Nas margens do Oceano Cósmico, eu sentei e chorei

Eu vi Cosmos ontem. Não quis ver em streaming, não corri para ver assim que apareceu para baixar (sim, baixei. Chama a Polícia Federal aí, anda!). Cosmos não é como uma série qualquer como CSI. Séries assim são que nem cerveja, pode-se ver a qualquer hora, em qualquer lugar, sem precisar de motivo. Cosmos é um vinho fino, digno de ser saboreado com uma companhia especial, à luz de velas e o crepitar da lareira ao fundo. Cosmos é tudo o que houve, tudo oque existe e tudo o que haverá. É algo que nos esmaga frente à sua grandiosidade do sabor de uvas bem colhidas e a sensibilidade de um delicado copo de cristal.

Cosmos sou eu e você.

Não importa que eu saiba os nomes dos planetas do Sistema Solar (nós sempre amaremos você, Plutão). A Nave da Imaginação nos leva até eles; ela nos causa frêmito, ela faz com que nos sentirmos viajantes únicos, capazes de ver as maravilhas que os quase 14 bilhões de anos de forças físicas e químicas puderam fazer. Olhar nosso mundo enche nossos corações de amor pelo que temos e pelo que há lá fora. É o sentimento que somos grandes demais para pensar tão pequeno sobre o vizinho que levou o cachorro para defecar na porta de nossa garagem. Somos grandes demais para nos preocupar com coisas tão pequenas como o colega de trabalho que derramou café nos nossos sapatos. Somos o resultado de bilhões de anos de evolução biológica. Somos filhos de nossos antepassados e, mais ainda, somos filhos de estrelas, imensas fornalhas de energia nuclear que quando explodem, lançam sua matéria em todos os cantos da Eternidade.


The infinity and beyond!

E nós somos eternos. Nossos átomos, cada partícula subatômica, apareceu com o tempo, com o espaço, com tudo o que existe. Colocamos óculos escuros para ver o Big Bang, nos sabemos que houve frio e escuridão por milhões do que chamamos "anos", mesmo quando este termo ainda era sem sentido, pois no calendário cósmico, o Sol, nossa estrela, ainda não nascera.


E é aqui que mora toda a história da Humanidade!

De todas as gerações de filósofos (quando filosofia ainda servia para alguma coisa), contempladores de estrelas, cientistas e astrônomos, sempre fomos pessoas privilegiadas, não importando em que momento do espaço-tempo estejamos. Temos acesso à tecnologia de nossa época, seja um telescópio espacial, uma simples luneta ou um quadrante, em que víamos as estrelas a olho nu. Nós podemos ver o mundo diferente da nossa geração anterior. Vemos um mundo que o próprio Cosmos de Carl Sagan não viu. Nós não veremos coisas que as gerações futuras verão e isso me deixa feliz, pois sempre haverá mais e mais coisas para serem descobertas.

Essa certeza que teremos coisas a mais para serem vistas, para se descobrir, para se saber, me dá um nó no peito, me dá lágrimas aos olhos. Me dá a sensação triste que eu não saberei tudo, que eu não verei tudo. Mas nossos filhos, netos e bisnetos verão, e o mundo deles não será a esquina da rua, não será o condomínio, não será nem mesmo o planeta. O mundo deles será o próprio universo, pois nem a maior das galáxias pode conter toda a sede humana pelo conhecimento. É isso que nos diferencia de outros animais, sendo que muitos humanos não se comportem assim. O Universo nunca foi para eles, mesmos e sim para quem ousa não só imaginar, mas estudar para saber, pois se a imaginação valesse mais que o conhecimento, você me descreveria como um cego de nascença entende o conceito de "cores" ou como um surdo também de nascença descreveria a Ode à Alegria, da 9ª Sinfonia de Beethoven.


Eu sei o que ele vê. Você sabe?

Imaginar o que é uma estrela, no mais das vezes uma grande bola de fogo, pode ser bom para você. Eu prefiro saber as reações nucleares que acontecem lá e como elas ajudaram a criar nosso planeta e permitir que a Terra tenha vida.

Carl Sagan nos levou à beira do Oceano Cósmico e nos disse que a água estava convidativa. Nós viajamos com ele e agora fazemos essa viagem de novo com Neil deGrasse Tyson. Somos todos filhos do grande mestre da divulgação científica e Neil é nosso irmão mais velho que vem e diz: "Eu estive lá, vi tudo e quero que você veja também. Não deixe seu mundo pequeno, porque você não é pequeno"

Como a antiga trilha do Vangelis, a trilha sonora de Alan Silvestri é marcante e nos emociona. É uma trilha sonora de nossas vidas. Ela amplia a vastidão do Universo e faz com que sintamos saudades de casa e ao mesmo tempo dar mais um passo em direção ao desconhecido. Se você tem um dispositivo da Apple, pode comprar por 10 dólares a trilha sonora completa.

Este não é um artigo resenhando o primeiro capítulo da nova série. Muitos já fizeram isso, como o Cardoso fez no Meio Bit. Eu não quero fazer isso. Quero agradecer ao Neil, Seth e Ann que se propuseram a fazer nossa estrela interior brilhar mais que 1000 hipernovas.

Nas margens do Oceano Cósmico, eu sentei e chorei de alegria; não porque nosso pai voltou dos éons do espaço-tempo para nos buscar, mas porque ele mandou limusine com chofer, host, música ambiente e champagne francês nos acompanhar na viagem.

10 comentários em “Nas margens do Oceano Cósmico, eu sentei e chorei

  1. Interessante. Eu já tava vendo uma galera no facebook comentando sobre essa série. Vou procurar pra assistir.

    1. @Felipe, Eles não tem do que reclamar. Primeiro porque o programa passou em um canal tradicionalmente conservador, e segundo porque Jesus é mencionado ao final do programa como se realmente tivesse existido. Um pequeno agrado, talvez, ao canal que decidiu investir na série.

    1. Eu concordo com o artigo. Giordano Bruno era somente outro fanático religioso que queria que os outros largassem suas teologias para seguir as dele. Copérnico não teve a brilhante ideia do Heliocentrismo. Ele copiou de Al-Tusi, inclusive as fórmulas matemáticas. Outrossim, a ICAR não tinha posição formal sobre o Universo. Bem antes o frei Regiomontanus já defendia que a Terra não era chata feito pizza e nem estava no centro do Universo.

  2. Conseguiu expressar um pouco o que sinto por cosmos e Carl Sagan. Só um pouco!!
    Não gosto muito de discutir em blogs pois os argumentos dos crentes e similares não vale o meu tempo que gasto para lê-los.

    NOTA DA ADMINISTRAÇÃO

    Beleza. Já que você não gosta, não preciso publicar o restante do seu comentário que não tem nada a ver com o artigo.

    Passar bem.

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