
Diógenes Laércio é meu filósofo favorito. Ele caminhava pelas ruas procurando um homem honesto com uma lanterna. Acharam-no louco, mas ele sabia, como todo filósofo cínico, ele sabia o que iria encontrar; era a busca a verdadeira questão. Agora, imaginem Diógenes percorrendo o Vale do Silício com sua lanterna em pleno meio-dia. Não está procurando um homem honesto dessa vez. Está procurando concorrência. A lanterna continua acesa; o resultado é parecido.
Durante décadas, o Capitalismo Tecnológico foi vendido como um campo de batalha permanente. Empresas ferozes disputando cada cliente, cada inovação, cada centavo. A narrativa era épica: titãs se enfrentando, e o consumidor saindo ganhando no meio do fogo cruzado. Era uma história boa. Tinha conflito, tinha heróis, tinha vilões ocasionais devidamente processados para manter a aparência de que o sistema funcionava. O problema é que era majoritariamente ficção. E a ficção foi envelhecendo mal. Ou, como meu pai costumava dizer: as pessoas brigam por ideologias enquanto todos eles lá almoçam juntos, algo válido para a política quanto para a economia.
A realidade de 2026 é consideravelmente menos dramática. Concorrência é algo inexistente, parecendo mais uma aristocracia digital, na qual cada gigante já conhece seu território, sua clientela e sua fatia do bolo, e ninguém tem o menor interesse em perturbar o arranjo. Competir, afinal, é uma despesa desnecessária quando você já chegou ao topo, e tem lugar para todo mundo neste topo… menos para você.
Vejamos os fatos com a lanterna apontada diretamente para eles.
A Apple e o Google controlam juntos praticamente a totalidade do mercado de sistemas operacionais para celular. São duas empresas, e essas duas cobram exatamente 30% de comissão sobre tudo que passa pelas suas lojas de aplicativos. Quando processadas, as duas apontam uma para a outra: “mas eles também cobram 30%”. Isso deveria ser uma confissão, mas é tratado como argumento de defesa. A Apple chegou a ser condenada por desacato judicial nos Estados Unidos por criar uma taxa de 27% para pagamentos externos, uma redução tão cosmética que, combinada às taxas dos processadores de pagamento, resultava em zero benefício real para o desenvolvedor. O tribunal chamou de violação deliberada. A Apple chamou de ajuste.
Todos eles almoçam juntos.
Agora, olhe para onde esse dinheiro vai parar. O mercado global de publicidade digital atingiu um trilhão de dólares em 2025. Google e Meta juntos controlam mais de 50% desse valor, algo em torno de 450 bilhões de dólares anuais passando pelas mãos de duas empresas. O modelo de cada uma é diferente: o Google domina busca e intenção de compra, a Meta domina atenção e comportamento social. As tecnologias são distintas, as filosofias de dados são distintas, os formatos publicitários são distintos, e ainda assim, quando um muda suas políticas de privacidade, o outro segue em semanas.
Quando um ajusta seus algoritmos de leilão, o outro acompanha. Quando um introduz um novo formato de anúncio, o outro lança algo funcionalmente idêntico em meses. Não há reuniões documentadas. Não há e-mails comprometedores. Há algo mais eficiente: dois jogadores que dominam um mercado de tal forma que observar o adversário e espelhar suas decisões é simplesmente a estratégia mais racional disponível. O resultado para quem anuncia é pagar pedágio para dois porteiros que nunca combinaram o valor da taxa, mas nunca divergiram nela de forma significativa. E esse pedágio financia praticamente tudo que você usa de graça na Internet.
Todos eles almoçam juntos.
Os serviços de streaming fizeram a mesma coisa com mais elegância e sem precisar de tribunal nenhum. Em 2023, Netflix, Disney+, Hulu, HBO Max, Paramount+ e YouTube Premium aumentaram seus preços. Todos, no mesmo ano. Nenhum e-mail comprometedor foi encontrado. Nenhuma reunião foi convocada. Eles simplesmente observaram uns aos outros, como fazem oligopólios maduros, e chegaram à mesma conclusão de forma independente. Hoje, ter acesso ao mesmo conjunto de serviços de streaming teve um aumento de mais de 60%. Mas não é cartel, porque cartel exige combinação explícita, e eles foram suficientemente sofisticados para não precisar combinar nada.
Não precisam de cartel, eles almoçam juntos.
A infraestrutura que sustenta toda a Internet moderna funciona de forma parecida. AWS, Microsoft Azure e Google Cloud controlam juntos 63% do mercado global de computação em nuvem, um mercado de 400 bilhões de dólares anuais em 2025. Cada startup, cada empresa de médio porte, cada governo digital, cada aplicativo que você usa roda na estrutura de um desses três. É o aluguel do chão da Internet. As margens operacionais da AWS rondam 33%. São números que nenhum setor de infraestrutura física consegue nem sonhar. Aumentos de preço em armazenamento, taxas de transferência de dados e instâncias reservadas acontecem de forma notavelmente sincronizada entre os três provedores. O cliente que quiser sair descobre que migrar anos de dados e sistemas de uma nuvem para outra é tão caro e trabalhoso que a escolha teórica de trocar de fornecedor é, na prática, irrelevante.
Alguns chamam de lock-in, funcionando melhor que qualquer contrato de fidelidade. Eu digo apenas: eles almoçam juntos.
As redes sociais copiaram funcionalidades umas das outras com uma velocidade que faria qualquer estudante de administração corar. O Instagram copiou o Snapchat. O TikTok surgiu, e todo mundo copiou o TikTok. O Twitter inventou o Stories (ainda que chamassem de “tweet” ou atualmente “post”), o LinkedIn inventou o Stories, o Spotify inventou o Stories. A Meta comprou o WhatsApp, comprou o Instagram, tentou comprar o Snapchat e, quando não conseguiu, construiu algo parecido. O resultado prático é que as plataformas são hoje estilisticamente indistinguíveis, cobram taxas parecidas dos criadores de conteúdo, suprimem alcance orgânico de formas parecidas e vendem soluções pagas para o problema que elas mesmas criaram, de formas parecidas.
A diversidade de opções é real. A diversidade de experiências é ilusória. Nem poderia ser diferente, já que eles almoçam juntos.
O mercado de Inteligência Artificial repetiu o padrão com a velocidade de quem chegou tarde e precisava correr. ChatGPT, Gemini, Grok, Claude, Copilot: modelos com capacidades distintas, certamente, mas com estruturas de preço notavelmente similares, planos de assinatura notavelmente similares, versões gratuitas com limitações notavelmente similares projetadas para empurrar o usuário para o plano pago. O mesmo vale para ferramentas de nicho que a maioria das pessoas usa sem perceber: plataformas de upscaling de imagens, remoção de ruído de áudio, geração de legendas, conversão de formatos. Todas chegaram ao mercado com generosidade calculada, todas migraram para assinaturas, todas convergiram para faixas de preço parecidas, todas introduziram limites de uso que empurram exatamente para o plano seguinte.
A fase gratuita de qualquer plataforma tecnológica tem data de validade conhecida. Primeiro você entra de graça, cria dependência, integra o serviço na sua rotina, e então a conta chega. Até mesmo as IA almoçam juntas (ou seus criadores, melhor dizendo, o resultado é o mesmo).
No Brasil, o iFood e o Uber Eats transformaram o delivery de comida num experimento de tolerância humana. O aplicativo que em 2017 era uma interface simples para pedir pizza virou um labirinto de cupons com validade de 48 horas, taxas de entrega que variam por algoritmo sem explicação, preços no app consistentemente maiores que os preços no cardápio físico do restaurante para “cobrir a comissão”, e um plano de assinatura mensal que devolve parte do dinheiro adicional que eles mesmos cobram. Apareceu o 99 Foods, mesmo comportamento.
O serviço foi deliberadamente degradado para que a solução pudesse ser vendida. É a mesma lógica que a Apple aplicou ao armazenamento em nuvem, ao alcance das notificações e ao ecossistema de acessórios: criar dor administrada, depois vender o analgésico. Os donos dessas empresas almoçam juntos, mas sem pedir delivery em suas plataformas para não serem explorados.
A fórmula tem quatro etapas e está sendo aplicada simultaneamente em dezenas de mercados: degradar o serviço básico, criar desconforto suficiente para motivar ação, lançar o plano pago como solução e apresentar o desconto sobre o preço inflado como se fosse um favor. O cupom de 20% que aparece no iFood após o preço subir 30% não é uma promoção. É teatro. O plano com anúncios do Netflix que custa menos que o plano sem anúncios que custava menos antes de existir o plano com anúncios não é uma opção de acessibilidade. É engenharia de escolha.
O caso RealPage é o capítulo mais revelador porque mostra para onde isso tudo está indo. O software, usado por proprietários de imóveis nos Estados Unidos, coordenava aumentos de aluguel entre concorrentes por meio de algoritmo, sem que os proprietários precisassem trocar uma palavra entre si. O algoritmo ingeria dados não públicos de todos os clientes, aprendia com o comportamento coletivo e chegava às mesmas conclusões que um cartel humano chegaria, só que mais rápido e sem deixar evidências de conluio. Em 2024, o Departamento de Justiça americano processou a empresa e seis grandes proprietários.
Em novembro de 2025, após acordos milionários com os senhorios, a RealPage aceitou um acordo: sem admitir culpa, concordou em parar de usar dados ativos de contratos para treinar seu algoritmo. A lei conseguiu caçar a fumaça. O incêndio já havia aprendido a ser elétrico. Mas sabemos que esse acordo não o fará parar com a prática.
Os economistas que imaginaram que mercados livres produziriam naturalmente equilíbrios benéficos ao consumidor não anteciparam algumas coisas: que o custo de trocar de plataforma poderia ser tão alto que a liberdade formal de escolha se tornaria irrelevante na prática; que algoritmos de precificação poderiam aprender a coordenar preços sem que nenhum humano precisasse tomar a decisão; que dados comportamentais em escala permitiriam uma compreensão tão precisa da disposição máxima a pagar de cada consumidor que o próprio conceito de preço de mercado perderia sentido.
Os que previram que a concentração de capital levaria à exploração sistemática do trabalhador e do consumidor não imaginaram que isso aconteceria através de interfaces elegantes, planos de fidelidade e programas de pontos, com o explorado agradecendo, deixando cinco estrelas e compartilhando o link de indicação para ganhar um mês grátis. Na verdade, o explorado foi o consumidor e não o trabalhador (apenas). Ambas as visões tinham partes corretas. Nenhuma delas poderia ter imaginado a especificidade do mecanismo. O futuro raramente falha onde os pensadores erram; ele falha exatamente onde eles acertaram, só que de um jeito que eles não preveniram. Os grandes economistas do passado não previram que todos os concorrentes iriam almoçar juntos.
A pergunta relevante aqui não é jurídica. É: qual é a diferença prática entre um cartel e um mercado onde todas as empresas fazem exatamente a mesma coisa sem precisar combinar nada? Para o consumidor que paga, a diferença é nenhuma. O preço é o mesmo, a ausência de alternativa real é a mesma, a sensação de que o sistema foi projetado para extrair o máximo possível antes que a resistência se organize é a mesma.
Se anda como pato, grasna como pato e cobra 30% como pato, talvez estejamos olhando para um pato. O fato de o pato ter contratado advogados sofisticados para explicar que tecnicamente não é um pato não altera a experiência de quem está sendo bicado.
Durante anos nos disseram que monopólios eram perigosos e que a solução era a concorrência. Descobrimos algo ainda mais eficiente: um pequeno grupo de empresas gigantes que não precisa monopolizar nada, porque o resultado já foi atingido sem monopólio formal. Google e Meta controlam mais de 50% de toda publicidade digital do planeta. Três empresas controlam 63% de toda a computação em nuvem. Dois sistemas operacionais móveis dividem 99% dos celulares. Quatro plataformas de streaming dominam o entretenimento ocidental. Dois aplicativos de delivery dominam o jantar. Basta que cada uma observe as outras, copie as outras e cobre como as outras. O consumidor fica sem saída de qualquer forma, com a vantagem adicional de que o sistema é perfeitamente legal e os relatórios de sustentabilidade são impecáveis.
O cartel moderno não precisa de porão escuro para conspirar. Opera em escritórios de vidro com vista para o oceano, transmite eventos ao vivo pela Internet, publica relatórios trimestrais para investidores e oferece planos de assinatura para quem quiser a experiência premium de ser explorado com mais conforto, e tudo isso terminando com todos eles rindo durante o almoço, cada um se vangloriando do que fez. Não combinaram, não precisavam. Basta impedir o seu direito de falar algo, ou será retirado do mundo digital, e sem o mundo digital, você não é nada.
Diógenes apagou a lanterna. Não encontrou o que procurava, mas o que precisava saber.
Fontes:
