Hackers fazem geladeiras entrarem numa fria

Eu acho que nada é mais simples que uma geladeira. Você liga na tomada, ela fica gelada por dentro. O que pode ser complicado? Simples: no mundo da enshitification, até coisas simples como geladeiras ficam complicadas. Aí alguém resolveu que conservar comida precisava de interface na internet, manutenção remota e software que depende de uma cadeia de empresas e contratados. Como falei lá no artigo linkado acima, a geladeira da casa dos seus avós durou trinta anos, tinha motor simples, tubulação de cobre, sem firmware, sem parafuso proprietário, sem nada que exigisse chamar assistência técnica autorizada para trocar uma peça de cinco reais. Agora, esta bagaça tem até tablet. PARA QUE?

Agora, o último caso envolvendo geladeiras modernas foi quando um agente infeccioso invadiu equipamentos em centenas de supermercados franceses. A infecção aqueceu o que deveria estar gelado, estragou toneladas de alimentos e, em algumas unidades, provocou incêndios. Em novembro, a infecção voltou. Continuar lendo “Hackers fazem geladeiras entrarem numa fria” →

O casamento por interesse do carro que voa e o foguete que pousa

Li o artigo do Verge sobre os apuros de Penélope, digo, de Elon Musk com o balanço da Tesla. Segundo o Verge, a receita estacionou, o lucro encolheu e nem carro voador disfarça a encrenca. Soma-se a isso que Musk disse que uma fusão entre Tesla e SpaceX seria uma boa ideia, e os conselhos das duas já formaram comitês para examinar a hipótese, provavelmente com uma engolindo a outra. Mas será que a Tesla está mesmo mal das pernas? A quantas anda o lucro dela?

A pergunta parece de cartório, mas a resposta mora no balanço, e existe uma modalidade de lucro que dispensa vender qualquer coisa: basta comprar uma fatia da empresa do vizinho e torcer para o vizinho valer mais. Se o vizinho for tocado pelo mesmo sujeito que toca a sua empresa, o enredo ganha tempero de novela das nove, com casamento marcado para o último capítulo. Quem acompanha a série já conhece o elenco: o sujeito é Elon Musk, o vizinho é a SpaceX, cujo IPO O Globo já questionava, perguntando se valia mesmo tudo aquilo, e cuja queda comentei no post de 23 de junho. Mas há mais coisas entre as luzinhas piscantes da Bolsa do que sonha a nossa vã filosofia. Continuar lendo “O casamento por interesse do carro que voa e o foguete que pousa” →

Quando um exército de robozinhos capitaneados por um programador humilhou big techs

Houve um tempo, não muito distante, em que você entrava numa loja, escolhia um produto, pagava e, pasme, a coisa era sua! Comprava um disco e ouvia até a humanidade desenvolver orelhas de reposição. Com os programas era parecido: pagava, instalava e usava aquela versão enquanto o computador aguentasse. Isso sempre foi maravilhoso.

Claro, foi uma corrida para impedir que as pessoas espalhassem seus programas com os amigos, e daí veio a corrida para impedir, craqueadores burlavam a segurança e estava tudo bem, já que a verdade é que Microsoft não estava nem aí se o Zezinho morador de Nova Iguaçu tinha comprado um Uíndous Jack Sparrow. Ela ganha dinheiro com as empresas, mesmo. Continuar lendo “Quando um exército de robozinhos capitaneados por um programador humilhou big techs” →

Kadesh: o outdoor mais caro da Idade do Bronze, agora com caco novo

A única verdade dita nos filmes do Indiana Jones é que a maior parte do trabalho de um arqueólogo é feito em bibliotecas. A segunda maior parte do trabalho é catar uns cacos por aí e tentar dar significado ao que tem lá, além de tentar escapar de algumas maldições (corte de verbas é uma delas). Aliás, eu acho que o arqueólogo fica muito mais feliz com múmias e cacos de argila (não que achar uma máscara de ouro como a do Tut faça algum mal, mas, convenhamos, não é algo que acontece todos os dias).

A rigor, arqueólogos ficam mais do que loucamente excitados quando descobrem umas tabuletas de argila, ainda mais algo que há muito tempo estava perdido e, de repente, chega à luz do dia: o tratado de paz firmado depois da Batalha de Kadesh. Continuar lendo “Kadesh: o outdoor mais caro da Idade do Bronze, agora com caco novo” →

A cabeça enorme que enganou muita gente e enriqueceu um esperto

Eu fui numa feira de antiguidades uma vez (obrigado, óbvio. Eu sou apenas o marido e sou que nem criança: vou para onde me levam). Eu não entendo como alguém pode gostar de coisa velha (exceto na hora de comprar celular, cortinas etc), daí fica-se um tempão olhando aquilo, principalmente sabendo que é ótimo na loja, mas ninguém vai comprar aquelas monstruosidades. É um imenso tempo perdido e, claro, você vai ler o primeiro parênteses e entender como fui parar lá.

Inexoravelmente (eu sempre busco alguma forma de colocar “inexoravelmente” num texto, e quase nunca consigo) você vai encontrar aquele item de péssimo gosto que ninguém quer: o bicho empalhado torto, de olho esbugalhado, que alguns compram por causa de altas concentrações de álcool no sangue e visando fazer rir o vizinho também altamente alcoolizado. Então, por mero e ridículo capricho do Destino (que eu acho que TAMBÉM estava alcoolizado), alguém tira a sorte grande. Continuar lendo “A cabeça enorme que enganou muita gente e enriqueceu um esperto” →

Artigos da Semana 322

Hoje é um domingo que é sábado, já que amanhã é feriado e eu estou aqui no bem-bom descansando, como convém a idosos como eu. Vocês jovens que se ralem de trabalhar. Aí, ó. A calçada tá suja e a ia tá imunda. Vão lá limpar. Depois podem ler o que foi postado durante a semana!

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O bolo de Ea-Nasir (sim, aquele pior comerciante da História)

Vocês conhecem a história de Ea-Nasir, o vendedor de cobre vagabundo e trapaceiro que eu já apresentei por aqui como o pior comerciante da História. Ele vendia cobre saído do Golfo Pérsico para a Mesopotâmia, ostentava o cargo oficial de “Alik Dilmun” — importador licenciado que ia até o atual Bahrein trocar prata, cevada e tecido por metal — e morava numa casa de sete cômodos com capela particular, escavada nos anos 1920 pelo arqueólogo Leonard Woolley, que resolveu batizar as ruas de Ur com nomes ingleses só porque podia. Resultado: o maior vigarista documentado da Idade do Bronze mora, para efeitos de citação acadêmica, na Old Street número 1.

Mas tem algumas coisinhas que eu não falei. Continuar lendo “O bolo de Ea-Nasir (sim, aquele pior comerciante da História)” →

A IA procurou uma agulha em 100 milhões de palheiros e achou seis

Há problemas científicos que parecem ter sido criados especificamente para testar a paciência humana. Impressoras, por exemplo. Quem nunca foi vítima de uma impressora de TPM porque ela viu que você estava com pressa e a deadline de entregar o trabalho expirou e ela manda um DANE-SE, MEU PARÇA, e não imprimiu? Em outra situação, você tem uma liga metálica excepcionalmente resistente ao calor, desenvolvida para aplicações aeroespaciais, sabe que ela pode ser impressa em 3D, mas existe um pequeno detalhe: quase nenhuma impressora comercial consegue fazê-lo adequadamente impressoras são sempre impressoras!). Comofas?

Bem, você poderia testar uma combinação de potência do laser, velocidade de impressão e outros parâmetros até encontrar uma configuração que funcione. Só há um inconveniente: existem mais de 100 milhões de combinações possíveis. Nesse ponto, a expressão “vamos tentar algumas opções” começa a adquirir um significado quase cômico. Continuar lendo “A IA procurou uma agulha em 100 milhões de palheiros e achou seis” →

Jurassic Pix: porque o brasileiro ama um golpe (de todo tipo)

O Spielberg passou décadas nos avisando sobre os perigos de brincar de Deus com répteis pré-históricos, e a resposta da civilização, trinta anos depois, foi: “e se a gente vendesse esses bichos no WhatsApp por quinhentos reais?” Um tio de quarenta e poucos anos, mineiro e de bom coração, ainda que só tendo um, chegou a considerar seriamente a compra de “mini dinossauros” anunciados nos status de um contato qualquer. Claro, isso já grita GOLPE DE GOLPISTA GOLPEANDO, mas o brasileiro não dá bola para essas coisas.

Não pergunte como o tio chegou nesse contato, e convenhamos que é o menor dos mistérios aqui. Obviamente, era um engodo, mas aprendemos que se é um vídeo na Internet, claro que é verdade!

Não poupando despesas ao apontar a dinossaurônica loucura do mundo, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “Jurassic Pix: porque o brasileiro ama um golpe (de todo tipo)” →

Serviços e Emergência começam a ser atendidos por robôs, até os que já são e ninguém sabia

Quando se está em perigo, o melhor é pedir ajuda, claro. Para isso existe o serviço de Emergência: EUA: 911, Reino Unido: 999 e 112, Portugal: 112, Brasil: uma algaravia e números e você que se dane para decorar todos eles (para depois ser ignorado). O lance é dinamizar e ter u sistema que atenda rápido e seja eficiente. Muitos serviços automatizaram seus protocolos (automatizaram até acender a luz), e o atendimento dos serviços de Emergência agora caminham pera serem automatizados via algum ChatBot da via, como está acontecendo nos EUA. E você já deve imaginar o que vem por aí. Continuar lendo “Serviços e Emergência começam a ser atendidos por robôs, até os que já são e ninguém sabia” →