Um médico árabe, um judeu siciliano e um lugar chamado Brasil entram num bar…

Havia uma vez um livro tão estranho que só podia ter vindo de outro mundo. Letras vermelhas e pretas, tabelas que se liam na horizontal, na vertical e na diagonal ao mesmo tempo (uma espécie de Sudoku medieval para quem queria saber se ia sobreviver à próxima peste), e um dono que jurava tê-lo recebido de uma ilha encantada perdida no Atlântico. Era o tipo de história que qualquer editora de best-seller pagaria caro hoje: mistério, magia, um segredo guardado por sete anos a fio. Só que, como quase sempre acontece quando se puxa o fio de uma lenda bonitinha, a verdade por trás do Livro de Hy-Brasil é ainda mais interessante do que a fantasia, e de quebra ajuda a explicar por que um país inteiro do outro lado do oceano se chama… Brasil.

Comecemos pelo começo, iniciemos pelo início, startemos pelo start e beguinemos pelo begin.

Sério, André? SÉRIO MESMO, ANDRÉ??????

Segundo a versão registrada pelo historiador James Hardiman em 1846, o manuscrito pertencia a um certo Morogh O’Lee, membro de uma família de médicos que servia havia gerações ao clã O’Flaherty, no oeste da Irlanda. O livro continha textos em irlandês (a língua dos reis) e latim (a língua da civilização) sobre curas e tratamentos, organizado de um jeito tão incomum que qualquer leigo olhando aquelas tabelas cheias de compartimentos cruzados concluiria, sem hesitar, que aquilo só podia ter caído do céu, ou melhor, subido do mar. Curiosamente, mesmo tendo irlandeses envolvidos, ninguém cogitou uma bebedeira daquelas.

A drª Aoibheann Nic Dhonnchadha é uma medievalista irlandesa ligada à School of Celtic Studies do Dublin Institute for Advanced Studies (DIAS), considerada praticamente a única especialista viva em Medicina Medieval Irlandesa, um nicho tão específico quanto essencial: cerca de um quarto dos manuscritos medievais sobreviventes em língua irlandesa trata de Medicina, e foi ela quem passou décadas decifrando e catalogando esse acervo. Sua obra de referência é Medical Writing in Irish, 1400–1700 (de 1999), somada a estudos como “The medical school of Aghmacart” (de 2006) e artigos sobre manuscritos e textos farmacêuticos irlandeses publicados ao longo dos anos 1990.

Aoibhneann (se pronuncia “Eibin” e significa literalmente “Pequena Eva” ou, mais poeticamente “De Beleza Radiante”) ajudou a identificar um fragmento até então desconhecido da tradução irlandesa do Cânone da Medicina de Avicena, encontrado reaproveitado como reforço de encadernação de um livro do século XVI. Seu trabalho documenta como famílias médicas hereditárias gaélicas, como os O’Lee, mantinham escolas próprias e traduziam para o irlandês textos vindos do mundo árabe e da Europa continental, mostrando que a Irlanda medieval era parte ativa de uma rede de conhecimento que ia de Bagdá à Sicília e chegava ao Atlântico.

Tudo começou em Bagdá, no século XI, com um médico chamado Ibn Jazlah, convertido ao islamismo e autor de uma obra com nome digno de tese acadêmica pesada: Takwim al-abdan fī tadbir al-insan, algo como “O Almanaque das Partes do Corpo para o Tratamento das Pessoas”. Ele também escreveu outro tratado sobre alimentos, remédios e preparo de ingredientes medicinais, recheado de receitas (uma espécie de livro de culinária para quem queria curar, não cozinhar), e dedicou ambas as obras ao califa al-Muqtadī, porque bajular quem manda nunca saiu de moda. Foi o primeiro livro, porém, que embarcaria numa viagem digna de itinerário de mochileiro medieval.

De Bagdá, o texto foi parar na Sicília, onde o médico judeu-siciliano Faraj ben Salim o traduziu para o latim no fim do século XIII, batizando-o de Tacuini ægritudinum. Faraj não era brincadeira: trabalhava para Carlos d’Anjou, aparece ilustrado ao lado do próprio rei num manuscrito, e ainda traduziu obras atribuídas a Galeno e a al-Razi. Ou seja, antes de virar relíquia mágica irlandesa, esse conhecimento médico já tinha passado pelas mãos de um convertido bagdali e de um tradutor judeu a serviço da corte angevina. A rota Bagdá-Sicília-Irlanda parece coisa de roteiro de comédia geopolítica, mas é história documentada.

E o design do livro, aquele que tanto impressionou quem via pela primeira vez? Nada de feitiçaria: eram quarenta e quatro tabelas quadradas, cada uma dividida em doze colunas, organizadas por doença, imitando o formato de cartas astronômicas. Era, na prática, um dos primeiros manuais médicos tabulados da história, uma ferramenta pedagógica pensada para que o médico encontrasse rapidamente a informação de que precisava, sem folhear páginas e mais páginas de prosa. Pense nisso como o ancestral medieval de uma planilha de Excel bem-organizada, só que sem a opção de “Ctrl+F” e com bem mais chance de ser confundida com bruxaria.

A cópia que chegou à família O’Lee data do século XV (há um “1434” escrito numa das páginas), depois de a tradução latina de Faraj ben Salim ainda ter sido vertida para o alemão e impressa em 1532, prova de que o texto circulava havia muito tempo antes disso em manuscritos avulsos. Ninguém sabe ao certo quem traduziu ou copiou a versão irlandesa, nem como exatamente ela foi parar nas mãos de Morogh O’Lee, embora o mais provável é que tenha sido simplesmente adquirida por conta do ofício médico da família.

Mas o historiador do século XIX Eugene O’Curry teve uma teoria deliciosamente cínica: O’Lee teria inventado a história da origem mágica só para valorizar o próprio prestígio profissional. Afinal, dizer “aprendi medicina com um livro trazido de uma ilha encantada” soa muito melhor no currículo do que “copiei de um tratado árabe traduzido por um siciliano”.

E o detalhe dos sete anos em que o livro teria ficado fechado, por ordem misteriosa, sem que ninguém ousasse abri-lo? Pode ser que a explicação seja bem mais prosaica: talvez O’Lee simplesmente não tivesse achado o livro útil de imediato. Nada de proibição sobrenatural, apenas procrastinação profissional com um toque de folclore aplicado a posteriori, o equivalente medieval a deixar um e-mail importante não lido na caixa de entrada por anos e depois inventar uma desculpa nobre para isso.

Agora, a parte que interessa de verdade a qualquer brasileiro lendo isso: essa ilha, Hy-Brasil (também grafada Breasal, Uí Bhreasail, O’Brazil, entre outras variantes), aparecia em cartas náuticas genovesas já em 1325, ao largo da costa oeste da Irlanda, marcada como uma ilha permanentemente encoberta por névoa, visível apenas um dia a cada sete anos, terra abençoada onde ninguém adoecia nem sofria. Ficou nos mapas por quase setecentos anos, até ser oficialmente riscada pela Marinha britânica em 1873, depois de sondagens mostrarem que ali só havia oceano profundo.

A etimologia mais aceita entre estudiosos irlandeses liga o nome a Uí Breasail, “os descendentes de Breasal”, um antigo clã do nordeste da Irlanda, embora outra hipótese, defendida já em 1937 pelo geógrafo italiano Paolo Revelli, associe o nome ao brasil, o corante de madeira que fez fortuna no comércio medieval europeu, o mesmo de onde vem, obviamente, o nome do país tupiniquim.

E aqui mora a coincidência mais deliciosa de toda essa história: quando Pedro Álvares Cabral aportou na costa sul-americana em 1500 e encontrou por lá o pau-brasil, muita gente à época associou aquela terra recém-descoberta à lendária ilha atlântica que os navegadores há séculos procuravam sem sucesso. A explicação etimológica oficial do nome do nosso país é a árvore, o corante avermelhado, a “brasa” que dá nome ao pau-brasil; a maioria dos historiadores garante que qualquer ligação com a ilha irlandesa é mera coincidência fonética.

Entretanto, o dicionário Houaiss lista nada menos que dezesseis hipóteses concorrentes para a origem da palavra “brasil”, e uma delas, sim, aponta diretamente para Hy-Brasil. Não é impossível que o nome de uma ilha que nunca existiu tenha ajudado, ainda que de leve, a batizar um país que existe bastante.

No fim das contas, a lição é sempre a mesma quando se trata de lendas medievais: a explicação real raramente é menos fascinante do que a mágica, só exige mais paciência para ser contada. Um manuscrito médico árabe do século XI, traduzido por um judeu siciliano a serviço de um rei angevino, organizado em tabelas que pareciam mapas de estrelas, terminou nas mãos de uma família de médicos irlandeses que preferiu vendê-lo como relíquia de uma ilha mágica a admitir que era, no fundo, um manual de plantão bem-feito.

E, quem sabe, ecoou séculos depois no nome de um país tropical que jamais imaginou dividir etimologia com uma ilha irlandesa encoberta de névoa.

Você pode ter o prazer e a satisfação de ler o livro AQUI.

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