Uma brilhante história sobre os óculos

Um Manuscrito Apenas

Umberto Eco, em seu romance O Nome da Rosa, relata (sob a pena de um certo monge Adso de Melk) os acontecimentos sanguinários ocorridos numa abadia italiana no ano que ele especifica muito claramente ser o ano de 1327. Ao chegar na sala de leitura, Guilherme de Baskerville (clara alusão à obra “Cão dos Baskervilles”, uma aventura de Sherlock Holmes) toma um apetrecho interessante.

Guilherme enfiou as mãos no saio (…) e tirou de lá um objeto que já lhe tinha visto nas mãos, e no rosto, no decurso da viagem. Era uma forquilha, construída de modo a poder estar sobre o nariz de um homem(…). E dos dois lados da forquilha, de modo a corresponder aos olhos, arredondavam-se dois círculos ovais de metal, que encerravam duas amêndoas de vidro espessas como fundos de copo. Guilherme lia de preferência com aquilo sobre os olhos e dizia que via melhor do que a natureza o tinha dotado ou do que a sua idade avançada, especialmente quando declinava a luz do dia, lhe permitiria. Não lhe serviam para ver ao longe, que pelo contrário tinha a vista agudíssima, mas para ver ao perto.

Tudo neste parágrafo é importante para este texto, sobre o que eu vou explicar mais adiante, mas se você prestar atenção, já pode antever (com ou sem ajuda de óculos) o que virá daqui a pouco. Vamos dar um pulo na narrativa até o encontro dele com o mestre vidreiro Nicolau de Morimondo.

Nicolau pegou na forquilha que Guilherme lhe estendia com grande interesse:

Oculi de vitro cum capula! – exclamou. – Já tinha ouvido falar disso a um certo frei Giordano que conheci em Pisa! Dizia que não havia ainda vinte anos que tinham sido inventados. Mas falei com ele há mais de vinte anos.

– Creio que foram inventados muito antes – disse Guilherme –, mas são difíceis de fabricar e requerem-se mestres vidreiros muito experientes. Custam tempo e trabalho. Há dez anos, um par desses vitrei ab oculis ad legendum foram vendidos em Bolonha por seis soldos. Eu recebi um par como presente de um grande mestre, Salvino degli Armati, há mais de dez anos, e tenho-os conservado ciosamente por todo este tempo, como se fossem (como já são) parte do meu próprio corpo.

Se você se confundiu com o latim, oculi de vitro cum capsula significa “olho de vidro montado em pequena armação”. Já Guilherme chamou vitrei ab oculis ad legendum ou “olhos de vidro para ler”. Vamos posicionar o apetrecho no tempo, segundo a obra.

O livro diz que os acontecimentos se passaram no ano 1327. Nicolau de Morimondo, o Mestre Vidreiro, disse que teve conhecimento do oculi di vitro cum capsula por meio de um frei com quem ele falara há mais de 20 anos. Sendo assim, foi bem antes de 1307. Digamos que foi no ano 1300. O frei teria dito que foram inventados não havia 20 anos, o que posiciona o invento algo depois de 1280.

Em 1306, um certo dominicano chamado Giordano da Rivalto disse em um sermão na Basílica de Santa Maria Novella, em Florença:

Não se passaram vinte anos desde que a arte de fazer óculos foi encontrada, o que faz com que pareça boa, que é uma das melhores e mais necessárias artes que o mundo tem, e tão recentemente que ele conheceu […] eu vi aquele que primeiro encontrou e fez isso, e eu falei com ele.

Portanto, acadêmicos concordam que o mais provável é que a invenção tenha sido por volta de 1286-1287.

O Mestre Vidreiro da obra de Umberto Eco menciona um certo frei Giordano e muito provavelmente se referia ao frei do discurso acima. O detalhe que é que a homília não dizia quem fora o inventor dos óculos, mas muito provavelmente se referia ao frei, também dominicano, Alessandro della Spina, que fazia parte do mosteiro anexado à igreja de Santa Caterina d’Alessandria, em Pisa.

Na Chronica antiqua conventus Sanctae Catharinae de Pisis, do século XIV, dom Alessandro della Spina foi descrito como uma pessoa modesta, um copista especialista em iluminuras, muito engenhoso, versado na mecânica e arquiteto de óculos. Como a homilia de Giordano não dizia quem fora o inventor dos óculos, um certo Ferdinando Leopoldo Del Migliore se aproveitou da ausência do nome e atribuiu a invenção a Salvino D’Armato degli Armati. Motivo? Os dois eram de Florença, numa prova de imenso bairrismo. A atribuição estava no livro Firenze cittá noblissima illustrata (Florença, cidade nobilíssima, Ilustrada). A mentira só foi desmascarada pelo filólogo Isidore del Lungo somente em 1920!

De acordo com Guilherme, ele tinha seus vitrei ab oculis há mais de 10 anos, ou seja, tinha-os ganho antes de 1317, e nessa época eram vendidos a 10 soldos. Mas o que era e quanto valia este soldo? Vamos dar uma pausa no assunto para conversar um pouco sobre sistemas monetários da Itália Medieval, já que ao estudar para compor este texto, acabei achando o assunto muito interessante. Sim, eu sou desses! Mas se quiser, pode pular o capítulo seguinte e continuar a discussão sobre o que se passou no romance.


Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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