Os segredos lunares de um robozinho soviético

Há uma categoria especial de objetos no universo que são, ao mesmo tempo, completamente inúteis e absolutamente indispensáveis. O retrorrefletor de laser do Lunokhod 1 é um deles. Não produz energia, não coleta amostras, não fotografa crateras, não faz absolutamente nada além de devolver a luz que recebe, exatamente de onde ela veio. É, em essência, um espelho glorificado preso a um rover soviético abandonado numa planície lunar. E foi justamente esse dispositivo de elegância quase monástica que, quarenta anos depois de todo mundo ter desistido de encontrá-lo, voltou a piscar para a Terra como se dissesse: “ainda estou aqui, obrigado por perguntar.” Continuar lendo “Os segredos lunares de um robozinho soviético”

A incômoda privacidade

Em 1999, Scott McNealy, então CEO da Sun Microsystems, disse uma frase que deveria ter gerado protestos nas ruas e pelo menos uma CPI: “Você não tem privacidade. Supere!!” Na época, soou como a bravata arrogante de um executivo de tecnologia mimado. Hoje, três décadas depois, soa como um roteiro que o Vale do Silício seguiu à risca… e com prazer sádico.

A privacidade digital não morreu por acidente, nem por inevitabilidade tecnológica. Ela foi sistematicamente tornada inconveniente. Cada clique em “aceitar os termos”, cada “concordo” em negrito que ninguém leu, cada permissão concedida porque o aplicativo simplesmente não funciona sem ela, tudo isso foi projetado para ser exatamente assim: a resistência deveria custar mais do que a rendição. E funcionou! Continuar lendo “A incômoda privacidade”

Babel, Jerusalém e os algoritmos: A IA sob a lente do Vaticano

O Papa Leão XIV publicou sua primeira encíclica social, Magnifica Humanitas, em 15 de maio de 2026, e o mundo intelectual tratou de fazer o que sempre faz nessas ocasiões: uns aplaudiram com devoção, outros ignoraram com elegância e uma terceira categoria – da qual me considero humilde representante em toda minha proverbial grandeza e infinita sabedoria – leu o documento com atenção genuína e uma sobrancelha erguida em posição permanente.

O texto é longo, erudito à moda vaticana – citações em latim, referências ao Concílio Vaticano II, a Leão XIII e a toda a linhagem de encíclicas sociais da Igreja – e dedica uma atenção incomum à Inteligência Artificial, ao ponto de colocar o tema no próprio subtítulo: “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial”. Leão XIV, aliás, é matemático de formação, o que garantiu ao documento pelo menos a vantagem de não confundir algoritmo com feitiçaria. Continuar lendo “Babel, Jerusalém e os algoritmos: A IA sob a lente do Vaticano”

Artigos da Semana 307

O dia começou uma merda. Na verdade, começou no fim do dia de ontem quando eu fiz uma cagada e alguns arquivos PUF, desapareceram. Por sorte, corri pras IA e as IA me ajudaram a resolver. Não resolveu 100%, mas 95%, o que já tá ótimo, e isso a um custo de 2 centavos de dólar. De repente, eu conto como foi, se vocês quiserem saber, com todo caminho das pedras. Enquanto isso, vejam o que eu postei durante a semana.

Continuar lendo “Artigos da Semana 307”

Google cafetizando produtor de conteúdo não-adulto

Há muito tempo eu tinha percebido algo interessante: o crescimento de gente que chegou aqui no site vindo e link do ChatGPT. Os do Google estão diminuindo. Uma coisa que eu já tinha percebido antes disso é como buscando no Google coisas que eu tenho aqui no blog, mesmo com citações imensas e textuais do que tenho aqui, o Google… não encontra. Isso refletiu na queda de visitações que, agora, está lentamente subindo.

Então, um vídeo do Tubo me deu um outro vislumbre. Continuar lendo “Google cafetizando produtor de conteúdo não-adulto”

Autor escreve livro com citações inventadas pelo robô que ele dizia odiar

Existe uma categoria especial de tragédia humana que nem os gregos antigos previram: o sujeito que passa anos alertando a civilização sobre os perigos de uma tecnologia, usa essa mesma tecnologia às escondidas para escrever o livro de alerta, não verifica absolutamente nada do que ela produz, publica com grande alarde, recebe elogios de jornalistas premiados, aparece na Wired, e então é detonado pelo New York Times porque as citações são inventadas. Os gregos tinham Édipo. Nós temos Steven Rosenbaum. Continuar lendo “Autor escreve livro com citações inventadas pelo robô que ele dizia odiar”

Advogadas jovens fazem o que jovem faz e tomam na cabeça em 84 mil reais

A advocacia brasileira decidiu finalmente abandonar qualquer resquício de dignidade institucional (isso é modo de falar, porque a realidade você conhece bem) e mergulhar de cabeça no maravilhoso universo do “truque de Internet que adolescente usa para tentar dar uma volta em professor.

Duas advogadas jovens (e jovem você sabe, né?) acharam que eram muito espertas tomaram na cabeça ao tentar dar uma volta no jogo de pessoas não muito… ok, eram advogados e cada um tenta burlar da melhor maneira possível. O problema é que violaram a primeira regra dos trapaceiros: não se deixe ser pego, mas eram jovens e tentaram manipular a IA com o prompt mais retardado do mundo.

GPTando e andando na Justiça Brasileira, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “Advogadas jovens fazem o que jovem faz e tomam na cabeça em 84 mil reais”

Governo manda IA fazer documento para regular severamente a IA

Não há nada como a maravilhosa humilhação pública que ultrapassa o constrangimento normal e entra naquele território raro onde a realidade parece ter sido roteirizada por roteiristas bêbados de sitcom política. Um hilário exemplo é trazido pela África do Sul, que entregou ao mundo um desses momentos históricos em que a civilização para ela, olha para a cena e pergunta baixinho: “Mermão, sério mesmo?”

O governo sul-africano preparou um lindo, maravilhoso e cheiroso Projeto de Política Nacional de Inteligência Artificial, mas teve que eliminá-lo, removê-lo e exterminá-lo. Motivo? Ele foi feito via IA, numa reviravolta digna de Shyamalan. Continuar lendo “Governo manda IA fazer documento para regular severamente a IA”

O homem que tentou fugir do Vesúvio, falhou e a IA o trouxe de volta

Há duas formas de sobreviver a uma catástrofe. A primeira é escapar dela. A segunda é não escapar, mas ainda assim atravessar dois milênios com uma história boa o suficiente para que alguém resolva contá-la. O cidadão de Pompeia que saiu correndo com um bacião de barro na cabeça claramente falhou na etapa prática da coisa. Mas, em compensação, venceu com folga na parte narrativa. Pouca gente consegue morrer de forma tão absurdamente humana e, ainda assim, reaparecer séculos depois com direito a “retrato” digital.

E aqui estamos nós, em pleno século XXI, usando a mesma tecnologia que produz gatinhos astronautas para devolver o rosto a um sujeito que só queria não ser atingido por uma chuva de pedras vulcânicas. É o tipo de ironia histórica que Pompeia adora oferecer: enquanto o Vesúvio transformava uma cidade em cápsula do tempo, a inteligência artificial, dois mil anos depois, tenta fazer o caminho inverso. Nem sempre com perfeição, mas com uma intenção curiosamente nobre. Continuar lendo “O homem que tentou fugir do Vesúvio, falhou e a IA o trouxe de volta”

A sonda poupando energia para continuar viajando audaciosamente

A humanidade enviou ao Espaço Interestelar uma sonda lançada quando Jimmy Carter era presidente dos Estados Unidos, o Brasil vivia sob ditadura militar e Guerra nas Estrelas (Fuck you e seu “Star Wars”) tinha acabado de estrear nos cinemas, e agora, quase meio século depois, os engenheiros da NASA precisam fazer exatamente o que qualquer pessoa faz quando o carregador do celular está sobrecarregado: desligar algumas coisas para economizar energia.

A Voyager 1, o objeto mais distante já construído pelo ser humano, está a cerca de 25 bilhões de quilômetros da Terra, ou seja, 170 vezes a distância da Terra ao Sol (chamamos isso de UA, Unidade Astronômica). E ainda assim, essa relíquia dos anos 1970 cruza a Fronteira Final com a dignidade de quem sobreviveu a tudo, mas depende de uma fonte de energia que perde cerca de quatro watts por ano. Para quem não tem noção do que isso significa: é como se, a cada doze meses, você perdesse a capacidade de acender uma lâmpada de pisca-pisca de Natal. Continuar lendo “A sonda poupando energia para continuar viajando audaciosamente”