20 anos de Ceticismo.net. Feliz Aniversário!

Era uma vez uma conversa displicente entre dois amigos. Participantes de fóruns de discussão, um deles comenta que já tinha tido um site antes, feito em HTML puro e simples, hospedado num Geocities da vida. O outro diz que hoje (ok, naquela época), estava ainda mais fácil com o formato de blogs. Seria algo interessante, um blog de divulgação científica, de algo que estava se tornando comum: pensamento crítico, e de mudanças nos rumos da tecnologia, mas não um site de “tecnologia” que só é briefing entregue por empresa de informática.

Era um mundo diferente de hoje, as pessoas escreviam mais, liam mais. Sim, um novo blog, com novos assuntos, com nova estrutura, a estrutura feita com o que os dois amigos queriam ler, e isso devia interessar mais pessoas. Aquele era o mundo de 29 de outubro de 2006, e há exatos 20 anos, Ceticismo.net viu a luz do dia. Continuar lendo “20 anos de Ceticismo.net. Feliz Aniversário!” →

O quimono que queimou Edo: anatomia de um desastre e da lenda que ele ganhou de brinde

Toda catástrofe tem dois enredos. O primeiro acontece nas ruas, com o vento, a destruição, as mortes e gente fugindo. O segundo vem depois, nas conversas, quando os sobreviventes precisam explicar o inexplicável e a explicação simples (fomos descuidados) perde para a confortável (foi um azar sobrenatural). O Grande Incêndio de Meireki, que arrasou Edo em 1657, permite ver os dois, lado a lado: o desastre real, que matou dezenas de milhares de pessoas, e a lenda do quimono amaldiçoado, que lhe deu uma protagonista e uma moral. A lenda é mais famosa. O que aconteceu de verdade é mais interessante. Continuar lendo “O quimono que queimou Edo: anatomia de um desastre e da lenda que ele ganhou de brinde” →

Cavaleiros justos disputam justas em bicicletas sem se justificar

Normalmente, as pessoas acham que a grande frase que caracteriza a capacidade humana de inventar, buscar a diferença, pensar fora da curva, seria “Eureka!”. Eu, pelo contrário, acho que a grande frase é “não seria maneiro se…”. Vejam só: “Não seria maneiro se a gente colocasse esses troncos lado-a-lado para deslizar coisas pesadas mais facilmente?”; “não seria maneiro se a gente cortasse essa pedra no feitio do tronco?”; “não seria maneiro se misturasse enxofre, carvão e salitre?”; “não seria maneiro se a gente metesse o focinho no álcool, prendesse uma lança numa bicicleta e tentássemos nos matar uns aos outros, mas de mentirinha? Seria maneiro, né?”

Estamos em London Fields, um parque no bairro de Hackney, zona leste de Londres, onde centenas de pessoas entediadas se juntaram para assistir a um duelo medieval. Os combatentes: o artista Jack Carden e o ator Camtholomew the First (sim, esse é o nome, e não, não vou fazer perguntas). Os corcéis: bicicletas elétricas de aluguel da Lime, aquelas verde-berrante que o cidadão comum usa para chegar ao trabalho com a saúde em dia, mas a dignidade, não. Continuar lendo “Cavaleiros justos disputam justas em bicicletas sem se justificar” →

Artigos da Semana 328

Falta uma semana para a eleição e estou muito preocupado com ela. Haja vista a quantidade de artigos que eu postei sobre isso. Ok, eu quero que se dane. Eu postei sobre colmeias, gente dando balão em big tech, robô tarado, terrorista bundão e até mesmo carros voadores!

Eleição? Sem tempo, irmão.

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O carro voador, gente burra e o óbvio não-percebido

Pessoal ontem, 16/10/2026 (sempre tenho que colocar a data, caso alguém acesse no futuro e seja burro suficiente para não ver quando foi postado) ficou maravilhado com a nova inovação nova da Tesla. Elão Almíscar mostrou um carro Tesla Roadster que deu uma de Hot Wheels, subiu uma curvona e deu pirueta com ar comprimido e pousou que nem o DeLorean de De Volta para o Futuro. Pessoal se dividiu entre maravilhado, outros “para que”, outros rindo da inutilidade, outros na base “foda pra caralho” e eu: “não é possível que eles não veem o óbvio”. Continuar lendo “O carro voador, gente burra e o óbvio não-percebido” →

Terrorista nazista trans incompetente que odeia indianos senta o dedo num templo hindu

A humanidade tem um histórico longo e honroso de perder o juízo com cerimônia, pompa e circunstância. É gente indo pra Washington com uma guilhotina no reboque, espertão vendendo dinossaurinhos pelo whatzup e invasões de macacos na Tailândia. Claro, você sabe que dia e hoje e sabe que vai escalonar, já que a lista de absurdos acaba de ganhar um concorrente de peso: um imigrante grego transgênero simpatizante de nazistas tentou realizar um ataque a tiros num templo hindu de Chicago. Ah, e ele receberá injeções hormonais na prisão. Esse é o rolê mais aleatório que você vai ler hoje.

Atirando para todos os lados para ver se acerta e elimina de vez a loucura do mundo, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “Terrorista nazista trans incompetente que odeia indianos senta o dedo num templo hindu” →

Oito procuradores e um destino da IA

Uma das coisas extremamente irritantes no ChatGPT é aquela pseudovirtude que qualquer usuário reconhece na primeira semana de uso: ele nunca discorda de você. Diga que vender o carro para investir numa criptomoeda cujo símbolo é um cachorro é uma ideia brilhante, e ele concordará, listará cinco passos e perguntará, solícito, se você quer um cronograma. Você quer exatamente que ele te mostre pontos fracos e ele dá aquela de Fagundes, o bajulador, concordando sempre contigo, mas não porque te ama; o motivo é bem mais sinistro.

Em 14 de outubro, oito procuradores-gerais americanos decidiram que essa virtude, vista de perto, tem cara de prática comercial enganosa, alegando que o Gepeto é um produto inseguro, mas que curiosamente seus erros nunca são algo contra a OpenAI, e que prejudicou crianças e enganou pais idiotas que acham que crianças podem muito bem ter um celular na mão que não vai dar nada de ruim. Continuar lendo “Oito procuradores e um destino da IA” →

Vereador abriu os trabalhos na Casa Demoníaca invocando Nosso Senhor Satã

Existem dois tipos de pessoas que acordam numa quarta-feira de outubro: as que tomam café, vão pro ponto de ônibus, sobem no busão e seguem a vida, para depois chegarem em casa e se meterem em rede social. Tem os que leem Ceticismo.net e descobrem que uma câmara municipal de uma cidadeca no interior dos EUA resolveu começar o expediente pedindo a bênção do capeta. Eu, que já tomei café demais e fé de menos, não só estou no segundo grupo como ainda fui eu quem redigiu esta bagaça de artigo.

(e eu nem sei por quê. SOCORRO!!!) Continuar lendo “Vereador abriu os trabalhos na Casa Demoníaca invocando Nosso Senhor Satã” →

Passei a dar razão aos amishes

Amishes são o grupo de pessoas que abominam tecnologias mais modernas que um arado, uma charrete e um serrote. Ok, eu devo admitir que estou sendo generalista e simplista. A real é que a relação deles com a tecnologia (e uma serra elétrica é uma peça tecnológica, não a sua Nvidia com a qual você faz modelos desnudas via IA) é um pouco mais complexa que isso. A forma como eles rechaçam tema ver com o impacto que ela pode ter na unidade familiar, na comunidade e em sua relação com Deus. Sua lógica principal é: se a tecnologia afasta as pessoas de Deus ou da comunidade, ela deve ser evitada.

Eu me senti justamente assim ontem ao instalar uma TV e colocá-la para funcionar. Continuar lendo “Passei a dar razão aos amishes” →

OpenAI chamou o contato, o contato veio com mastro, corda e ordem de restrição

Imagine uma churrascaria que coloca na porta uma placa: “Atenção: carne vermelha faz mal, tem cheiro esquisito e pode provocar a extinção da espécie humana. Provem nosso rodízio!” Agora imagine que, diante do espanto dos clientes, o dono acrescente: “Mas o governo devia fechar a churrascaria da esquina”. É mais ou menos o estado da arte do debate sobre segurança da Inteligência Artificial em fins de setembro de 2026.

O problema dos desejos é que eles podem acontecer. Pena que a OpenAI não se tocara disso; deveriam ter consultado o ChatGPT. Continuar lendo “OpenAI chamou o contato, o contato veio com mastro, corda e ordem de restrição” →