
Há uma categoria de descoberta científica que eu adoro particularmente: aquela em que a Ciência gasta uma fortuna, um exército de pesquisadores e uma tecnologia de ponta para provar que, no fim das contas, somos todos igualmente nojentos por dentro. Reis, camponeses, imperadores, pastores de cabra: por baixo do esmalte, a boca de todo mundo é uma zona de guerra microbiana, e a realeza, ao que parece, não tinha acesso a nenhum tratamento VIP nesse departamento.
O caso que motiva essa reflexão começa com um esqueleto encontrado, literalmente, sob um estacionamento. Em 2012, arqueólogos ingleses desenterraram em Leicester os restos de um monarca que a história tratou com a mesma delicadeza que Shakespeare: como vilão de peça teatral. Essa é a história de como fomos acabar fuçando a boca de Ricardo III.
Os ossos de Rick the Third até que desabrocharam pro século XXI surpreendentemente bem preservados, ainda mais estando num estacionamento; isso abriu uma porta que ninguém imaginava: se o esqueleto sobreviveu tão bem ao tempo, talvez o tártaro dental grudado nos poucos dentes remanescentes também tivesse guardado segredos moleculares. E foi exatamente esse tártaro, a placa bacteriana calcificada que qualquer dentista manda você remover a cada seis meses, o protagonista silencioso deste relato dental.
A drª Irina M. Velsko é pesquisadora do Departamento de Arqueogenética do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig. Velsko dedica a carreira a um tema que parece piada de consultório odontológico, mas é Ciência séria: como o microbioma da nossa boca evoluiu ao longo de milênios e o que isso revela sobre saúde, dieta e doença em populações humanas do passado. Irina lidera o braço de pesquisa em cálculo dentário antigo do grupo de microbioma comandado por Christina Warinner, um dos nomes mais respeitados da paleogenômica microbiana mundial; a rigor, um monte de fofoqueiros bucais.
Ricardo III foi rei da Inglaterra entre 1483 e 1485, morto em combate na Batalha de Bosworth Field e enterrado sem pompa e nenhuma cerimônia, para só ser redescoberto cinco séculos depois embaixo de um asfalto municipal. É bom lembrar que esse mesmo rei foi imortalizado por Shakespeare como um corcunda maquiavélico disposto a mandar sobrinhos para a Torre de Londres com a mesma tranquilidade de quem pede mais um cálice de vinho.
A peça deu a Big Richard uma reputação literária duradoura, cheia de monólogos ambiciosos e conspirações palacianas, mas nem o próprio Shakespeare, com toda sua obsessão por reis trágicos, jamais imaginou que 400 anos depois alguém ia se debruçar sobre os dentinhos do Ricardão mais famoso do Guilherme Sacudidor de Lanças com sequenciador genético em punho.
O bardo escreveu sobre poder, traição e ambição; a Ciência do século XXI preferiu investigar a placa bacteriana. Cada um com seus dramas!
A equipe de Velsko extraiu DNA de três dentes do rei e submeteu o material a um sequenciamento profundo, gerando quase 400 milhões de leituras genéticas. Para efeito de comparação, é um volume de dados que faria qualquer detetive de CSI odontológico se aposentar de inveja. E aqui cabe a piada que a própria ciência meio que pediu: sim, um grupo de pesquisadores vasculhou minuciosamente a boca de um rei morto há seiscentos anos por puro interesse científico. Bisbilhotar o tártaro de um soberano soa, à primeira vista, como o tipo de curiosidade mórbida que renderia processo em qualquer época menos empoeirada. Mas no fim, o resultado é engraçado o bastante para justificar a bisbilhotice.
A hipótese óbvia é que a boca de um rei deveria contar uma história de excesso: banquetes fartos, açúcar em abundância, vinho para todo lado, e por consequência uma microbiota oral tão desequilibrada quanto a política da época. Doces e vinho geralmente favorecem bactérias fermentadoras de açúcar, como a Streptococcus mutans, associada diretamente às cáries. A elite medieval, afinal, tinha acesso a alimentos açucarados que a plebe só via de longe. O problema é que esse tipo de bactéria é raramente detectado em cálculo dentário antigo, justamente porque o ambiente ácido que ela produz tende a dissolver o próprio tártaro que a abrigaria, apagando as próprias digitais do crime.
O que o pessoal de Velsko encontrou, então, foi outra coisa, e bem mais interessante do que uma simples confirmação de gula real: a preservação do DNA no tártaro do rei foi excepcional, um dos metagenomas orais antigos mais ricos já publicados. Só que, ao comparar a composição microbiana da boca de Ricardo III com a de dezenas de outros indivíduos, majoritariamente plebeus, de sítios arqueológicos na Inglaterra, Irlanda, Holanda e Alemanha (incluindo amostras neolíticas de sete mil anos atrás, coletadas para efeito de contraste histórico), a equipe descobriu algo que deve ter provocado um certo silêncio constrangido na sala de reuniões: a comunidade microbiana da boca real era estatisticamente indistinguível da comunidade microbiana da boca de gente comum.
Estilo de vida aristocrático, dieta refinada, séquito de cozinheiros e nada disso pareceu alterar de forma perceptível quem morava dentro da boca do monarca. Democracia bacteriana em pleno reinado absolutista.
Os cientistas também conseguiram reconstruir genomas quase completos de bactérias do gênero Tannerella, entre elas parentes da Tannerella forsythia, uma das grandes vilãs da doença periodontal moderna, e encontraram nesses genomas antigos fatores de virulência muito parecidos com os que essa bactéria carrega hoje em dia. Isso é relevante porque mostra uma continuidade impressionante: o inimigo microscópico das nossas gengivas já vinha armado com praticamente o mesmo arsenal molecular séculos antes de existir escova de dente, fio dental ou qualquer noção de higiene bucal reconhecível.
Por outro lado, a tentativa de reconstruir a dieta do rei a partir de DNA de plantas e animais preso no tártaro não deu muito certo: o material recuperado foi insuficiente para qualquer conclusão sólida sobre o que ele efetivamente comia. Boa notícia para quem gosta de mistério histórico, má notícia para quem esperava uma lista de compras real dos anos 1480.
No fim, a lição que fica é quase filosófica, do tipo que cabe bem numa crônica e mal numa palestra de sociologia. Um rei pode comandar exércitos, decidir sucessões, entrar para a posteridade como vilão shakespeariano e ainda assim sua boca vai hospedar exatamente o mesmo tipo de vizinhança bacteriana barulhenta que qualquer camponês da época carregava.
A coroa não vem com plano de saúde bucal diferenciado, e o dramaturgo que imortalizou seus crimes políticos jamais suspeitou que a verdadeira intimidade do personagem ficaria guardada, seiscentos anos depois, num pedacinho de tártaro. Se isso não é motivo suficiente para uma risada irônica diante da vaidade humana, então eu não sei o que é.
A pesquisa foi publicada no periódico American Journal of Biological Anthropology
