Tutancâmon tinha um punhal extraterrestre?

Isto seria tarefa do E-Farsas, mas o tratante anda esnobando pobres coitados e só escolhe matéria topo-de-linha. Aí fica o maldito History Channel divulgando que o grande rei Tut tinha um punhal extraterrestre, provavelmente por goa’ulds. Será verdade? Será Farsa da Web? Seria burrice galopante de jornaleiros malditos? Seriam os reptilianos?

Não, gente. A bosta do rei-menino não tinha um punhal extraterrestre e nem o milagre veio do Espaço. O que ele tinha você saberá no LIVRO DOS PORQUÊS, mas antes, vamos ler sobre…

Saiba, ó Ramsés, filho de Amon-Rá, Protegido dos Deuses, Rei do Alto e Baixo Egito, Aquele que reina sobre o Nilo, Abençoado por Ísis, que nos dias que Aquenaton instituiu a heresia de termos um único deus, Aton, os deuses se enfureceram. Tal foi a ira que este rei teve para com o politeísmo, que mandou retirar qualquer menção os poderosos deuses. Todos os nomes e referências foram apagados dos registros. Deuses estes que se enfureceram.

Por 17 anos, ó filho de Rá, um piscar de olhos para um de nossos valorosos deuses, o tirano rei governou com austeridade e muitos não duvidam que ele tenha sido assassinado. De sua mulher Nefertiti sabe-se pouco, mas é certo que, depois de Aquenaton, Tutancâmon assumiu o reinado aos 8 anos, sendo casado com sua meia-irmã Anchesenamon, séculos antes de ser arrolada como personagem do infame filme do Brandon Fraser.

Tutancâmon, pressionado, digo, levado à luz da Verdade pelos sacerdotes, reinstitui o culto aos sagrados deuses. E estes o presentearam com algo que homem mortal nenhum tinha, o presente de um deus-vivo: um punhal de um metal que nem sobre as areias nem abaixo delas teriam igual. Um presente digno de um rei poderoso. E este rei, ainda que em sua curta jornada governou com paz e sabedoria, tendo depois ido ao encontro de Anúbis e feito a passagem.

Claro, seria assim se a realidade fosse divertida. Tut só tinha um punhal de ferro, mesmo. Mas o que isso tem de tão extraordinário?

Simples: aço ainda não tinha sido descoberto, e os egípcios tiveram que rebolar para fazer um punhal desse tipo. Por quê? Simples: ponto de fusão.

A época dos grandes reis do Egito era a Era do Bronze. Minerais à base de cobre apareciam quase à flor da terra. Só que purificar e trabalhar com cobre é uma dificuldade porque seu ponto de fusão é de 1.085 ºC. Não só isso, o cobre é um metal duro e resistente. Afiá-lo para o transformar numa arma é bem difícil, e depois de afiado, ele perdia o corte muito rapidamente. Já o bronze também tem ponto de fusão elevado, entre 900 e 1000 ºC, mas como arma era muito melhor, pois esta liga metálica feita de cobre e estanho era muito mais fácil de ser trabalhada. O estanho vinha da ilha que os gregos mais tarde chamaram de Kassiteris e hoje é a Grã Bretanha. Por isso, que o mineral do estanho é chamado “cassiterita”.

O ferro, por outro lado, tem ponto de fusão de 1.538 ºC, o que é muito alto para fogueiras comuns, sendo preciso insuflar ar para aumentar o poder redutor E oxidante, liberando o ferro das impurezas. O ferro é bem mais bonito, mais fácil de se trabalhar e uma arma notável. Quem enfrentou os romanos usando arminha de bronze teve péssimas notícias de espadas se partindo quando se chocavam com os gládios.

O punhal que o History se refere foi encontrado na tumba do rei Tut pelo arqueólogo Howard Carter em 1925, três anos depois de ter descoberto o túmulo. Este punhal, de pouco mais de 34 cm de comprimento, estava bem fechado e protegido (tanto o punhal quanto o rei Tutancâmon). O punhal, no caso, estava perto da coxa direita da múmia, e a lâmina de ferro foi protegida com uma bainha de ouro decorado com um padrão de lírios de um lado, penas sobre o outro, e uma cabeça de chacal, muito provavelmente representando o filho de Hórus Duamutef, tal como o vaso canópico, e representa o leste (entenderam o motivo da coxa direita?).

Graças ao seu invólucro e baixa umidade local, a lâmina se manteve bem conservada por estes longos milênios; só uns poucos pontos de oxidação. Mas ficou a dúvida: como os egípcios produziram ferro? Simples, não produziram. Eles ainda não tinham a técnica de forja por insuflação de ar (ustulação), então, de onde veio o ferro? Ora, do mesmo lugar que veio o ferro presente aqui: do Espaço, vindo com meteoros, que caíram aqui. Os meteoritos (meteoro é quando ele vem voando VOOOOOOOOOOOSH pela atmosfera. Quando ele cai, KABOOOM, forma uma rocha, que é o que chamamos meteorito) sempre foram altas fontes de metais, e nesse caso não foi diferente, sendo que o meteorito era ferro quase puro, formado no interior de alguma estrela que explodiu há milhões de anos. Como não há mais oxigênio além de traços no Espaço, o ferro se mantém por muito, muito tempo. E quanto mais puro, mais difícil dele reagir com outras substâncias.

Assim, os egípcios, claro, interpretaram que aquela rochona que caiu do céu era um presente divino, digno de um rei. Sendo assim, usaram as ferramentas que tinham à mão: cinzéis e marretas de bronze, e sentaram a porrada no meteorito, até o danadinho tomar jeito e forma, praticamente a mesma coisa que eu tenho vontade de fazer com o History Channel quando divulgam insanidades como Cientistas comprovam que o punhal de Tutancâmon é extraterrestre.

Sim, seus pulhas. No sentido literal, é, sim, de origem extraterrestre se nos referirmos a ter vindo do Espaço, mediante a explosão de uma estrela e acreção suficiente para se tornar um asteroide e cair aqui na Terra, mas eu sei muito bem que este titulo dúbio é para atrair gente maluca que acredita em UFOs, o tipo de coisa que vocês, seus sacripantas, não quiseram elucidar, por serem um canalzinho mequetrefe que vive às custas de loucuras veiculadas de e para gente maluca que acredita em qualquer merda. Vocês são uma vergonha! Colocam só lá no final os links com as referências, os quais ninguém prestará atenção, pois o mais importante já foi vendido: o título, dando ideia que este punhal motherfucker veio como um presente de Darth Vader, do planeta Vulcano.

Aqui, não. Nós damos a informação, e que as análises feitas com fluorescência de raios-X, identificou, não só ferro, mas cerca de 10% de níquel e 0,6% de cobalto. Sabe onde tem muito ferro e níquel, History? No Centro da Terra, numa coisinha chamada Nife. Adivinhe porque é chamado de “Nife”, History. Faz um esforcinho, vai.

Na espectroscopia por fluorescência de raios-X, o mineral é bombardeado com raios-X (d’Oh!) e as cores emitidas pela área acertada passam por análises, em que cada cor é analisada, separada e usada para identificar elementos químicos.

Claro, isso não basta. É preciso uma comparação. Sendo assim, a drª. Daniela Comelli, professora-adjunta do Departamento de Física da Escola Politécnica de Milão comparou os testes efetuados na lâmina do punhal com amostras de 11 meteoritos metálicos, acarretando resultados muito semelhantes. Fica claro, então, que a lâmina, não só tem origem em algum meteorito que caiu na Terra (e não na pirâmide construída por dinossaucers), como os egípcios estavam bem familiarizados com esses meteoritos.

A pesquisa foi publicada no periódico Meteoritics and Planetary Science. Isso mesmo! Abertinho pra você! (ops).

Aprendeu como se faz, History?

15 comentários em “Tutancâmon tinha um punhal extraterrestre?

  1. Poxa, adoro alienígenas do passado, assim fico sabendo que a pedras da pirâmide foram cortadas com laser, foguetes astecas e os homens formiga que vivem no centro da Terra.

    1. E que fazem todas essas maravilhas da engenharia sem ninguém ver e depois de terminadas vão embora, também sem ninguém ver. E governos e agências espaciais sabem de tudo isso que acontece, porém ocultam os fatos porque… sabe-se lá porque cacete de motivo.

      1. Porque a “humanidade não está preparada”.

        Tsc, tsc.. não sabe nada sobre os ufoloucos, hein?

        :P

  2. Fico imaginando a quantidade de trabalho e paciência para cortar uma lâmina de ferro legal dessas com ferramentas de bronze.
    Só para comparar, nem consigo fazer uma estaca de madeira bonitinha usando um facão de aço……

  3. Eu acho interessante quando um personagem histórico como Tutancâmon ganha um apelido simpático. Em documentários ditos históricos e educativos, virou “rei Tut”. Que meigo. E com uma lança alienígena fica ainda melhor. No aguardo de conspiracionistas do templo de Sião e seguidores do conde de Saint-Germain falarem que esta é na verdade a lança de Longinus, que nos protegerá do terceiro impacto.

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