A Galáxia mais pobre do Universo

Existe uma distinção muito importante entre ser pobre e ser primitivo. Um mendigo do século XXI, por mais desprovido de bens que esteja, carrega consigo carbono, oxigênio, ferro, cálcio e pelo menos uma dúzia de outros elementos que as estrelas levaram bilhões de anos para forjar. A galáxia LAP1-B não tem esse luxo. Ela é pobre de um jeito que nenhuma coisa no universo local consegue rivalizar: pobre de elementos, pobre de estrelas, pobre de tudo que não seja hidrogênio, um fiapo de hélio e uma quantidade surpreendente de matéria escura. E é exatamente por isso que ela pode ser a descoberta astronômica mais importante dos últimos anos. Continuar lendo “A Galáxia mais pobre do Universo”

Os segredos lunares de um robozinho soviético

Há uma categoria especial de objetos no universo que são, ao mesmo tempo, completamente inúteis e absolutamente indispensáveis. O retrorrefletor de laser do Lunokhod 1 é um deles. Não produz energia, não coleta amostras, não fotografa crateras, não faz absolutamente nada além de devolver a luz que recebe, exatamente de onde ela veio. É, em essência, um espelho glorificado preso a um rover soviético abandonado numa planície lunar. E foi justamente esse dispositivo de elegância quase monástica que, quarenta anos depois de todo mundo ter desistido de encontrá-lo, voltou a piscar para a Terra como se dissesse: “ainda estou aqui, obrigado por perguntar.” Continuar lendo “Os segredos lunares de um robozinho soviético”

Idiota age como idiota e xinga astronautas dizendo que eles não foram ao Espaço

Sexta-feira, finalzão de semana, todo mundo pronto pra sextar (exceto eu porque é dia 22 e o salário é uma longe lembranaç). O cérebro humano deveria estar descansando, hidratando, talvez contemplando uma pizza sinistra de ótima (já pedi a minha) e decisões ruins perfeitamente aceitáveis para depois das oito da noite. Seria assim, mas fomos novamente arrastados para o grande esgoto radioativo da civilização digital, já que depois da invenção de celulares com câmeras, o bando de Morlocks saiu debaixo da pedra e fica atazanando pessoas.

Um desses imbecis decidiu abordar os astronautas da missão Artemis II no Capitólio dos Estados Unidos para acusá-los de nunca terem ido ao Espaço. A esta altura, a Seleção Natural já deve estar preenchendo formulário de desistência, e Darwin ergue os ombros e diz “mas nunca falei que a seleção era para gente mais esperta”.

Voando até a Fronteira Final da Idiotice, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “Idiota age como idiota e xinga astronautas dizendo que eles não foram ao Espaço”

A sonda poupando energia para continuar viajando audaciosamente

A humanidade enviou ao Espaço Interestelar uma sonda lançada quando Jimmy Carter era presidente dos Estados Unidos, o Brasil vivia sob ditadura militar e Guerra nas Estrelas (Fuck you e seu “Star Wars”) tinha acabado de estrear nos cinemas, e agora, quase meio século depois, os engenheiros da NASA precisam fazer exatamente o que qualquer pessoa faz quando o carregador do celular está sobrecarregado: desligar algumas coisas para economizar energia.

A Voyager 1, o objeto mais distante já construído pelo ser humano, está a cerca de 25 bilhões de quilômetros da Terra, ou seja, 170 vezes a distância da Terra ao Sol (chamamos isso de UA, Unidade Astronômica). E ainda assim, essa relíquia dos anos 1970 cruza a Fronteira Final com a dignidade de quem sobreviveu a tudo, mas depende de uma fonte de energia que perde cerca de quatro watts por ano. Para quem não tem noção do que isso significa: é como se, a cada doze meses, você perdesse a capacidade de acender uma lâmpada de pisca-pisca de Natal. Continuar lendo “A sonda poupando energia para continuar viajando audaciosamente”

A Terra daqui a um bilhão de anos

Há um tipo de pensamento que costuma aparecer em momentos silenciosos, quase sempre à noite, quando a pressa do dia já perdeu a força: o que será deste lugar quando não estivermos mais aqui? Não daqui a cem anos, nem a mil. Muito além disso. Um tempo tão distante que qualquer traço humano já terá sido apagado, como pegadas na areia depois da maré. Imaginar a Terra nesse futuro remoto é, ao mesmo tempo, fascinante e desconfortável. É olhar para um mundo familiar e perceber que ele não nos pertence tanto quanto gostamos de acreditar. Continuar lendo “A Terra daqui a um bilhão de anos”

O que o Universo demorou bilhões de anos, cientistas fizeram no laboratório facilmente mais uma vez

Existe um clube extremamente exclusivo dentro da tabela periódica. Não é o dos elementos radioativos, que pelo menos têm a decência de aparecer em quantidade suficiente para causar preocupação. Também não é o dos gases nobres, que basicamente vivem de esnobar qualquer tentativa de interação química. É um grupo bem mais ingrato: os chamados p-núcleos.

Estamos falando de cerca de 35 isótopos ricos em prótons que são, ao mesmo tempo, mais pesados que o ferro e absurdamente raros. Tão raros que, durante décadas, a Ciência simplesmente não sabia explicar de onde eles vinham. Não era falta de interesse, e sim falta de pista mesmo. Agora, pela primeira vez, pesquisadores conseguiram reproduzir em laboratório uma das reações nucleares responsáveis pela formação do mais leve desses elementos, o selênio-74. A boa notícia é essa. A má notícia é a clássica: entender um pedaço do problema só deixou mais evidente o tamanho do resto. Continuar lendo “O que o Universo demorou bilhões de anos, cientistas fizeram no laboratório facilmente mais uma vez”

Artigos da Semana 301

Enquanto o mundo está o mesmo de sempre com arranca-rabo de todo lado eleições com novos parasitas mantendo as mesmas políticas de sempre e um festival de inutilidades postadas nos jornais, vocês devem me agradecer por trazer coisas que realmente importam,e elas estão aqui, nos artigos da semana:

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A vez da irmã mais nova visitar a Lua

Se você cresceu achando que ir à Lua era basicamente “apontar o foguete e acelerar até chegar”, a NASA tem uma notícia ligeiramente desconcertante: nos anos 60, era quase isso mesmo. O programa Apollo, aquele monumento tecnológico erguido no meio da Guerra Fria, operava na base do que engenheiros chamam, com admirável eufemismo, de “brutalidade elegante”: gastar uma quantidade obscena de energia para resolver o problema rápido. O foguete Saturno V tinha a mesma sutileza filosófica de um rinoceronte em choque com um muro, mas chegava lá. Mais de meio século depois, a NASA olha para o mesmo destino e decide fazer algo que soa quase ofensivo para o espírito apressado do século XXI: dar uma volta maior, mais lenta, mais calculada. E não, isso não é regressão, é sofisticação; e a diferença entre as duas abordagens se esconde num detalhe que a maioria das pessoas nunca percebe no telão da transmissão ao vivo: o caminho. Continuar lendo “A vez da irmã mais nova visitar a Lua”

A Terra não dorme mais e os satélites estão de prova

Eu vi uma foto da Mari hoje e fiquei com inveja. Inveja da noite escura, de poder ver as estrelas. Ela consegue ver um mundaréu de estrelas e eu, por morar em capital, só consigo ver algumas, e isso é muito, muito ruim. Os astronautas como os da Estação Espacial Internacional veem nosso planeta à noite, uma esfera azul e silenciosa pontilhada de luzes. É belo, poético e, se você prestar atenção, ligeiramente alarmante. Aquelas luzes não estão diminuindo. Estão crescendo. E um novo estudo confirmou, com a mais detalhada análise de satélites já feita, que o planeta está ficando progressivamente mais brilhante durante a noite, embora não de forma uniforme, e não pelos motivos que você talvez imaginasse. Continuar lendo “A Terra não dorme mais e os satélites estão de prova”

Confundiram um pedregulho voador com um míssil

No domingo (08/03) à tarde, enquanto boa parte da Europa estava tranquilamente de pantufas e ocupada arranjando um motivo para não entrar em guerra com o Irã, um objeto de alguns metros de diâmetro cruzou o céu. Geral ficou com o símbolo do cobre na mão, e se você acha que eu escrevi isso porque tenho medinho de escrever cu, errou redondamente, tão redondo quanto o seu cu. Quer dizer, acho que ele é assim, não sei, não me interessa.

O que me interessa mesmo é que um pedregulhão espacial, com bilhões de anos de estrada acumulados, muita milhagem a ponto de estar em sala VIP de Guarulhos (que merda, eu sei) e absolutamente nenhum interesse em geopolítica, decidiu que Koblenz, cidade simpática no estado alemão da Renânia-Palatinado, seria um destino razoável. O Cosmos, como de costume, não consultou ninguém. Continuar lendo “Confundiram um pedregulho voador com um míssil”