para auxiliar a leitura, como é o caso do mural retratando o cardeal Nicholas de Rouen:

Antes que você critique que Tomaso de Modena era pouco criativo, devo salientar que as imagens são iguais, pois, fazem parte do mesmo mural na Igreja de São Nicolau, numa ala chamada Sala del Capitolio dei Dominicani. Sim, foi de propósito.

Durante o século XIV os óculos ainda eram de armação pesada. Assim, era bem pouco provável que eles ficassem empoleirados sobre o nariz sem ajuda. Efetivamente, as pessoas tinham que segurá-lo com uma das mãos. Só mais tarde eles começaram a ficar leves o suficiente parar ficarem lá sem você precisar segurá-lo. Ah, e outra coisa: até então, os óculos eram convexos, ou seja, só serviam para hipermetropes, ou seja, para quem tinha dificuldade de ver à curta distância. Só em meados do século XV os mestres vidreiros começaram a desenvolver técnicas para produzir lentes côncavas. Um dos motivos era que o Papa Leão X (1475-1521) era míope. Agora, óculos serviam para enxergar além do alcance!

Florença, como sempre naquela época, entendeu o apelo mercadológico dos óculos. Daí, liderou a inovação com a produção, venda e a difusão de óculos dentro e fora da península italiana. Cartas dos duques de Milão, Francesco e Galeazzo Maria Sforza, datadas de 1462 e 1466 respectivamente, revelam as primeiras informações detalhadas sobre os óculos desde a sua invenção.

Porque há muitos que nos pedem óculos que são feitos lá em Florença, desde que é reputado que eles são feitos mais perfeitamente [lá] que em qualquer outro lugar na Itália, nós desejamos e lhe cobramos o envio de três dúzias dos acima mencionados óculos, colocados em caixas para que eles não quebrem; isto é, uma dúzia daqueles aptos e adequados para a visão distante, isto é, para os jovens; outras [dúzias] que são adequadas para visão de perto, isto é, para os idosos; e a terceira [dúzia] de visão normal. Informamos que não os queremos para nosso uso porque, graças a Deus, não precisamos deles, mas queremos que eles agradem a este ou àquele que nos pede. Envie-os pelo correio para nossos transportadores, direcionando-os para nossa secretária Giovanni Simonetta. Informe-nos sobre seu custo para que possamos enviar o dinheiro.

Carta datada de 21 de outubro de 1462, enviada pelo duque Francesco Sforza de Milão (1401-1466) ao seu embaixador residente em Florença, Nicodemo Tranchedini de Pontremoli (1411-1481). Original em Paris, Bibliothèque Nationale

Isso demonstra como a República Florentina produzia em escala quase industrial não apenas lentes convexas, mas também lentes côncavas, tornando Florença o principal fabricante de óculos de boa qualidade prontamente disponíveis e acessíveis, o que acabou por baratear o preço, já que as leis da Oferta e Procura já eram bem conhecidos pelo pessoal que praticamente começou o Capitalismo naquelas bandas.

A documentação maciça disponível apenas em Florença para este período inicial revelou o nome de cinquenta e dois fabricantes de óculos entre 1413 e 1562 e a localização das suas lojas. O grande número de óculos que circulavam no noroeste da Europa (especialmente Londres) do século XIV estava sendo produzido em massa nos Países Baixos. Eles foram, então, fabricados na Inglaterra a partir do século XV. Outros centros de produção, como Alemanha, França e Holanda, começaram a aparecer com mais frequência nas fontes apenas no século XVI, mas nunca produziram nada próximo da quantidade da documentação florentina até o século XVII.

Até então, os vidros usados na fabricação de lentes não eram lá de primeira qualidade. Ou até eram, mediante a tecnologia disponível na época. Cada vez mais, o vidro óptico ia se tornando uma necessidade comercial. Galileu e seu telescópio tamabém estiumularam a produção de vidros de maior qualidade, mas isso só se daria em 1609. Enquanto isso, os vidros ópticos eram uma raridade. O problema era a técnica de manufatura do vídeo, bem como sua composição química.

Os vidros usados nos séculos XV e XVI eram essencialmente vidros de soda-cal, feitos com a sílica proveniente da areia, óxido de sódio (soda), óxido de cálcio (cal) e óxido de alumínio. Só no século XVII começaram a aparecer os vidros Flint, vidros feitos com sílica de alta pureza, para depois surgirem os vidros Crown, mais puros ainda, criados por George Ravenscroft, em 1662, aproximadamente. Ravenscroft começou a produzir um vidro de chumbo e potássio que foi o precursor do cristal de chumbo inglês, sendo o chumbo o responsável pelo brilho do vidro, tornando-o mais bonito.

Fabricantes de lentes passaram, então, a usar uma combinação dos vidros flint e crown para a manufatura de lentes. O vidro laminado foi lançado pela primeira vez em 1688 em St. Gobain, na França, mas só em 1807 a P. L. Guinaud & Son operou a primeira fábrica de vidro óptico de sucesso. Este vidro foi desenvolvido por Fraunhoffer, embora Dollond usasse sílica e vidro Crown para fazer lentes acromáticas em 1757.

Em muitos vidros ópticos modernos, os óxidos de chumbo são substituídos por outros óxidos metálicos, como dióxido de titânio e dióxido de zircônio, sem alterar significativamente as propriedades ópticas do vidro.

Ainda assim, os óculos ainda tinham problemas de ficar no lugar. Era hora de mais uma inovação.


Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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