O crocodilão maligno que sonhava com hominídeos

Quando pensamos na evolução humana, costumamos imaginar nossos ancestrais enfrentando desafios grandiosos: aprender a caminhar sobre duas pernas, fabricar ferramentas, dominar o fogo e, eventualmente, dar origem a uma espécie capaz de construir arranha-céus, sondas espaciais e aplicativos para entregar hambúrgueres em quinze minutos. O que raramente aparece nessas narrativas é que, durante boa parte dessa jornada, nossos antepassados também precisavam lidar com um problema bastante básico: evitar ser devorados.

A pré-história costuma ser romantizada como uma aventura heroica rumo ao progresso. Mas a realidade provavelmente parecia menos um documentário inspirador e mais um episódio permanente de sobrevivência extrema. Há cerca de três milhões de anos, na região da atual Etiópia, os ancestrais humanos viviam em um ambiente onde beber água exigia a mesma cautela que hoje alguém teria ao abrir um e-mail com o assunto “urgente” enviado pelo chefe às seis da tarde de uma sexta-feira. Continuar lendo “O crocodilão maligno que sonhava com hominídeos”

O Vale das Baleias Mortas

A humanidade tem um talento quase artístico para acreditar que já conhece o próprio planeta. Afinal, já fotografamos buracos negros, enviamos sondas para além dos limites do Sistema Solar e colocamos satélites suficientes em órbita para que uma geladeira consiga reclamar da velocidade da internet. É fácil imaginar que os grandes mistérios geográficos ficaram para trás, enterrados em alguma época em que exploradores navegavam usando mapas desenhados por pessoas que claramente estavam improvisando.

Mas a Terra adora destruir nossa confiança. Continuar lendo “O Vale das Baleias Mortas”

Sistema sabe aonde você vai e onde está. Esta fofoca pode salvar muitas vidas

Você não tem privacidade. Não existe mais esse conceito, a não ser como lembrança nostálgica, do tipo que os mais velhos evocam com um suspiro e um olhar distante, como quando falam em Fusca ou em disquete. Seu celular sabe onde você está, com quem você conversa, o que você consome, o que você deseja consumir e, se você usa qualquer aplicativo minimamente invasivo, provavelmente sabe quantas horas você dormiu e se estava nervoso quando acordou, desenhando um mapa fiel das suas andanças com uma precisão que qualquer detetive de noir dos anos 1940 encararia com admiração e ciúme.

É com essa constatação um tanto assustadora que chegamos a uma das aplicações mais elegantes e, convenhamos, levemente irônicas da vigilância de massas: usar esses dados de mobilidade para prever onde uma epidemia vai explodir antes que ela exploda. A ideia soa como aquela virada de enredo em que o vilão descobre que pode usar seus poderes para o bem, exceto que, neste caso, o vilão são as telecomunicações e o bem são as crianças que não vão morrer de sarampo. Continuar lendo “Sistema sabe aonde você vai e onde está. Esta fofoca pode salvar muitas vidas”

A Guerra das Invenções Idiotas

A Segunda Guerra Mundial foi, entre outras atrocidades, o maior laboratório de gambiarra da História Humana. Sim, ela nos deu o radar, o motor a jato, o míssil balístico e a bomba atômica; mas também nos deu um urso sargento, um submarino afundado por descarga sanitária e uma proposta de incendiar Tóquio com morcegos colados. A humanidade, quando colocada sob pressão extrema, não apenas sobrevive: ela delira com produtividade assustadora. O que se segue é um catálogo honesto desse delírio. Continuar lendo “A Guerra das Invenções Idiotas”

Artigos da Semana 309

Teve feriadão nesta semana e eu, aqui, tive divertimento de adultos (dormi até tarde, levantei, almocei, volte pra cama, levantei, jantei, voltei pra cama. Recomendo!). Espero que vocês tenham sido muito produtivos (em nenhum momento eu serei louco em achar que produziram algo útil). Claro, nunca abandono meus 3 leitores e deixei artigos entrando (ops) automaticamente.

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A misteriosa bola dourada do fundo do oceano

Em agosto de 2023, o veículo submarino de operação remota Deep Discoverer, pertencente ao navio de exploração Okeanos Explorer da NOAA, estava farejando o fundo do Golfo do Alasca a cerca de 3.250 metros de profundidade – algo próximo a três quilômetros e um quarto abaixo da superfície – quando deparou com algo que ninguém conseguia explicar: uma esfera dourada de uns dez centímetros de diâmetro, grudada numa rocha como se fosse um enfeite de Natal extraviado no fundo do mar. As reações da equipe, transmitidas ao vivo, foram um estudo de caso em perplexidade científica institucionalizada. “Eu não sei o que pensar sobre isso”, disse um. “Meu primeiro palpite seria uma esponja, mas…”, tentou outro, antes de sugerir, com a seriedade de quem acabou de resolver o enigma do universo, que talvez fosse uma boa ideia cutucar o negócio para ver se era duro.

O objeto foi coletado com o sugador do robô e enviado ao Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian. O que se seguiu foi um dos casos mais democraticamente frustrantes da ciência moderna: mais de dois anos e meio de investigação para descobrir que aquilo era, no fundo, uma pegada. Continuar lendo “A misteriosa bola dourada do fundo do oceano”

Artigos da Semana 308

Enquanto pessoal anda se matando por causa de bobagens como se o Neymar vai pra Copa do Mundo, o que está gerando muito debate idiota e ótimos memes em vídeo, estou aqui no meu canto vendo o que o Papa andou falando da IA, como big techs odeiam privacidade, mulheres tocaram negócios e se tornaram comerciantes poderosas e até como pessoal anda sendo investigado para verem se tem DNA de alienígenas.

Tudo mais interessante que o tosco do Neymar.

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Melatonina como consertadora de DNA

Durante centenas de milhares de anos a regra foi simples e eficiente: escurece, dorme; amanhece, acorda. Até que alguém inventou a lâmpada elétrica e declarou guerra ao relógio biológico. Hoje, milhões de pessoas – enfermeiros, médicos, vigilantes, motoristas, operadores industriais e seu filho adolescente – vivem em permanente negociação com o próprio corpo. O problema é que o relógio circadiano não faz acordo coletivo. Enquanto o cérebro tenta se convencer de que 3h da manhã é um horário perfeitamente razoável para tomar decisões importantes, o organismo continua recebendo o sinal ancestral: “Está na hora de dormir.”

Uma das primeiras vítimas dessa confusão é a melatonina. Continuar lendo “Melatonina como consertadora de DNA”

Os ET pede, o tosco dá, depois a CIA fica na cola de quem fez DNA

Há um tempo atrás, andava na moda querer saber os ancestrais. Os paulistenses não precisaram fazer isso, pois, é mais fácil e mais barato usar sotaque italiano de novela da Globo e mencionar alguma nona perdida (o mais próximo da Itália que têm relação é macarrão, e isso é mais chinês que italiano). Se você é um desses manés e já cuspiu num tubinho de plástico e mandou pelo correio para descobrir se tem ascendência italiana, nórdica ou algum bisavô turco que a família preferia não mencionar, há uma possibilidade que o folheto informativo omitiu completamente: você pode ter fornecido material genético para uma operação secreta da CIA em busca de híbridos extraterrestres.

Etzando a ascendência dos outros, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “Os ET pede, o tosco dá, depois a CIA fica na cola de quem fez DNA”

Artigos da Semana 307

O dia começou uma merda. Na verdade, começou no fim do dia de ontem quando eu fiz uma cagada e alguns arquivos PUF, desapareceram. Por sorte, corri pras IA e as IA me ajudaram a resolver. Não resolveu 100%, mas 95%, o que já tá ótimo, e isso a um custo de 2 centavos de dólar. De repente, eu conto como foi, se vocês quiserem saber, com todo caminho das pedras. Enquanto isso, vejam o que eu postei durante a semana.

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