
Há uma coisa que me impressiona… ok, duas coisas. Ok, várias coisas, mas citarei a hipocrisia das pessoas e a falta de contato com uma realidade. É como dizer “ain, a vida é linda depois dos 40”, o que me dá dúvidas se as pessoas 50+ ou mesmo 60+ que pegam ônibus às 4 da manhã para irem trabalhar com 3 horas de trajeto de ônibus concordam com isso. A bolha leva pessoas a falarem um monte de asneiras, ainda mais quando você é um boquirroto que gosta de falar qualquer besteiras que passa pela cabeça porque gosta de ouvir a própria voz.
Nosso amigo Elão Almíscar é um perfeito exemplo de alguém assim. O cara que vale um trilhão acha que dinheiro será irrelevante no futuro próximo. O que podemos deduzir disso?
Numa entrevista dada ao The Economist, no dia 23 de julho, Elão Almíscar disse à editora-chefe Zanny Minton Beddoes que o dinheiro vai deixar de ser relevante em cerca de dez anos, quando robôs e IA estiverem produzindo uma abundância tão grande que ninguém mais vai precisar poupar pra aposentadoria. Segundo ele, para que você quer dinheiro? Você quer dinheiro para bens e serviços: comida, moradia, transporte e entretenimento. Se robôs e IA estiverem fornecendo mais bens e serviços do que qualquer ser humano poderia possivelmente consumir, para que você precisaria de dinheiro nesse caso?
Beddoes teve a atitude correta de qualquer pessoa minimamente sensata ouvindo uma grande estultice teria: deu uma imensa risada para em seguida questionar de onde viria a receita pra bancar esse paraíso, e ele, previsivelmente, despachou a pergunta com a mesma leveza de quem despacha um estagiário.
E aqui é onde a fantasia desmorona sozinha, porque o sujeito nem precisava ir muito longe pra encontrar a prova de que a própria mitologia que ele está citando de segunda mão não bate com o que promete. Star Trek é o pôster oficial dessa utopia pós-escassez que os tecno-otimistas adoram invocar, aquela Federação onde ninguém precisa de dinheiro porque os replicadores resolvem tudo, ninguém passa fome, ninguém fica doente (em todo episódio tem alguém doente).
Só que a franquia nunca conseguiu se decidir sobre isso, e a inconsistência é hilária: A Enterprise tinha loja de perfumes caros, o próprio Kirk se oferece pra pagar mineradores por dilítio, e décadas depois, no mesmo universo em que os personagens dizem com orgulho que “no século XXI ainda usavam dinheiro” como se fosse coisa de primitivo, o Scotty aparece comprando um barco como quem compra um pão de queijo.
Já em Deep Space Nine, a tripulação inteira bebia no bar do Quark pagando em latinum pressionado a ouro, porque mesmo numa federação pós-monetária alguém sempre inventa uma moeda pra continuar cobrando a rodada. Ou seja: nem na ficção mais generosa que a Vale do Silício já produziu sobre si mesma a abundância elimina a necessidade de pagar por alguma coisa. Ela só troca o nome do dinheiro. Aliás, com ao Federação paga o pessoal que constroem aquelas naves todas? De onde vem o material e mão de obra?
E tem uma ironia etimológica deliciosa nisso tudo, porque “utopia” não significa “lugar bom”, como o folclore popular gosta de repetir. O termo foi cunhado por Thomas Morus em 1516, um trocadilho grego que tanto pode ser lido como “eu-topos” (o bom lugar) quanto como “ou-topos” (lugar nenhum), e Morus sabia exatamente o que estava fazendo: descrevendo uma sociedade perfeita que, convenientemente, não existe em canto algum.
Aliás, como bem dita a normalidade, o criador deste mundo maravilhoso era um homem rico e poderoso, chanceler do reino, que viveu confortavelmente entre os privilégios da corte até cair em desgraça e ser decapitado por ordem de Henrique VIII. Ou seja: o próprio inventor da palavra “utopia” é a prova viva de que esses arroubos de sociedade perfeita só nascem na cabeça de gente que está no topo da pirâmide, longe o bastante da fila do ônibus pra achar que escassez é só um detalhe de design que a próxima atualização de firmware resolve.
Cinco séculos depois, trocamos a corte de Henrique VIII pelo Twitter, mas o roteiro é o mesmo: um sujeito rico demais pra sentir o problema, prometendo que ele vai desaparecer para todo mundo. Vejamos… onde vi isso antes?
“Dinheiro não traz felicidade”
– Bilionários
“Beleza não põe mesa”
– Gente bonita
“Defenda o SUS, ele é maravilhoso”
– Gente com plano de saúde caro
“Que lindo a cultura das favelas”
– Mora na Vieira Souto
“Prezo a vida simples”
– Mora numa fazenda imensa em Goiás
Nosso amigo Almíscar, como todo bom oligarca, adquire uma rede social só para ele usar como plataforma política por 40 bilhões, mas não, o dinheiro não importa. Robôs e IA lhe darão tudo. Tenho certeza de que a OpenAI, Anthropic ou a xAI vão fazer aparecer comida na minha despensa, encher a minha geladeira, me dar uma casa hiperbem-equipada com todos os eletrodomésticos e eletroeletrônicos, me dar um carro (nem precisa ser uma Ferrari, serei modesto e será apenas um Civic) com tanque cheio do melhor combustível, acesso à melhor tecnologia médica, os mais modernos remédios e tratamentos, e não terei problemas com segurança. Sir Ian McKellen irá prover entretenimento vindo encenar Rei Lear aqui em casa… tá, ok, não vamos exagerar: terei todos os streamings de graça, não é?.
Curiosamente, OpenAI, Anthropic e a própria xAI do Muskete cobram pelo uso de suas IA. Os planos gratuitos são limitados a algumas poucas interações por dia. As empresas que fabricam robôs não estão dando de graça. A Uber vai continuar cobrando pelos serviços, imagino, mesmo com carros autônomos. Do que este imbecil está falando? O cara cobra até para ter um selo azul na rede social dele!
O sujeito que ficou vociferando que IA era o mal encarnado parece que mudou de ideia quando lançou sua própria IA. Mas eu concordo: o dinheiro não só será irrelevante, como já o é em muitos lugares do mundo, onde pessoas vivem na absoluta miséria sem nem ter ideia do que é um copo com água. Para quem não consegue nem um copo de água limpa, o dinheiro acaba sendo irrelevante: 1) porque não vai tê-lo, 2) porque mesmo que tiver não vai adiantar de nada já que algum warlord ficará com ele.
Na história da Humanidade, claro, estamos melhores, mas o “melhores” esquece que estimativas apontam para 1 bilhão de pessoas na linha da extrema pobreza (a população inteira da Europa, e não só a Europa “rica”, é de 743 milhões). E isso é estimativa, porque existem lugares que as estatísticas nem alcançam; o mundo está melhor? Sim, mas não foi graças a robôs e IA, e não serão eles que vão erradicar a miséria. E se formos imaginar que DEZ POR CENTO da população mundial está na merda, ainda será um número bem otimista. O que é otimismo, mesmo?

Mas, pensem comigo: se ele fala que dinheiro será irrelevante, eu devo pressupor que seja no mundo todo, certo? Ou pode ser que nem em Hollywood, onde o mocinho “salva o mundo” protegendo apenas Nova York. Mas claro, o gado muskiano vai mugir “ele é bem-sucedido”. Sim, é. Mas não foi por ter aberto mão de toda a sua fortuna, e tenho certeza de que, se ele acha mesmo que dinheiro não terá importância, vai dar todo o dele para todo mundo amanhã de manhã.
Não é à toa que os investidores exigem um CEO que não seja ele se quiserem que continuem investindo nas Teslas da vida.
