
Há algo quase filosoficamente perturbador na ideia de que um dos aliados mais promissores no combate ao câncer de mama seja algo que o ser humano sintetiza simplesmente tomando sol. Não um anticorpo monoclonal de última geração que custa o preço de um apartamento na Barra da Tijuca. Não um inibidor molecular produzido em laboratório com nome impronunciável. Vitamina D. Aquela mesma que os médicos pedem para checar no exame de sangue anual e que metade da população apresenta deficiência sem saber, possivelmente porque trabalha em escritório das nove às seis com a persiana fechada.
Pois, bem, uma pesquisa brasileira acaba de mostrar que esse nutriente barato e amplamente disponível pode fazer a quimioterapia funcionar significativamente melhor, e o resultado é suficientemente expressivo para dar o que pensar.
O dr. Eduardo Carvalho-Pessoa é médico mastologista do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Botucatu da UNESP, onde se graduou em Medicina em 1999 e obteve o mestrado em 2005 e o doutorado em 2009, ambos no Programa de Pós-Graduação em Ginecologia, Obstetrícia e Mastologia. Responsável pelo Setor de Diagnóstico por Imagem, de Oncoplastia e de Reconstrução Mamária do Centro de Avaliação em Mastologia do Hospital das Clínicas de Botucatu, acumula ainda as funções de presidente regional da Sociedade Brasileira de Mastologia e de presidente da Comissão Nacional de Imaginologia Mamária da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.
É, em resumo, uma das referências nacionais em câncer de mama com quem se deve conversar quando um comprimido de vitamina D começa a apresentar resultados que a oncologia de ponta não esperava.
O estudo foi conduzido na Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (FMB-UNESP), com 80 mulheres acima de 45 anos que se preparavam para iniciar tratamento quimioterápico neoadjuvante, aquele aplicado antes da cirurgia com o objetivo de reduzir o tamanho do tumor e facilitar sua remoção.
As participantes foram divididas em dois grupos iguais: uma metade recebeu 2.000 UI (unidades internacionais) de vitamina D por dia, enquanto a outra recebeu placebo. Após seis meses de acompanhamento, os números foram do tipo que fazem o pesquisador revisar os cálculos antes de publicar, não por desconfiança, mas por pura incredulidade educada: 43% das mulheres que tomaram vitamina D apresentaram desaparecimento completo do tumor após a quimioterapia. No grupo placebo, esse índice foi de apenas 24%.
A vitamina D é conhecida, em primeira instância, pelo papel que desempenha na absorção de cálcio e fósforo e, consequentemente, na saúde óssea, o que explica por que os pediatras insistem em prescrever gotinhas para bebês e os reumatologistas ficam de olho nos níveis de adultos mais velhos. O que a ciência vem descobrindo progressivamente, contudo, é que sua atuação vai muito além do esqueleto. A vitamina participa da regulação do sistema imunológico, auxiliando o organismo a identificar e combater infecções e, ao que tudo indica, células tumorais. No início do estudo da UNESP, a maior parte das participantes apresentava deficiência de vitamina D, ou seja, níveis abaixo de 20 nanogramas (1 nanograma = 1 bilionésimo de grama) por mililitro de sangue, sendo que a Sociedade Brasileira de Reumatologia recomenda manter o índice entre 40 e 70 ng/mL. A suplementação elevou esses níveis progressivamente ao longo do tratamento quimioterápico, e a hipótese dos pesquisadores é que esse aumento tenha contribuído diretamente para potencializar a resposta das pacientes.
A pesquisa destacou dois aspectos que tornam os resultados particularmente relevantes do ponto de vista da saúde pública. O primeiro é a dose: 2.000 UI diárias ficam muito abaixo da quantidade normalmente prescrita para corrigir deficiência de vitamina D, que costuma ser de 50.000 UI por semana. O segundo é o custo. A vitamina D é acessível, está disponível em qualquer farmácia e já faz parte do arsenal de prescrições rotineiras da medicina, ao contrário de alguns fármacos usados para melhorar a resposta à quimioterapia que, segundo o pesquisador, sequer constam na lista do Sistema Único de Saúde. Num país com a dimensão do Brasil, onde o acesso à oncologia de ponta continua sendo privilégio geográfico e econômico, esse detalhe não é irrelevante.
Os pesquisadores são cuidadosos ao enquadrar os achados: a amostra de 80 pacientes é pequena para sustentar conclusões definitivas, e estudos maiores serão necessários para confirmar a eficácia e mapear os mecanismos pelos quais a vitamina D influencia a resposta quimioterápica. A Ciência funciona assim, com cada resultado abrindo uma nova rodada de perguntas que precisam ser respondidas com metodologia mais robusta. Mas o sinal está lá, claro o suficiente para justificar o investimento em ensaios clínicos de maior escala.
A pesquisa foi financiada pela FAPESP, o que garante ao menos que as próximas rodadas de investigação tenham apoio institucional, o que me deixa aliviado que ESTE DINHEIRO não foi usado para pagar pesquisa de macho se pegando em banheiro de rodoviária.
A pesquisa foi publicada no periódico Nutrition and Cancer
