Grandes Nomes da CIência

Biografias de cientistas conhecidos ou não tão conhecidos assim. Curiosidades e fatos sobre suas pesquisas, inclusive gente anônima que fez ciência e não recebeu os devidos créditos. Mais »

Livro dos Porquês

A sabedoria e o conhecimento. Isso é Poder! Abra sua mente, aprenda mais sobre questões básicas (e complexas) e tire suas dúvidas, de forma mais didática possível, sem ser aquelas aulas chatas de colégio. Mais »

Grandes Mentiras Religiosas

O mundo não é tão bizarro quanto fazem parecer. Mentiras e enganações para ludibriar as pessoas, lindamente desmontados, de forma a trazer à luz a desonestidade para tentar lhe fazer parar de pensar e simplesmente aceitar o que querem que você pense. Mais »

Caderno dos Professores

Para quem quer ensinar e muitas vezes se pergunta como abordar um tema. Como deixar a aula interessante, como levar conhecimento aos seus alunos por meios que pedagogos lhe odiarão, mas serão amados pelos estudantes. Mais »

 

Os 1001 anos da esplendorosa ciência islâmica

INTRODUÇÃO

Olhando o mundo hoje, nos admiramos com tudo o que vemos e produzimos. Ficamos fascinados ao olhar para o céu e apontarmos para as estrelas, numa eterna brincadeira de ligue-os-pontos. Vemos a engenharia e a arquitetura brindando-nos com formas e construções magníficas. Vemos a moderna ciência vasculhar os meandros da matéria e combinando substâncias para produzir coisas novas. Os materiais são novos, mas as técnicas são antigas, muito antigas.

Antes de nossos pais, avós, bisavós e do seu antepassado mais antigo do qual você se lembra, a ciência islâmica já dominava o mundo, da Ásia Central à Europa ocidental. Aqui contaremos um pouco sobre como os desbravadores do pensamento científico moldaram nosso mundo e como sua influência não é apenas a pedra basilar de tudo o que sabemos hoje. É simplesmente MUITO MAIS!

Tudo começa com o declínio do Império Romano no século V. A Europa vira a sucursal do Inferno. Bárbaros atacam de todo o lado, as glórias de Roma e o estandarte SPQR (Senatvs Popvlvs Qve Romanvs – O Senado e Povo de Roma) já não são mais vistos. Vikings, bretões, saxões, visigodos, magiares, eslavos e vândalos (tribos germânicas que deram origem ao moderno termo “vândalo”, que na época se tratava de uma turba bárbara que destruía tudo o que encontrava pela frente) não sentem mais medo das legiões romanas. Em 476 E.C., o imperador Flávio Rômulo Augusto (Flavivs Romvlvs Avgvstvs) – ridicularizado pela alcunha de Rômulo Augústulo, significando que ele era “Pequeno Augusto” – teve a sua bunda romana chutada pelo rei Odoacro da tribo germânica dos Hérulos. Odoacro nasceu às margens do rio Danúbio, que não era tão azul assim na época e ficou muito pior durante as guerras. O rei germânico mandou os estandartes de volta para Zenão I, imperador romano do oriente, cujo império viria a se tornar o Império Bizantino e lá começaria a desenvolver-se o que viria a se tornar a Igreja Católica, como força política e militar, mas isso ainda demoraria alguns séculos.

No século VII, um certo cameleiro, condutor de caravanas, teve um vislumbre do poder de Deus. Ou, pelo menos, foi isso que ele disse depois que o arcanjo Gabriel deu-lhe um “guenta” e ordenou que ele recitasse. Assim, Abu al-Qasim Muhammad ibn ‘Abd Allah ibn ‘Abd al-Muttalib ibn Hashim, mais conhecido como Muhammad ou Mohammed ou ainda Maomé (por razões de economia de tempo e espaço, não colocaremos as transliterações dos nomes e demais palavras em árabe usando seu próprio alfabeto, nos contentando apenas com os nomes, títulos e demais palavras usando o alfabeto latino mesmo), fundou uma das maiores religiões do mundo, ainda hoje em ascensão: O Islamismo.

De posse de uma das mais poderosas forças que se pode obter, a religião organizada, Maomé começou um movimento de expansão. Brandindo o Al-Quram como a verdadeira e única Palavra de Deus, Maomé passou a fio de espada qualquer um que ficasse em seu caminho, com uma mensagem clara: Convertam-se ou virem carne de hambúrguer. Se bem que ainda não existia hambúrguer, mas vocês entenderam.

É irônico pensar que Maomé, um humilde condutor de camelos analfabeto fosse capaz de tal levante. Há muitas explicações para isso, mas não deitarei mais linhas a respeito por simples economia de espaço e para não desviar (mais do que já está) do assunto. Mas é importante saber que sob as palavras iniciais de cada sura do Alcorão ergueu-se o maior movimento intelectual e científico da época, e que será explicado no decorrer do texto. Assim, antes de cada sura vem escrito a citação que qualquer muçulmano sabe de cor: Bismillahir Rahmanir Rahim (Em Nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso!). Porquanto, toda e qualquer palavra do Al-Quram é considerada sagrada, as palavras do próprio Deus, pois Alá é único e imutável; não há nenhum outro deus senão Alá e Mohammed SAS é seu profeta. Muçulmanos costumam escrever SAS (ou SAAS) após o nome de Maomé, pois é a sigla de Salla Allahu Alahi wa Sallam (Que Deus o abençoe e lhe dê paz). No caso de outros profetas (aqueles que trazem a verdade de Alá) coloca-se AS (Alaihi Salam – Que a paz esteja com ele). Entre outros profetas estão Adão, Noé, Abraão (patriarca dos islâmicos, já que foi pai de Ismael, segundo o mito) e até mesmo Jesus (que pros muçulmanos foi apenas homem comum).

Ano a ano, década a década, enquanto o Império Bizantino caía na degradação e a Europa era terra de ninguém, o Islã florescia. Enquanto a medicina na Europa praticamente inexistia, quando o analfabetismo era praticamente 100%, a expectativa de vida era de 30 anos e as mulheres morriam lá pelos 20 anos, principalmente por causa de complicações no parto, o mundo islâmico começava a expansão dos seus domínios. O mundo islâmico ia desde a Ásia Central e ia até a Península Ibérica, dominando todo o Oriente Médio, Norte da África e parte da Europa.

Em 638, o califa Umar Ibn Al Khattab entrou em Jerusalém; judeus e cristãos foram recebidos com respeito e havia uma imensa tolerância religiosa e cultural. A sede do império ficava em Bagdad, no atual Iraque, berço da civilização, onde outrora fora parte da gloriosa Babilônia.

Mas então os problemas começaram. Problemas de logística, pois administrar um vasto império em franca expansão não era fácil, e ainda não o é. Não havia um perfeito entendimento entre as pessoas, já que havia muitos lugares, muitos povos, muitas culturas e idiomas diferentes. Entre 688 e 691 da Era Comum, o décimo califa Abdul Malik lbn Marwan, da dinastia Omíada, construiu a Cúpula da Rocha. Sendo um homem pragmático, ele ordenou que a língua oficial de seu reinado fosse o árabe, de forma que as ordens chegassem a todos os lugares, sem que houvesse problemas de interpretação de texto. Instituiu que as pessoas soubessem ler e escrever, não tanto por causa do amor às letras, mas por fundamentação religiosa (todos precisam conhecer as Palavras de Alá; para tanto, precisam ler o que está escrito ali) e política, afinal, desde as épocas mais remotas, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Começou assim um grande movimento de alfabetização. A alfabetização era compulsória. Você TINHA que saber ler! Obviamente, judeus, cristãos ou veneradores de outra religião estavam isentos disso, mas se todo mundo começava a falar e escrever em árabe, como fazer então para se comunicar? E o comércio, que sempre foi a mola-mestra das sociedades? Foi uma tacada de mestre!

Ainda com base no Alcorão, começou um movimento cultural no Império Islâmico. Enquanto outras religiões baseavam-se unicamente no que vinha escrito em seus livros religiosos, o Alcorão estimulava e ORDENAVA que se buscasse o conhecimento onde quer que o encontrassem. Enquanto o Livro de Reis se contentava em dizer qualquer bobagem matemática, onde o valor de pi era deduzido como apenas 3, os árabes se tornaram mestres nas ciências dos números, só se comparando aos chineses e aos hindus. Enquanto os evangelhos sugeriam que sintomas de esquizofrenia deveriam ser tratados com desencapetamentos, os médicos islâmicos começaram a entender melhor como o corpo humano funcionava e até faziam cirurgias.

Só para vocês terem uma ideia, podemos citar o caso de Galeno. Clavdivs Galenvs, também conhecido como Galeno, era um médico grego nascido em Pérgamo em 131 E.C. Sua especialidade eram os gladiadores. Considerando que gladiadores custavam e forneciam dinheiro, através das porradarias nos circos romanos, os donos não queriam que suas “mercadorias” se perdessem. Assim, contratavam excelentes médicos para remendar os lutadores (que normalmente não tinham vida muito longa, de um jeito ou de outro). Galeno ficou famoso porque foi o médico que menos perdeu pacientes durante toda a sua carreira, em comparação aos seus contemporâneos, evidentemente. Galeno era muito curioso e queria saber como o corpo humano funcionava e só havia um modo de saber: dissecção.

A legislação na época determinava que corpos de pessoas não podiam ser violados. Ainda hoje é assim, pois nossas leis se baseiam nas leis romanas; por isso, para podermos fazer uma exumação de um cadáver, é preciso autorização judicial. Galeno não tinha permissão para ficar fuxicando nos corpos das pessoas, então ele usou outro caminho: dissecava macacos, porcos e cães. Isso o levou a escrever muitas besteiras. Ele achava que o fígado produzia todo o sangue do corpo, o qual saía dele e era distribuído; além disso, acreditava que o sangue continha espíritos. A medicina de Galeno ainda estava repleta de crendices e ideias influenciadas pela sua religião pagã. As ideias (pseudo)científicas de um homem que viveu na Roma do século II tornaram-se uma doutrina médica universalmente aceita até meados do século XVI. 1500 anos separam Galeno do médico belga Andreas Vesalivs, também chamado Vesálio, que foi o primeiro europeu a contradizer as “verdades absolutas” de Cláudio Galeno. Enquanto Galeno afirmava que o fêmur humano era curvo (porque tinha visto em cães), Vesálio deu um “dane-se” pro status quo e realizou autópsias em pessoas, verificando que o nosso fêmur não era curvo, mas reto. Caso tivessem lido as obras árabes, saberiam disso com maior antecedência. A obra de Vesálio está disponível online.

Voltando à administração do reino islâmico, o processo governamental estava ficando cada vez mais complicado, e para o desenvolvimento de uma nação é preciso uma coisa: conhecimento. Saber é conhecer, conhecer é controlar. Dessa forma, no século IX, teve início o reinado do califa Abu Já’far Abdullah al-Ma’mun ibn Harun, da dinastia Abássida, mais conhecido como Al-Mamun. Ele teve o mesmo ímpeto que Alexandre da Macedônia quando fundou Alexandria, no Egito, seguido por Ptolomeu I Soter: O Califa ordenou que emissários fossem aos quatro cantos do mundo e trouxessem o maior tesouro da humanidade: Livros. Não importava quais, não importava de quem, não importava o idioma. Tragam os livros! Sabendo que a busca pelo saber nem sempre é estímulo suficiente, o Califa ofereceu a cada pessoa que trouxesse um livro que ele não dispunha seu peso em ouro. Como nos dias de hoje, bajular Chefes de Estado era garantia de ascender na corte; possuir a proteção de um califa era algo muito legal naquele tempo, onde as pessoas não eram tão amiguinhas assim. O mundo mudou pouco.

Com o tempo, ficou claro um problema sério: o idioma. Havia textos em grego, siríaco, copta, chinês, latim, rúnico, hindu etc. Algo precisava ser feito para dar ordem naquela algaravia de textos. Então, deu-se início um projeto ambicioso: traduzir todos os textos da biblioteca do califado e todos os demais que ainda pudessem ser encontrados. Chefiados por Abu’l-Faraj Muhammad bin Ishaq al-Warraq, conhecido como Ibn al-Nadim, começou o que historiadores denominam Movimento de Tradução. Todo o saber da época seria traduzido para o árabe, de modo que estivesse disponível a todos que quisessem lê-los (lembrando que o analfabetismo praticamente foi erradicado).

Se hoje temos os escritos de Platão, Epicuro, Aristóteles, Cláudio Ptolomeu, Sêneca, Cícero, Sófocles, Júlio César etc., é devido aos árabes. Com alguns escritos não teve jeito! Perderam-se nas brumas do tempo, entre traças, cupins e turbas ensandecidas queimando livros considerados heréticos. Os árabes resgataram muito da sabedoria e cultura dos antigos; mesmo que não tenhamos as obras completas de todos eles, você jamais saberia da Ilíada e a Odisséia se não fosse pelas ordens de Al-Mamun. Mas os árabes não se contentaram com a sabedoria dos antigos. Eles tinham curiosidade, queriam experimentar, queriam testar, queriam comprovar tudo o que estava ali. Eles não aceitavam o peso da autoridade como fato. Só comprovações. Assim, deu-se o início das investigações científicas.

Debates eram amplamente estimulados. Para isso, foi criada a Bait al-Hikma, a Casa da Sabedoria. Nos moldes do Fórum Romano, lá você poderia discutir qualquer tema, desde que fosse de forma respeitosa e, para evitar problemas linguísticos, tinha que ser em árabe, obviamente. Na época, ainda não havia trolls circulando. Se havia, eles provavelmente foram expulsos e/ou decapitados (espero que os dois, coisa que eu gostaria de fazer com alguns que aparecem aqui).

Na Casa da Sabedoria, o conhecimento era transmitido livremente e o saber era absorvido por todos, onde um complementava as ideias/descobertas de outro, num clima sem hostilidades, coisa que está se tornando raro nos dias de hoje.

Temos que dar uma parada para darmos completa atenção ao maior presente que os árabes deram ao mundo: a Matemática. Mas isso fica para a próxima página.

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Allan Duarte

    É, a religião pode ser um atraso tremendo se levada muito a sério.

    O lance é a “verdade” se a pessoa fica muito certa de que tem a verdade em mãos ela se fecha para qualquer progresso.

    É por isto que o método científico tem tanto poder, a ciência nunca chega a conclusões, não se coloca pontos finais, coloca-se sempre ponto e vírgula.