Picatrix: O Manual de Instruções do Feiticeiro Malvado

Se você já se perguntou como um vilão medieval se tornava vilão de verdade (e não apenas aquele rei chato que cobrava impostos absurdos), a resposta está condensada em um único livro. Um livro que, por sinal, andava circulando pelas melhores bibliotecas da Europa durante séculos, com a mesma normalidade que livros de auto-ajuda tipo “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, que foi febre lá pelo início dos anos 2000. Esse livro se chama Picatrix, e ele é, sem exagero, um dos documentos mais estranhos, mais mórbidos e mais fascinantes que a Idade Média nos legou.

A história de como o Picatrix chegou à Europa é, por si só, digna de um roteiro de série. O texto foi originariamente escrito em árabe, no século XI, com o nome de Ghayat al-Hakim, e era, nas palavras mais diplomáticas possíveis, um tratado sobre magia astral, uma espécie de macumba árabe-europeia. Ao longo das décadas, ele foi traduzido primeiro para o espanhol e depois para o latim, ganhando o nome que conhecemos hoje.

Por que “Picatrix”? Boa pergunta, mas infelizmente eu não tenho uma boa resposta porque efetivamente ninguém sabe com certeza. Mas o nome ficou, e junto com ele ficou também a reputação: um manual completo para quem quisesse dar um jeito de malvado à sua vida medieval. No século XIII, já havia cópias espalhadas por bibliotecas em Oxford, Paris, Florença e Cracóvia. Não exatamente um livro censurado e guardado em segredo, então. Estava mais um best-seller polêmico que os historiadores ainda não sabem bem como explicar. Curiosamente, a ICAR não pareceu dar muita bola. Talvez pelo fato do Index só ter começado a ser publicado oficialmente em 1559, já na fase da Contrarreforma. O Picatrix, por sua vez, circulava desde o século XIII em cópias manuscritas, mas nunca foi impresso, justamente por conta do seu “caractère illicite” (caráter ilícito), como apontam os estudiosos.

O que torna o Picatrix tão interessante não é apenas o fato de existir, mas o que está dentro dele: um cardápio completo de feitiços e rituais, desde a invocação de espíritos até a criação de talismãs e a fabricação de elixires que você definitivamente não gostaria de provar. E, sim, alguns desses receituários exigem ingredientes que diriam aos mais intrépidos cozinheiros da história que a culinária tem limites.

Vamos começar, por exemplo, pelo feitiço mais ecologicamente devastador do manual. O Picatrix oferece uma maldição capaz de despovoar uma região inteira, transformando-a em um ermo abandonado. Para isso, você precisa usar o fluido do cérebro de um porco para desenhar figuras em uma fina folha de chumbo e depois colocar essa folha no lugar que deseja ver deserto. O texto explica, com uma calma desconcertante, que isso deve ser feito “no dia e hora de Saturno, com a segunda face de Capricórnio ascendendo”.

A ideia é que a energia maligna de Saturno se infiltre na folha e impede que qualquer pessoa se aproxime daquele lugar enquanto o objeto existir. É, na prática, um recurso de espaço pessoal extremo. Sabe aquela pessoa chata que coloca bilhetinho na caixa de correspondência por causa do cachorro late demais, ou manda mensagem no WhatsApp do condomínio? Tipo isso, mas em versão medieval.

O Picatrix era profundamente baseado na Astrologia e ao poder dos planetas, algo que, no mundo medieval, incluía Saturno, Júpiter, Marte, o Sol, Vênus, Mercúrio e a Lua, já que os grandes gênios da Astrologia não conseguiram descobrir que existe Urano, Netuno e Plutão (dane-se que Plutão não e mais planeta. A Lua não é e está lá nos astrólogos).

A ideia era que cada planeta exercia influência sobre determinadas esferas da vida, e que era possível capturar essa influência através de metais, minerais e joias, tudo isso sendo devidamente vendido, claro. O exemplo mais memorável é o anel de Saturno: feito com turquesa e chumbo, devia ter gravado na superfície a imagem de um homem montando um dragão e empunhando uma foice.

O anel, segundo o texto, tornaria seu portador capaz de receber a obediência de espíritos, animais e até mesmo “os segredos mais profundos da humanidade”, praticamente um Anel dos Lanternas Verdes. Há um pequeno detalhe, porém: o Picatrix adverte que o portador do anel não deve entrar em lugares escuros nem comer carnes temperadas com dill, também chamado de “endro”, aquilo que você nunca ouviu falar, então, não vai fazer diferença pra você.

A seção sobre metamorfose é, provavelmente, a mais perturbadora do livro. O feitiço, atribuído aos povos da Índia (o texto afirma que eles mantiveram o segredo durante muito tempo), envolve uma mistura de sêmen humano e animal que é colocada em um recipiente e depois mergulhada em excrementos por três dias. Quando a criatura resultante surgir no recipiente, ela deve ser colocada em óleo de gergelim por mais três dias e depois moída em pó junto com esse mesmo óleo.

A “Aque Lampa” assim preparada, ao ser usada para ungir o rosto de alguém, faria essa pessoa aparecer na forma do animal cujo sêmen foi usado. O que dizer? A Idade Média era uma época em que não existiam drogas recreativas no sentido que conhecemos, então, as pessoas precisavam se divertir de outras formas.

Os elixires e venenos do Picatrix formam outro capítulo que equilibra entre o mórbido e o Monty Python. O texto oferece receitas que exigem suor de porco, cérebros de jumento, gordura de macaco e urina de gato preto. A mais sinistras entre elas envolvem um sapo que deve ser esticado sobre um toco, com as patas pregadas por pregos, e depois golpeado com um bastão até que, por assim dizer, “vomite” um venom triplo de três cores diferentes. Esse veneno, uma vez fermentado em um recipiente de chumbo, tornava-se ainda mais potente. Era, essencialmente, um laboratório de guerra biológica operado por uma única pessoa em uma cabana no meio do nada.

Não que eu esteja recomendando. Veja bem.

O Picatrix também oferece orientações sobre como pedir favores aos planetas. Cada planeta, segundo o texto, se mostrava mais receptivo quando se trata de determinados grupos. Você pedia a ajuda de Saturno contra agricultores e pais. Do Sol, contra médicos e filósofos. Da Lua, contra reis e bandos. Marte, por sua vez, era descrito como “o autor das coisas malvadas”, um planeta que trazia dor e sofrimento, e o Picatrix oferece uma longa oração dirigida a ele.

A oração começa com “Ó Marte, tu que és da natureza de fogo ardente…” e segue com uma longa lista de qualidades terríveis que, por mais bizarro que pareça, resulta em uma espécie de petição formal ao planeta mais violento do Sistema Solar. Era diplomacia cósmica, medieval no estilo.

O artefato mais poderoso descrito no livro, no entanto, é um espelho mágico. TINHA que ter um espelho mágico!

Para criá-lo, você precisa de um espelho feito em ouro ou prata dourada, além de cabelos de uma mulher (retirados tanto do pente quanto das roupas), seda, ramos de amora, incenso, sangue e seu próprio sêmen. Os nomes de sete estrelas, sete anjos e sete ventos devem ser gravados na superfície. Se tudo for feito corretamente, o espelho tornaria seu possuidor capaz de trazer sob seu controle homens, ventos, espíritos, demônios, os vivos e os mortos. “Todos serão obedientes a você e atenderão ao seu comando”, promete o texto, com a confiança de alguém que nunca tentou nada daquilo na prática.

E aqui chegamos ao ponto mais relevante: não há nenhuma evidência de que qualquer um dos rituais do Picatrix tenha funcionado. Jamais.

Obviamente, enquanto documento histórico, isso não diminui a importância do texto; é que nem a Bíblia: você não vai levar tudo aquilo a sério, mas é um documento histórico sobre a visão do Homem da Antiguidade.

O Picatrix é um espelho (não mágico, infelizmente) do que as pessoas da Idade Média realmente acreditavam sobre o mundo. Ele nos mostra como a fronteira entre Ciência e Superstição era quase inexistente, como a Astronomia, Astrologia e a Magia compartilhavam a mesma gramática, e como a natureza era percebida como um sistema de forças invisíveis que podiam ser manipuladas por quem conhecesse os rituais corretos.

Em certa medida, o Picatrix não é tão diferente dos manuais de autoajuda de hoje: promete poder, controle e influência sobre o mundo ao redor. A única diferença é que os ingredientes são um pouco mais difíceis de encontrar no supermercado. Tenho para mim que era isso mesmo. Você via que seus problemas tinham solução, mas você não tinha acesso a eles, então tinha que dar o seu jeito de resolver. Tenho absoluta certeza que o cara que escreveu tinha isso em mente, que nem o Livro de São Cipriano.

Se você estiver a fim de dar um jeito nos seus vizinhos ou clamar proteção contra o rei, você pode adquiri-lo baratinho.

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