
Há um pânico circulando pelo mercado de trabalho brasileiro, e ele tem nome técnico, PowerPoint corporativo (ok, atualmente é feito naquela merda do Canva) e até fala em inglês: dizem que a Inteligência Artificial vai decidir quem é contratado, promovido ou despedido, e que ninguém mais entenderá os critérios por trás disso.
Executivos de inovação concedem entrevistas graves alertando que a “revisão humana” nesses processos costuma se resumir a um recrutador carimbando a lista que o algoritmo já organizou, e que empresas raramente sabem explicar como o sistema chegou a determinada classificação. Tudo isso é verdade, é seríssimo, e merece ser dito. Só tem um pequeno detalhe incômodo: nada disso é novidade. O RH brasileiro só trocou de vidente.
Jogando o búzio no algoritmo, esta é a sua SEXTA INSANA!
Vamos a 2021, quando um terapeuta holístico e metafísico (título que, imagino, cabe inteiro num cartão de visitas só se a fonte for tamanho quatro) publicou um texto explicando como a numerologia pitagórica pode otimizar contratações.
A tese é simples: o nome de uma pessoa carrega uma “vibração nominal” ativada desde a infância, e um Mapa Numerológico revela os quatro pilares da personalidade do candidato, incluindo seu propósito de vida. Uma pessoa de “personalidade 3” seria naturalmente boa em marketing e atendimento, mas entraria em atrito recorrente com gente de “essência 4”, excessivamente metódica.
É basicamente um teste de perfil comportamental, só que em vez de assinatura de consultoria de RH, tem assinatura de Pitágoras, morto há dois milênios e meio e, presume-se, sem cláusula de confidencialidade sobre metodologia. Claro, eu sou uma alma pura, pia e santa e jamais pensaria que aparência e relações familiares (ou daquelas relações que todos estão familiarizados) dentro da empresa teriam algo a ver com isso.
E a Numerologia é a opção comedida. Há anos circula no mercado o serviço de astrólogos corporativos, que oferecem leitura de trânsitos planetários para prever quais funcionários vão desviar dinheiro, vazar informação confidencial ou simplesmente dar problema, tudo isso com base na posição de Marte na hora do nascimento.
Não é folclore de interior: há registros de vagas de emprego que pediam ao candidato, ao lado do currículo, o signo zodiacal. A astrologia, aqui, não é usada para decidir se vai chover no fim de semana. É usada para decidir se você paga o aluguel este mês; ou, no caso de Ronald Reagan, decidir se vai bombardear comunistas ou não. A Hoover Institute até liberou alguns dos mapas astrológicos de Nancy Reagan.
E, para completar a Santíssima Trindade da contratação por critério invisível, havia a pergunta sobre religião. Foi perguntado, lá em 2009, por que entrevistadores insistiam em saber qual era sua crença, e a resposta institucional foi reveladora: a legislação da época proibia discriminação por sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar e idade, mas religião, inexplicavelmente, tinha ficado de fora da lista. Pessoas de más índoles podem pensar que esse detalhe ausente da legislação foi deliberado. Claro, eu jamais pensaria isso. Lembram que eu tenho uma alma pura, pia e santa?
O conselho para quem se sentisse desconfortável era aprender a desviar da pergunta com elegância, respondendo algo genérico e devolvendo o interrogatório ao entrevistador, numa ginástica retórica digna de quem já sabe, antes de começar, que a resposta sincera pode custar a vaga. Obviamente, qualquer um que tenha trabalhado mais de um ano sabe que a melhor forma de ter problemas com uma empresa é falando a verdade.
De qualquer forma, reparem no padrão: em nenhum dos casos havia transparência sobre o critério, havia recurso de contestação, ou responsabilidade clara caso a decisão fosse injusta; o conceito do que era justo ou injusto era mais nebuloso do que realmente responder quando a esposa pergunta pro marido se ele acha que ela está gorda.
O candidato numerologicamente incompatível, o astrologicamente amaldiçoado por Marte em quadratura com Netuno e o religiosamente indesejável tinham exatamente o mesmo problema que hoje se atribui à Inteligência Artificial: uma autoridade opaca decidindo o seu futuro profissional com base em dados que ninguém é obrigado a mostrar, aplicados por alguém que também não sabe explicar por que aquilo funciona, mas jura que funciona.
A diferença – e é uma diferença real – é de escala e de verniz (ou óleo de peroba). O astrólogo (diz que) atende um cliente de cada vez, artesanalmente; o algoritmo de triagem processa milhares de currículos em minutos e aprende, com isso, a reproduzir os vieses de contratações passadas em ritmo industrial, perpetuando exatamente o perfil que a empresa já favorecia, só que agora com aparência de matemática. É a mesma superstição, mas com escala de nuvem computacional e relatório de compliance anexado, o que talvez seja pior: pelo menos o numerólogo tinha a decência de assinar o próprio palpite com nome e Instagram.
A moral, se é que cabe uma, é que o mercado de trabalho brasileiro nunca teve vergonha de terceirizar julgamento humano para oráculos que ninguém entende. Só demorou décadas para descobrir que trocar o mapa astral por uma rede neural dava, além do mesmo resultado, uma desculpa tecnológica muito mais respeitável para nunca precisar explicar por que você não foi chamado para a segunda fase.
O final a gente já sabe que as IA vão levar em conta aparência e relações familiares (ou daquelas relações que todos estão familiarizados) dentro da empresa.
A IA leu o meu destino
Eu sonhei!
Bola de cristal
ChatGPT, Claude
E eu sempre perguntei…
