
Sabe quando os mais velhos dizem que antigamente tudo era melhor? Eles não estavam errados. Olhe ao redor e preste atenção. Da geladeira ao Sistema Operacional, dos carros até um forno, em que é preciso logins, e senhas, e IA, muita IA, cheio de IA e para que? Para você sentar na frente da TV e colocar um programa preferido, driblando comerciais. Uma pesquisa te dá tudo, menos o que você está pesquisando. Isso tem um nome: Enshitification, o, como eu prefiro traduzir livremente: esmerdalhamento das coisas.
Pode perceber: a geladeira da casa dos seus avós durou trinta anos. Motor simples, tubulação de cobre, sem firmware, sem parafuso proprietário, sem nada que exigisse chamar assistência técnica autorizada para trocar uma peça de cinco reais. A geladeira de hoje troca o cobre por alumínio mais barato, mais leve e mais propenso a vazar, com peças pensadas para substituição total em vez de conserto pontual.
É verdade que ela gasta bem menos energia que a antiga, mas isso é mérito do motor, não da engenharia de construção: as geladeiras antigamente tinham prateleiras que eram sob a forma de grade (chamadas “trempe”), o que permitia que o ar frio circulasse livremente. Isso ajudava na eficiência. As borrachas de vedação vedavam realmente, mantendo o ar frio lá dentro, sem troca de calor como ambiente. O compressor era acionado menos vezes, e quando faltava luz, a geladeira se mantinha fria por dentro por mais horas.
Hoje, as prateleiras são de vidro, um material péssimo condutor de calor que impede que o ar frio circule livremente, fazendo com que a geladeira não refrigere por igual. As borrachas de vedação não vedam direito e qualquer falta de luz faz com que a geladeira esquente rapidamente por dentro.
Se pegar um compressor moderno, e enfiar na estrutura de uma geladeira de 1950, e ele vai funcionar tão bem quanto (provavelmente, muito melhor), só que dentro de um casco que dura décadas em vez de anos, acabando por ser muito mais econômico. A “eficiência” evoluiu (não de verdade), a durabilidade foi embora.
O carro seguiu o roteiro parecido. Motor mecânico, resolvido por qualquer oficina de esquina com chave de fenda e paciência. Hoje é um computador com bancos de couro: precisa de atualização remota, depende de módulo eletrônico proprietário e, em alguns modelos da Volvo, pede login numa conta Google repetidamente antes de sequer dar partida, como se o dono do veículo precisasse revalidar sua identidade toda vez que senta atrás do próprio volante, sendo que é apenas o Google tentando ver aonde você vai, quais os seus hábitos e se bobear tendo acesso até à câmera veicular interna e externa. Claro, você vai negando o acesso, mas a gente sabe que ele validará ainda assim, bastando sincronizar com seu smartphone.
Os carros BYD não ficam atrás: as telas do sistema são confusas e sem sentido, projetadas de forma que, para desabilitar um serviço ou função indesejada, você precisa marcar a opção como se estivesse habilitando algo, invertendo a lógica mais básica da interface e transformando uma simples configuração em exercício de paciência frustrante.
Caramba, houve até uma conspiração documentada com fabricantes de lâmpadas. Sim, LÂMPADAS! Neste link eu até mostrei como pioraram os carros propositadamente.
A televisão, então, é o exemplo mais cômico dessa involução com verniz de evolução. A TV antiga ligava, mostrava imagem, e ponto final. Hoje você liga a Smart TV só para assistir a um aparelho externo pelo HDMI, o cabo mais simples que existe, e mesmo assim precisa esperar o sistema operacional inicializar, carregar a tela cheia de sugestão patrocinada, baixar atualização não solicitada, e só então, se tudo correr bem, alcançar a entrada externa que era para funcionar em três segundos desde o início. Você pagou por um aparelho de exibir imagem e ganhou, de brinde não solicitado, um computador lento disfarçado de televisão.
Agora,temos um outro mundo mais… cahan… tecnológico. Os apps são confusos e sequer estão de acordo com o site do streaming acessado pelo browser e pelo app do celular. Filmes que aparecem em um não aparecem no outro, com uma indexação bosta, em que muitas vezes os títulos se perdem em algum lugar entre a luz e a sombra do universo do seu streaming favorito (e nem vou falar das propagandas do serviço pelo qual você paga, as mesmas propagandas que apareceriam na TV aberta e de graça).
Há um padrão comum aos três casos: nenhuma dessas empresas vendeu “menos”. Todas venderam “mais”: mais função, mais tela, mais conectividade, mais inteligência artificial no rótulo mais dificuldade, mais interesses nos seus hábitos de consumo. Complexidade nova quase nunca serve para resolver um problema que você tinha. Serve, principalmente, para justificar cobrar mais caro por um produto cujo custo real de fabricação, na maioria dos casos, caiu. Ninguém pediu tela sensível ao toque na geladeira. Mas alguém, em algum comitê de produto, calculou que “inteligente” no nome permite um adicional de duas ou três casas decimais no preço final, mesmo que a funcionalidade extra nunca seja usada por noventa por cento de quem comprou.
Vale, entretanto, separar três conceitos que costumam aparecer embolados nessa conversa, porque eles se parecem mas não são sinônimos. Obsolescência programada é fazer o produto durar menos de propósito (oi Apple, oi Google). Lock-in é prender o cliente ao ecossistema, dificultando a saída (oi Apple, oi Google, oi Facebook). Enshittification é degradar deliberadamente a experiência precisamente porque o cliente já está preso e não tem para onde ir (oi Todo Mundo!).
Os três andam de mãos dadas na prática, e a enshittification costuma usar os outros dois como ferramenta, mas tratá-los como a mesma coisa empobrece o diagnóstico: a geladeira sofre principalmente do primeiro, o carro da Volvo do segundo, e a busca do Google, como vamos ver, do terceiro por excelência.
Por sinal, “enshitification” foi o termo cunhado em 2022 pelo escritor canadense Cory Doctorow, e virou palavra do ano da American Dialect Society em 2023 e do dicionário australiano Macquarie em 2024. Em bom português, sem musicalidade nenhuma, é o processo pelo qual uma plataforma boa vira uma plataforma ruim de propósito, em etapas, com cronograma. Primeiro ela trata bem o usuário para prendê-lo. Depois passa a tratar mal esse mesmo usuário para privilegiar quem paga por acesso a ele. Por fim, espreme todo mundo ao mesmo tempo até restar só o suficiente para ninguém desistir de vez.
A diferença entre a geladeira de 1950 e a busca do Google de hoje é só a velocidade de medição. O fabricante de eletrodoméstico de décadas atrás não sabia, minuto a minuto, o efeito exato de cada corte de custo sobre o comportamento do cliente. A empresa de tecnologia sabe. O próprio Doctorow relatou como executivos do Google, incluindo o então vice-presidente sênior Prabhakar Raghavan, teriam pressionado para elevar a métrica interna de “consultas por sessão”, ou seja: fazer você buscar de novo e de novo até achar o que queria, porque cada busca extra é mais uma tela de anúncio vista. Resultado: você pergunta uma coisa específica e recebe de volta uma vitrine de produto remotamente parecido, às vezes sem relação nenhuma, só a palavra batendo por coincidência estatística, mas foi exatamente para isso que o anunciante pagou.
E há um agravante recente, uma segunda camada de enshittification empilhada sobre a primeira: os resumos gerados por Inteligência Artificial no topo da busca, os chamados AI Overviews, um tema sobre o qual eu já falei nesta série sobre o Apocalipse Tecnológico Moderno e que ficou conhecido como “A Internet Morta”. Estudos independentes mostram que a taxa de cliques em links tradicionais caiu de cerca de 21% para menos de 9% quando um desses resumos aparece, e sites de notícias já registram quedas de tráfego de até 58% em determinadas consultas.
O usuário preguiçoso e imediatista fica satisfeito com o resumo e nunca visita o site original que forneceu a informação (que muitas vezes sequer tem a ver com o resumo, que não-raro está errado), o que quer dizer que o Google não está só piorando a experiência de busca: está destruindo, ao mesmo tempo, o incentivo econômico de quem produz o conteúdo que alimenta esse mesmo resumo. Editoras europeias já processam a empresa por isso. É a lógica de Doctorow em tempo real, só que agora com um efeito colateral que Doctorow, ao cunhar o termo em 2022, ainda não tinha para citar como exemplo.
O caso do carro que exige login é a mesma lógica em hardware. A impressora HP que recusa cartucho genérico por atualização remota, mesmo cartucho funcional, é prima direta disso; antes, eram 3 disquetes (cada com um ridículos 1,44 MB) para instalar, agora vem um DVD com um monte de coisa que você sequer sabe o que é e, pior!, a impressora ainda funciona de maneira mais catastrófica… isso quando funciona!
O trator John Deere que só liberava certos reparos eletrônicos para concessionária autorizada, mesmo quando o fazendeiro tinha ferramenta e conhecimento de sobra, é outra prima da mesma família. A venda do objeto deixou de ser o fim da transação. Virou o início de uma assinatura disfarçada de compra.
E aí chegamos ao capítulo mais recente dessa saga: o Windows 11. A Microsoft exigiu, sem margem de negociação, o módulo TPM 2.0 para instalar o sistema, tornando incompatível de uma canetada qualquer computador fabricado antes de 2017 e ainda perfeitamente funcional, uma forma elegante de empurrar recompra de hardware sob disfarce de segurança. Empacotou tudo com Copilot enfiado até no Bloco de Notas e no Paint, e lançou o Recall, recurso concebido como parte padrão da plataforma que tira print periódico da tela para “ajudar a lembrar o que você viu” e que levantou, desde o anúncio, enormes preocupações de privacidade o bastante para forçar a própria Microsoft a adiar o lançamento três vezes e reforçar criptografia antes de liberar.
Aham… criptografia… Aham.
A alegação oficial é sempre a mesma cortina de fumaça: segurança, produtividade, modernização. O padrão que se repete em quase toda “modernização com IA” empacotada nesse molde é notavelmente parecido: coletar mais dado do usuário, reduzir mais privacidade, entregar uma experiência mais cara e mais dependente de nuvem alheia para fazer o que antes era feito localmente, sem pedir licença a ninguém.
Vale a pergunta óbvia: por que isso acontece com quase todo mundo, ao mesmo tempo, em praticamente todo setor? A resposta é fria e nada moralista. Quando uma empresa já domina um mercado, melhorar o produto rende relativamente pouco dinheiro adicional, porque o cliente já está comprando. Tornar esse mesmo cliente dependente, incapaz de sair sem custo alto, rende muito mais, porque libera a empresa para extrair valor sem o risco de perder a venda seguinte.
Existe ainda um segundo motor por trás do primeiro: uma empresa familiar pode planejar em vinte anos; uma empresa de capital aberto precisa apresentar crescimento já no próximo trimestre, para um mercado de ações que pune qualquer sinal de estagnação com queda imediata no valuation. Produto maduro, que já não cresce organicamente, entra nesse ciclo de degradação controlada quase por imposição estrutural do próprio mercado financeiro que financia a empresa.
E nada disso é exclusividade do software. Operadoras de telefonia cobram tarifa extra por serviço que já devia estar incluso desde sempre. TV por assinatura empilha taxa sobre taxa até a fatura dobrar sem nenhum canal novo. Companhias aéreas transformaram quase toda comodidade básica, do assento à mala, em cobrança à parte, mas juraram de pés juntos que a cobrança das bagagens iria baixar o preço das passagens. Cloro, teve gente que acreditou!
Bancos cobram tarifa por manter dinheiro parado que, tecnicamente, é deles emprestarem para outra pessoa a juros. A tecnologia não inventou a estratégia de extrair valor depois de conquistar o cliente: ela só automatizou, com painel de controle e métrica em tempo real, um instinto comercial que já era bem mais velho que qualquer chatbot.
O fenômeno já extrapolou de vez o ambiente das telas. Carros vendem por assinatura mensal recursos que o próprio veículo já tem instalado de fábrica, banco aquecido, potência extra do motor, piloto automático, tudo trancado por software até você pagar de novo. Impressoras param de funcionar quando a assinatura de tinta vence, mesmo com cartucho cheio dentro. Aplicativos de busca e de compra escondem resultado orgânico atrás de patrocinado disfarçado de recomendação. Eletrodomésticos comuns passaram a exigir conexão permanente com a internet para realizar função trivial que nunca precisou de rede alguma. E softwares inteiros migraram de licença perpétua, comprada uma vez e usada para sempre, para assinatura obrigatória, renovada mês a mês, sem alternativa. Tudo virou “serviço”.
Existe, ao menos no papel, uma resposta possível para tudo isso, e ela também tem nome e teoria: Cory Doctorow argumenta que quatro freios sempre impediram esse processo de ir longe demais. Eles não desapareceram por acidente histórico ou acaso do mercado: desapareceram porque empresas poderosas investiram décadas, de forma deliberada e bem financiada, enfraquecendo cada um deles, um de cada vez.
Primeiro freio: concorrência
A concorrência de verdade faria o cliente insatisfeito simplesmente fechar a conta e ir embora para o concorrente do lado. Esse freio foi minado por décadas de fusões e aquisições que consolidaram setores inteiros, de busca a streaming, passando por eletrodoméstico e companhia aérea, em meia dúzia de grupos dominantes, e por táticas de precificação predatória capazes de quebrar qualquer concorrente pequeno antes que ele vire ameaça real. Sem opção real de saída, a insatisfação do cliente deixou de custar caro para quem a causa. A concorrência morreu no meio do almoço.
Segundo freio: regulação
Só que uma regulação antitruste séria, aquela capaz de punir abuso de posição dominante antes que ele vire prática padrão do setor inteiro, como muitas vezes a União Europeia tem feito. Esse freio foi esvaziado por uma doutrina jurídica, hoje dominante nos tribunais americanos, que só enxerga dano ao consumidor quando o preço de tabela sobe no curto prazo, ignorando por completo degradação de qualidade, de privacidade ou de reparabilidade que não aparece direto na etiqueta de preço. Uma empresa pode piorar o produto inteiro sem cobrar um centavo a mais e, sob essa doutrina, tecnicamente não fez nada de errado.
Terceiro freio: força de trabalho
A força de trabalho qualificada, como um engenheiro com orgulho profissional suficiente para recusar um design que ele sabe ser ruim, ter poder de barganha suficiente para essa recusa não custar o emprego… mas isso não existe, e quem se recusa, são ameaçados com desemprego e substituição por um Zé Ruela usando IA. Ondas sucessivas de demissão em massa na indústria de tecnologia, sobretudo a partir de 2022, esvaziaram exatamente esse poder de barganha, tornando a recusa individual um luxo cada vez mais raro num mercado de trabalho onde a fila de substitutos dispostos a aceitar qualquer instrução nunca é curta.
Quarto freio: autoajuda técnica
A autoajuda técnica é (ou deveria ser no mundo mágico de pôneis e unicórnios) o direito do próprio usuário de consertar, modificar ou contornar o produto que já é seu por direito de compra. Esse freio foi criminalizado, peça por peça, por trava de software como o VIN locking dos tratores John Deere e por leis de propriedade intelectual cada vez mais generosas com quem já detém poder de mercado, tornando ilegal boa parte da engenharia reversa que antes servia de válvula de escape para qualquer um disposto a resolver o próprio problema sem esperar autorização.
Há prova recente de que reconstruir esses freios funciona, quando alguém força a mão: em julho de 2026, a Federal Trade Commission americana fechou acordo de dez anos com a própria John Deere, obrigando a empresa a liberar para fazendeiros e oficinas independentes as ferramentas de diagnóstico até então reservadas a concessionária autorizada, depois de ação judicial movida com cinco estados. A União Europeia também aprovou diretivas recentes de direito ao reparo, com prazo mínimo de garantia de peças e manuais.
Só que nenhuma dessas vitórias nasceu de arrependimento espontâneo. A John Deere não devolveu nada por iniciativa própria; foi obrigada, depois de perder na Justiça, sob supervisão federal por uma década inteira. Toda empresa hoje instalada confortavelmente no topo chegou lá justamente explorando a ausência desses quatro freios, e cada freio removido deixou dinheiro de verdade na mesa de quem o removeu. Esperar que a mesma indústria que lucrou reconstruindo a alavanca livre agora peça, de bom grado, para alguém vir apertar o parafuso de volta, é talvez esperar demais de qualquer negócio de capital aberto.
mas, vamos ser justos, conscienciosos e realistas: isso é uma gota no oceano cósmico. Não há solução para a torrente de esmerdalhamento de tecnologias em diferentes setores. Ok, foi uma vitória contra a John Deere, mas e todas as outras montadoras de carros de passeio? E as empresas de tecnologia, desde uma TV até um serviço online. Toda vitória é uma vitória, mas se juntar tudo, não houve a menor diferença, nada que as outras empresas digam “caraca, preciso mudar”. Deram de ombros e ainda devem ter rido como a John Deere foi babaca por ter cedido já que não sabe fazer lobby ou financiar campanhas políticas.
Durante décadas acreditamos que a tecnologia tornaria os produtos melhores. Descobrimos tarde, e em ritmo cada vez mais acelerado, que ela também tornou muito mais eficiente o processo de piorá-los sem que a gente percebesse a tempo. É tudo by design. Não é acidente ou incompetência. As empresas são competentíssimas, mas não para lhe dar o que você quer ou o que você precisa, mas dar o que lhes interessa e se você se recusa… bem, sempre pode ir morar no meio do mato.
Nossos avós avisaram.
Fontes:

Um comentário em “Enshitification: a palavra de ordem justificando o que nossos avós diziam”