Médium usa Pai Google de Oxóssi para trazer mensagens do Além

Eu tenho problemas com golpistas. Primeiro, porque eles deveriam estar com uma ponta de corda no pescoço e outra num blocão de concreto, sendo jogados na Fossa das Marianas. Outro problema é que eles são estúpidos, mas menos estúpidos que suas vítimas. O ensaio é sempre o mesmo: se colocam como médiuns, videntes e mandingueiros e esperam os otários as vítimas, que aparecem como mariposas atraídas pela luz (e a Carol Ann já tinha sido avisada para não ir pra luz), e pronto. Aí é só catar meia dúzia de besteiras que os patinhos ofendidos acreditam que estão falando com espíritos por meio do médium com pão e manteiga.

Às vezes, são descobertos, como foi o caso de Máira Rocha, que, segundo denúncias de famílias enlutadas, parece ter descoberto algo revolucionário: por que inventar um espírito quando o Instagram do morto já faz esse trabalho de graça?

A rigor, nada do que Máira fazia era exatamente inédito na história da humanidade enganada é a boa, velha e eficiente técnica de Leitura Fria, além do Google.

Esta vigarice consiste em lançar afirmações vagas o suficiente para caber em qualquer biografia (“vejo alguém que sofreu, mas também foi muito amado”), observar a reação de quem ouve e ir ajustando o discurso conforme a pessoa, sem perceber, entrega as próprias pistas. Funciona porque o cérebro humano é generoso demais: ele prefere encontrar sentido onde há coincidência a admitir que está diante de um chute bem-vestido.

A diferença é que Máira, ao que tudo indica, achou a leitura fria um processo lento demais para quem tinha um perfil de Instagram inteiro à disposição. Por que arriscar um “vejo um M no nome dele” quando dá para simplesmente copiar a legenda da última postagem e chamar de mensagem do Além, do Aquém e de onde véve os mortos? Máira eliminou a margem de erro do vidente tradicional e substituiu a intuição por print de tela. Um avanço tecnológico e tanto, digno de aplausos, não fosse o pequeno detalhe de que o produto final continua sendo, na essência, a mesma promessa vazia embrulhada num papel mais bonito.

Máira é advogada (sim, eu sei muito bem a cara que você fez, e nem sou médium!), servidora do Ministério da Saúde em Brasília e, nas horas vagas, comandante de uma casa espírita que atende cerca de cinco mil pessoas por mês. A Madame Min do Planalto coordena a Casa da Caridade Inácio Daniel, onde são produzidas as chamadas “cartas consoladoras”, textos psicografados que prometem trazer, direto do Além, a voz de quem já não tem mais… cof cof cof… voz nenhuma. O problema é que essa voz, segundo as famílias, andava soando estranhamente parecida com a de um perfil público de rede social.

O caso mais emblemático é o de Marina Escames, que recebeu uma carta atribuída ao marido morto. O texto mencionava, com riqueza cinematográfica, uma tatuagem de âncora, um vídeo em que ele preparava chá de camomila e a expressão de despedida “te amo pra cacete”.

Comovente, não é? Eu chorei, você chorou todos choramos. Buuuu-á! Bem… seria comovente, se não fosse o detalhe de que Marina, ao vasculhar o próprio celular, encontrou exatamente os mesmos elementos publicados no perfil dele nas redes sociais. Ou seja: o espírito não trouxe nenhuma mensagem que um bom stalker de plantão não conseguisse reunir em quinze minutos de scroll. Ou pode ser que o marido já estivesse com duas periguetes no Nosso Lar de Tolerância e não quis perder muito tempo pensando a respeito.

Mas calma que… eu já nem sei classificar se melhora ou piora, já que estando de fora eu acho muito engraçado como tem gente que cai nisso, mas enfim…

A carta também trazia um episódio de bullying sofrido pelo filho mais novo de Marina, informação que, essa sim, não estava em lugar nenhum da Internet. Só que a explicação, quando veio, foi tudo menos sobrenatural: o próprio menino contou à mãe que havia relatado o caso diretamente a Máira antes da sessão de psicografia. Ou seja, o “dom mediúnico” tinha, na prática, um X-9 entregando a rapadura. E sim, os próprios “shows de videntes” sempre tem uma entrevista prévia ara catar o máximo que puder do trouxa enganado.

Para Marina, a descoberta funcionou como um segundo luto, o que talvez seja a única parte da história em que não cabe nenhuma piada… mas eu ainda estou pensando em zilhões delas, mas isso porque sou uma pessoa ruim. Mas não tão ruim a ponto de tirar dinheiro de pessoas enlutadas.

Máira, a médium que não conseguiu prever que iria em cana, responde hoje a registros policiais em pelo menos cinco estados por estelionato, calúnia, difamação e ameaça, um currículo criminal com abrangência quase nacional, digno de quem estava mais preocupada em escalar audiência do que em consolar pessoas que sofrem. O Ministério Público, por sua vez, apura acusações que incluem apropriação indébita, desvio de recursos e uma possível rede de influência envolvendo servidores públicos, o que sugere que o esquema, se confirmado, ultrapassava e muito os limites de uma sessão espírita malfeita.

Diante de tudo isso, convidada a se explicar, Máira preferiu o silêncio: não aceitou gravar entrevista para responder às acusações, numa demonstração de que, ao contrário dos espíritos que supostamente psicografava, ela mesma não teve absolutamente nada a dizer. O presidente da entidade chegou a reforçar publicamente que a missão da casa era orientar, consolar e servir sem interesse, frase que, à luz do que se apurou, soa menos como princípio e mais como ironia involuntária.

Para finalizar, deem uma olhada nesta propaganda já meio antiga: ela ainda está valendo muito.


Fonte: Correio do Veado Disponível

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