Como a pressão arterial pode dar balão em você se não tomar cuidado

Existe um ritual quase litúrgico em qualquer consultório do planeta. O paciente se senta, estende o braço, a braçadeira infla até quase pedir clemência, e o médico encara o visor com a gravidade de um sacerdote romano lendo as entranhas de um carneiro. Então, vem a sentença: “12 por 8, tudo certo”. Saímos dali absolvidos, leves, prontos para atacar um pastel de feira. Ninguém pergunta o que a pressão andou aprontando nas outras 23 horas e meia do dia. Às vezes o médico resolve isso pedindo o MAPA, aquele aparelhinho que você carrega por um dia inteiro e que infla a braçadeira de tempos em tempos, sufocando o braço (vai sufocando, mesmo, por falta de termo melhor, e se tiver que se dane) justamente para acompanhar a pressão fora do consultório.

Cardiologistas costumam indicar o exame quando suspeitam de hipertensão do avental branco, de pressão que só sobe em casa (a mascarada), quando o tratamento não parece estar segurando bem os números ou para checar se a pressão cai como deveria durante a noite. Bem, pesquisadores identificaram uma pequena população de neurônios no tronco encefálico que parecem ter uma função específica: impedir que a pressão arterial dê trancos violentos. Continuar lendo “Como a pressão arterial pode dar balão em você se não tomar cuidado” →

Pesquisa mostra que Ômega-3 é muito bom pro cérebro, mas não é essa Coca-Cola toda que vendem

Sabe as pessoas que dizem que envelhecer é ótimo e que a vida começa aos 40? Pois, é: elas mentem. É legal envelhecer quando se é rico e a vida começa aos 40 para quem acabou de receber herança. Se você tem que levantar cedíssimo para ir trabalhar, Guess what, não vai ver nada de maneiro. Some-se a isso o que vendem de lindo, maravilhoso, incrível e cheiroso: aqueles produtos mágicos que prometem zilhões de coisas, prosperando no cruzamento entre o medo de envelhecer e a fé na embalagem: os suplementos para o cérebro.

O rei dessa corte é o óleo de peixe, aquela cápsula translúcida que mora no armário de milhões de pessoas com a promessa tácita de manter a memória onde a deixamos. Só nos Estados Unidos, o gasto com suplementos de ômega-3 passa de US$ 1 bilhão por ano. Promessa de rótulo e evidência clínica, porém, são primas distantes, e de vez em quando alguém tem a má educação de convidar as duas para o mesmo experimento. Continuar lendo “Pesquisa mostra que Ômega-3 é muito bom pro cérebro, mas não é essa Coca-Cola toda que vendem” →

Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel

A funcionária mais antiga da Drexel University, na Filadélfia, nunca tirou férias, jamais pediu aumento e não faltou um único dia desde o século XIX. A própria instituição a apresentou ao público, em 2012, como sua servidora de mais longa data, e dá para entender o orgulho: poucas folhas de pagamento ostentam alguém que trabalha em regime de alfinetes.

Hoje, essa funcionária executa o seu trabalho no Student Activities Center, entre a cozinha dos estudantes e as mesas de pingue-pongue, com os nervos pintados de branco, os olhos no lugar e um nome que a anatomia mundial pronuncia como se fosse de família: Harriet. Há perguntas no ar: Quem ela foi? Quem teve a gentileza de lhe perguntar se topava virar patrimônio científico? São questões que levaram mais de um século para serem tratadas com seriedade. As respostas, como costuma acontecer quando alguém resolve abrir uma caixa de arquivo, são bem menos reluzentes que o cartão-postal. Continuar lendo “Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel” →

O seu cérebro tem duas certidões de nascimento

Você aprendeu na escola que a célula é a menor unidade estrutural e funcional dos seres vivos. Aprendeu também que células especializadas se reúnem em tecidos e que tecidos diferentes se combinam para formar órgãos. Coração, fígado, pâncreas, cérebro: cada um sendo uma peça só, singular, simples, sem complicação (salvo quando bate um câncer ou alguma outra doença que estraga tudo). Com o avanço dos estudos, você descobriu que o cérebro tem dois hemisférios que trabalham em parceria, conectados pelo corpo caloso, e que, em boa parte, o direito comanda o lado esquerdo do corpo e o esquerdo comanda o direito. Simples, não? Só que a Ciência avança e adora complicar as coisas!

Um grupo de especialistas em desenvolvimento embrionário resolveu mexer na certidão de nascimento do órgão mais badalado do corpo, aquele que escreve poemas, resolve equações e ainda esquece onde deixou a chave do carro. E a divisão que eles encontraram não tem nada a ver com direita ou esquerda (não estou falando de política, seus retardados que chegaram aqui pelo Google). Continuar lendo “O seu cérebro tem duas certidões de nascimento” →

Pesquisa mostra que nem sempre carinha bonita garante confiança

Há um mito de design que atravessa décadas de ficção científica e reuniões de startup em igual medida: quanto mais humano parecer um robô, mais confiança ele inspira. Foi assim que chegamos a assistentes com cara de boneco de porcelana, recepcionistas robóticas que piscam os olhos e aspiradores que, inexplicavelmente, “pedem desculpa” quando ficam presos embaixo do sofá. A lógica parecia impecável: se o robô sorri, acena e olha nos seus olhos, ele ganha um cheque especial emocional que sobrevive até a primeira gafe.

Só que um estudo recente resolveu meter o dedo nessa ferida com um sensor de infravermelho na testa de cinquenta voluntários e descobriu que a coisa é bem mais traiçoeira do que qualquer folheto de marketing de robótica social gostaria de admitir. Continuar lendo “Pesquisa mostra que nem sempre carinha bonita garante confiança” →

Vollidioten se ferram por olhar diretamente pro Sol

Quando criança, todo mundo foi avisado que não pode olhar pro Sol. Olhar pro Sol dá dodói. Ao que parece, A Alemanha não teve isso (ok, teve). Havia até um plano para explicar aos krauts que olhar direto para o Sol continua sendo uma péssima ideia mesmo quando a Lua está fazendo das suas na frente dele. O plano falhou; não porque a informação não estivesse disponível (estava, em profusão, repetida por oftalmologistas e autoridades de saúde antes mesmo do fenômeno acontecer), mas porque as pessoas… bem, as pessoas continuam sendo idiotas, mesmo na Terra da Engenharia. Resultado: um monte de chucrutes (não os literais) baixaram hospital com pobrema nos zóio.

Iluminando a estupidez galopante das pessoas, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “Vollidioten se ferram por olhar diretamente pro Sol” →

Ozempic: a substância que veio para cuidar do diabético, virou modinha e agora é terapeuta, oncologista e neurocientista

Toda droga de sucesso estrondoso tem uma origem meio acanhada, quase burocrática, que ninguém lembra depois que ela vira fenômeno cultural. A aspirina nasceu para dor de cabeça e hoje disputa currículo com prevenção cardiovascular. O Viagra foi desenvolvido para angina e terminou revolucionando outro tipo de circulação sanguínea, bem mais comentado em rodas de amigos do que em congressos de Cardiologia. E há uma nova entrada nesse hall meio acidental dos remédios que fugiram do próprio currículo, o Ozempic e seus primos farmacêuticos, os agonistas do GLP-1. Continuar lendo “Ozempic: a substância que veio para cuidar do diabético, virou modinha e agora é terapeuta, oncologista e neurocientista” →

Artigos da Semana 318

Hoje é dia dos pais e vocês deveriam me dar presentes, já que eu sou como um pai pra vocês: estou profundamente desapontado, tenho a certeza que falhei seriamente em ensinar algo, acho que vocês deveriam pedir coisas pras mães de vocês, que acho que são gostosas. Já que expliquei bem o caso, vamos ver o que foi postado ao longo da semana.

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Sonhar não é aleatório, é editorial

Desde que a humanidade descobriu que dormir vem acompanhado de um cinema particular e gratuito, ninguém resistiu à tentação de dar sentido àquilo. Os egípcios liam sonhos como mensagens dos deuses, os gregos consultavam oráculos para decifrá-los, Artemidoro de Daldis escreveu um manual inteiro de interpretação onírica no século II, e Freud, quase dois mil anos depois, decidiu que tudo aquilo era, no fundo, libido reprimida disfarçada de trem entrando em túnel. Nenhum deles, no entanto, tinha acesso a processamento de linguagem natural, e é aí que a história fica interessante. Continuar lendo “Sonhar não é aleatório, é editorial” →

O câncer fatal que virou um problema de encanamento biológico

Você chega ao hospital com uma dor de cabeça chata, dessas que não passam nem com paracetamol nem com promessas de que amanhã será melhor. Os médicos batem uma tomografia, encontram várias manchas espalhadas pelo seu cérebro e, num tom que tenta ser gentil mas nunca consegue, informam que aquilo tem toda a cara de câncer metastático. O tipo de notícia que reorganiza uma vida inteira em quinze minutos.

Você é medicado com corticoide, melhora rápido, e a equipe médica sai correndo atrás da origem do tumor primário: emarái, colonoscopia, PET scan, a bagaça completa. Daí, descobrem que não existe tumor nenhum. O que parecia o pior cenário possível simplesmente não bate com a realidade, e a equipe se vê obrigada a repensar tudo, porque uma ressonância mais detalhada revela cistos, não tumores, e dentro de alguns desses cistos havia algo com cabeça própria. Literalmente. A notícia boa é que não é câncer. A notícia ruim é que o motivo é ainda mais perturbador, e o paciente carregava vermes alojados no cérebro sabe-se lá quantos anos. Continuar lendo “O câncer fatal que virou um problema de encanamento biológico” →