
Imagine jantar num restaurante à beira-mar, pedir um peixe grelhado aparentemente inocente e acordar dois dias depois sem qualquer memória do que aconteceu. Não é o enredo de um thriller psicológico nem o relato de uma festa que saiu do controle. É o que pode acontecer quando alguém tem o azar, ou a curiosidade, de comer a Sarpa salpa, modestamente conhecida no mundo árabe como “o peixe que faz sonhos.” Os romanos chamavam-lhe delicatessen. A ciência moderna denomina esse fenômeno de ichthyoallyeinotoxism, dito em latim científico para soar menos embaraçoso nos relatórios hospitalares, porque “intoxicação alucinogênica por peixe” não tem, convenhamos, a dignidade que a situação merece.
Viajando firme na peixaria, chapadões durante o Império, esta é a sua SEXTA INSANA!
A Sarpa salpa é um membro perfeitamente banal da família Sparidae, a mesma de vários peixes que aparecem em restaurantes mediterrâneos sem qualquer pretensão psicotrópica. Tem riscas douradas ao longo do corpo prateado, habita desde o Atlântico africano até o Mediterrâneo, e foi formalmente descrita por Lineu em 1758 na décima edição do Systema Naturae, sem que o pai da taxonomia moderna tivesse parado para mencionar as suas propriedades alucinogênicas. Talvez Lineu nunca a tivesse comido mal preparada. Ou talvez sim, e a décima edição do Systema Naturae tenha sido escrita num estado particularmente alterado de consciência, o que explicaria algumas de suas classificações mais criativas.
As propriedades psicoativas da salema provêm, ao que tudo indica, de sua dieta. A Sarpa salpa se alimenta de fitoplâncton e algas marinhas que contêm toxinas neuroativas (possivelmente compostos indólicos ou substâncias relacionadas a dinoflagelados e cianobactérias), as quais se acumulam nos tecidos do animal, sobretudo no cérebro, no fígado e nas vísceras. A parte mais alucinogênica é a cabeça, o que ajuda a explicar por que os romanos consumiam especificamente os miolos. Há aqui um detalhe ecológico importante que raramente aparece nas versões jornalísticas do assunto: nem toda Sarpa salpa é problemática. A toxicidade depende do ambiente onde o peixe viveu e do que comeu, o que transforma qualquer prato de salema num pequeno experimento químico probabilístico. Às vezes é jantar; às vezes é outra coisa.
O estudo de referência sobre o tema foi publicado em 2006 no Clinical Toxicology por Luc de Haro e Philip Pommier, do Centre Antipoison do Hospital Salvator em Marselha. Os pesquisadores documentaram dois casos modernos de intoxicação e concluíram que os efeitos se assemelham mais a um surto delirante do que ao LSD propriamente dito: há ansiedade intensa, paranoia, distorções sensoriais vívidas e uma amnésia quase total do período alucinatório. A comparação com o LSD que circula nos títulos jornalísticos é, portanto, mais apelativa do que rigorosa. Outro estudo, de 2012, confirmou que a toxicidade varia sazonalmente, atingindo o pico no outono, embora a maioria dos relatos surja na primavera e no verão, coincidindo, talvez não por acaso, com a época alta do turismo.
A salema não é, aliás, uma anomalia isolada no catálogo de intoxicações neuroativas por frutos do mar. A ciguatera, causada por toxinas de dinoflagelados acumuladas em peixes tropicais, provoca alucinações e inversão da percepção de temperatura. A tetrodotoxina do baiacu bloqueia canais de sódio e pode matar. O ergotismo, que se desenvolve a partir de um fungo em cereais, foi responsável por surtos de alucinações coletivas na Europa medieval. A natureza tem, a esse respeito, um repertório generoso e completamente gratuito.
Os dois casos documentados por De Haro e Pommier são, cada um à sua maneira, memoráveis. O primeiro envolve um homem de 40 anos que, em 1994, estava de férias na Riviera Francesa e pediu uma salema fresca num restaurante. Cerca de duas horas depois do jantar, desenvolveu náuseas, visão turva, fraqueza muscular e vômitos. Quis dirigir até casa, mas foi impedido pelas perturbações sensoriais que o cercavam. Foi internado e se recuperou 36 horas depois, sem guardar qualquer memória do período. O segundo caso é ainda mais digno de nota: um homem de 90 anos, saudável para a idade, começou a ter alucinações auditivas duas horas depois de jantar salema.
Durante as duas noites seguintes sofreu pesadelos repetidos e perturbadores. Decidiu não contar a ninguém, convencido de que estava desenvolvendo uma doença mental. Recuperou-se espontaneamente ao fim de três dias. Alguém deveria escrever um conto sobre os processos cognitivos de um nonagenário tentando decidir, em completo silêncio, se enlouqueceu ou não. A resposta, na maioria dos casos, é: provavelmente não. Desta vez.
O uso deliberado da salema como substância psicoativa remonta, segundo fontes de confiabilidade variável, ao Império Romano, onde era supostamente servida em banquetes especiais. Os polinésios também a teriam utilizado em contextos cerimoniais. Nenhuma fonte primária antiga documenta inequivocamente essas práticas, o que não impediu que a afirmação circulasse com a confiança de quem a verificou pessoalmente.
A historiografia popular tem esse talento particular: repetir uma coisa com entusiasmo suficiente até ela adquirir o status de fato. O que existe, de fato, é uma convergência improvável: culturas sem contato entre si desenvolveram nomes específicos para esse peixe em função de seus efeitos, o que sugere que a descoberta não foi um acidente único, mas o mesmo acidente repetido em latitudes diferentes, por pessoas que sobreviveram e decidiram voltar para mais. É o mesmo princípio que explica cogumelos, plantas e animais psicoativos em toda a história humana: alguém passou muito mal, e depois voltou.
Há pelo menos outros dois peixes com nomes igualmente poéticos no repertório da ichthyoallyeinotoxism: a Siganus spinus, chamada “o peixe que inebria” na ilha da Reunião, e a Mulloidichthys flavolineatus, conhecida como “o chefe dos fantasmas” no Havaí. O fato de culturas tão geograficamente distantes terem desenvolvido classificações populares baseadas nos efeitos psicoativos desses peixes sugere que a experiência de perceber coisas inexistentes após um jantar de peixe é suficientemente comum para merecer nome próprio e suficientemente marcante para que ninguém se esqueça de registrá-la.
A Ciência, por seu lado, ainda não determinou com certeza se as toxinas são produzidas pelos próprios peixes ou acumuladas a partir das algas que consomem, embora a hipótese dietética seja a mais aceita. Enquanto o debate continua, os peixes continuam sendo pescados e servidos.
Do ponto de vista da segurança alimentar, a mensagem é tecnicamente simples: o corpo da salema pode ser consumido sem perigo; o risco se concentra na cabeça e nas vísceras. Na prática, é um pouco mais complicado, porque a toxicidade varia de exemplar para exemplar e ao longo do ano, tornando impossível saber, apenas pela aparência do prato, o que vai acontecer a seguir. A salema faz parte da dieta habitual na França, na Tunísia e em Israel, e é considerada imprópria para consumo na Espanha e na Itália, o que sugere sabedoria popular acumulada, muito mais eficiente do que esperar que a toxicologia resolva o assunto.
Um fotógrafo da National Geographic, Joe Roberts, quis experimentar deliberadamente e pediu a um cozinheiro que preparasse a salema com abóbora refogada. Relatou que as visões foram menos intensas do que os casos descritos na literatura, e que não foram negativas. Esta é, naturalmente, uma metodologia científica com limitações óbvias, mas Roberts sobreviveu, e o relato existe.
O que a história da Sarpa salpa realmente ilustra não é só a criatividade da natureza em matéria de neuroquímica. É a persistência com que a humanidade, em todos os séculos e latitudes, se empenhou em encontrar formas de alterar a percepção, e a elegância com que o mercado contemporâneo vendeu esse impulso de volta ao mesmo público, agora em cápsulas, em retiros espirituais no deserto do Arizona e em aplicativos de meditação guiada. O romano que comia os miolos da salema num banquete e o turista que paga quatro mil dólares por uma experiência de ayahuasca certificada compartilham o mesmo desejo fundamental. A diferença, no fundo, é o preço do prato e a existência de um plano de saúde. Os animais imaginários são os mesmos.
