Quando a Apple inventa algo melhor que livros

Eu sou um apaixonado por livros. Olho para a minha direita e vejo livros sobre a história de Roma, Química Orgânica, Mitologia Comparada, manuais de reagentes, os romances de Tom Clancy e Frederick Forsyth, dicionários, teologia do Novo Testamento, algumas apostilas (escritas por mim ou nem tanto), papéis avulsos e outras histórias. Às vezes, quando estou fora de casa, me pego numa questão que não tenho como responder na hora. Seja durante a aula, seja conversando com pessoas ou até mesmo respondendo a um comentário. Posso aprovar os comentários daqui quando estou no almoço, direto do celular. Sempre pensei em ter este acervo em ebook (que eu também possuo aos montes, a ponto de nem saber direito o que tenho no HD). A pesquisa online nem sempre me retorna o que eu quero, acabando por olhar nos meus livros.

Os livros estão ali, quietos, prontos para entrar em ação. Desde algumas obras bem velhas, do século XIX, até edições novinhas em folha (algumas ainda nem receberam a luz dos meus olhos). Eles estão ali, imutáveis e este é um dos grandes problemas dos livros: sua imexibilidade (salve, pai Magri de Ogum!). Eles são estáticos, parados, perfeitos na perfeição em que foram planejadas, mas muitas vezes isso é pouco, como num mundo de grandes mudanças que sempre precisa estar atualizado. Como se faz?

A Internet veio como uma promessa de saber difundido a todas as pessoas. Funcionou, mas não a contento. encontrar informações é difícil. Devemos peneirar, ou acabaremos lendo coisas idiotas como alguém estudando porque anjos não poderiam voar. A Wikipédia serve para consulta, mas ante aos mandos e desmandos dela (e principalmente na "lusófona"), ela torna-se algo não muito confiável. Como primeira e rápida consulta, ótimo! Mas como professor, eu olho torto para trabalhos que me entregam citando Wikipédia como fonte.

A Apple agora promete uma revolução no processo ensino-aprendizagem. Conhecida pelo seus "i" (Pod/Phone/pad), ela faz algo no qual se tornou mestra: criar tendências. O iPod não era uma revolução, se vermos perante uma luz fria de bom senso. O Walkman já existia muito antes, só que ele não te dava acesso às músicas. Este foi o diferencial do iPod. O iPod Touch veio ampliar isso. Não só músicas, mas acesso à internet, filmes, livros etc. o iPhone é "só" um telefone que adaptaram no Touch. O iPad eu não dei muito crédito no início, mas o bom de ser adulto é poder mudar de ideia de vez em quando. Atualmente, ele é… bem, ele se tornou uma Gillette (não, nada relacionado com piadinhas relacionadas aos usuários de Macs). A Gillette virou sinônimo de "lâmina de barbear" e "Bom-bril", de lãs de aço. O iPad se tornou sinônimo de tablets e os demais que tenho visto não estão ainda (por quanto tempo?) à sua altura. A plataforma Windows Phone promete, mas ainda é especulação e não se sabe o que vai acontecer.

A Apple muda o cenário agora . Ela assinou contrato com 3 das maiores editoras de livros didáticos dos EUA: : Pearson, McGraw Hill e Houghton Mifflin Harcourt. Com isso, vocês terão acesso às três editoras que detêm mais de 90% do mercado de livros didáticos dos EUA. Preço dos livros comprados direto na iBook Store? US$ 14,99. Menos de 30 reais na cotação de hoje! Deixe-me ver. O preço dos livros no Brasil é tabelado pelas editoras. Assim, o preço de uma livraria é o mesmo que se você for em outra livraria. Ou a livraria dá um desconto e perde uma fatia do lucro ou azar o dela. No caso da Saraiva é um pouco diferente, já que ela pode comprar uma tiragem inteira, como ela fez em 2001, comprando TODA a tiragem do Senhor dos Anéis e não deu um único centavinho de desconto. Tudo bem que isso implica em monopólio, mas estamos no Brasil. Nessa época, no Rio de Janeiro, somente a Saraiva e a Martins Fontes (quem tem dos direitos do Tolkien no Brasil) tinham o livro. às vezes, por algum acordo, ela pode dar descontos bem competitivos, mas dificilmente isso se nota nos livros didáticos e você não precisa pensar muito para entender o porquê. Hoje, o livro Química 1 – Química Na Abordagem do Cotidiano – Moderna Plus – 1º Ano, do Tito e Canto sai por R$1478,00. Particularmente, eu acho um livro muito bom… bom para servir de calço de mesa, mas o que interessa é o preço. Vamos a outro título: Matemática Ciência e Aplicações – Ensino Médio – Vol. 1 – 5ª Ed. 2010, do Gelson Iezzi. Preço: R$120,00. Prestem atenção que são livros de um único ano para o Ensino Médio. O preço dos livros Volume Único não é muito diferente. Vamos ver um livro um pouco mais hardcore: Fundamentos de Química Analítica, do Skoog. Preço: R$229,90. Preciso mesmo continuar ou vocês perceberam o ponto?

Ah, mas temos o preço do iPad que é mais de 1600 reais. É caro.

Pensa, criatura, pensa! Se você é pai ou mãe, sabe quanto custa um filho em idade escolar, e não estou mencionando as mensalidades, nem material didático. os livros. No Ensino Médio, calculemos, 15 disciplinas usando livros a um preço de 100 reais: 1500 reais. Lindo! O preço do iPad (quase). Então vejamos atlas geográfico, caderno de desenho etc. Isso com acesso à Internet (devidamente supervisionado por administradores de rede prontos a impedir que eles fiquem acessando besteira). A economia é absurda, pois o iPad em questão não será apenas para servir de ebook reader. Isso o Kindle já faz e bem mais barato. Então, pensemos num livro com animações, já que os livros poderão usar tecnologia HTML5. Exercícios interativos, animações de, por exemplo, uma torneira enchendo um tanque sei-lá-das-quantas. Para colégios que não dispõem de laboratórios (ou somente para ilustrar um experimento rápido) o aluno poderá ver um vídeo de toda a reação se processando. Sem salas de informática, sendo disputadas por todos os professores simultaneamente. Direto na sala de aula, sem precisar maiores investimentos em infra-estrutura. Da mesma forma, trocentos documentários da BBC podem ser usados tanto em sala de aula como fora dela (pena que só para o pessoal que possui residência no Reino Unido e um cliente Torrent). O conteúdo disposto assim, em formato digital, é facilmente editável, facilmente atualizável. Se você for advogado, a atualização das leis será muito mais fácil ao invés de acumular livros e mais livros que acabam se tornando desatualizados e pouco servindo para uso.

Entretanto, os professores não estão preparados para isso, ainda. Ainda mais no Brasil com licenciaturas rápidas, onde o professor é formado em Paulo Freire, não na disciplina em que ele tem que lecionar. O professor é adestrado em táticas psicopedarretardadas e não em fazer o aluno aprender a matéria, mesmo porque, tais "professores" sequer sabem o que estão ensinando, apenas o que traz o livro (muitas vezes, com erros grosseiros). Tenho medo que usariam isso para ver vídeos no YouTube com professor vagabundo que dá aula em cursinho cantando funk para agradar aos clientes, pois estes pagam mensalidade. A ideia é boa e merece ser divulgada, se idiotas não saberão usar, a culpa não é da plataforma ou das empresas. É como culpar as editoras de livros didáticos por eles não serem tão atraentes quanto lixos editoriais de vampiros homoafetivos. Sempre será uma guerra pela atenção, enquanto alunos trocam SMS, acessam Orkut e Facebook pelo celular e nem sempre o professor consegue flagrá-los, pois as salas são lotadas, mesmo em colégios particulares (estes visam a diminuição dos gastos com hora-aula).

Aliado a essa facilidade de passar conteúdo, temos o iBook Author (que por enquanto só existe para a plataforma OSX), onde qualquer um pode criar um livro didático e dispor tanto para venda, como para distribuição gratuita. Eu sou professor e ao ver tudo isso, senti pena de duas coisas: O Moodle e OLPC (quer dizer, não senti muito, muito).

O Moodle é uma ferramenta excelente para cursos e ensino a distância, mas é uma merda! Configurar aquilo tudo não é tarefa fácil e um professor de, digamos, Língua Portuguesa não tem obrigação de saber isso, ficando a cargo de terceiros fazerem isso. A obrigação dele é ensinar sua disciplina e certificar que seus alunos aprendam algo (o primeiro é mais fácil que o segundo). Já o OLPC… bem, desculpem, mas é um lixo. Já vi aquela tristeza e eu não usaria aquilo nem que me pagasse. Alguns argumentam que ele foi a semente para a criação dos netbooks (muito legais, mas eu não quero um). Não importa, ele não passou de promessa.

Agora, quem deve estar com o fiofó bem apertadinho é a Amazon, que foi chamada pra porrada e seus modelos de Kindle podem não ser páreo pro que vem por aí. O Kindle ainda está com a filosofia dos livros em papel. Ainda um pouco engessados e tá na hora de darem uma revisitada nisso. Eu ainda adoro os livros de papel e continuarei adorando-os, pois eu vejo ebooks apenas como mais uma ferramenta. Não sou daqueles deslumbrados por tecnologia que acham que tudo deve ser computadores, tablets etc. Eu ainda sou favorável ao bom e velho caderno de notas, onde o professor leciona, desenvolve raciocínio, explica por meio de gráficos e ilustrações que ele pode criar na hora, mediante uma pergunta que por ventura apareça na hora. Diferente de pseudocursos universitários, como Sociologia, Filosofia etc, onde há troca de textículos (textos ridículos) pra lá e pra cá, e se você OUSAR responder algo com as suas palavras, independente do professor ter pedido isso na prova, você estará se candidatando à repetência.

O Brasil está na contramão do Ensino. Estamos piores que o sistema educacional da antiga Babilônia. Os professores não sabem o que ensinam, pois eles não são pagos para saber e sim para servirem de babás. Isso não significa, é claro, que a ferramenta nasce morta. Ela está lá, assim como posso comprar ferramentas de marcenaria de excelente qualidade. Se eu entendo de marcenaria, ou não, é problema meu. As tecnologias devem ser desenvolvidas e usadas. Todas de uma vez e não uma arrogando substituir a outra. O mais inteligente é aquele que usa mais de uma ferramenta. O que virá por aí em termos de ensino? Não sei, mas estou gostando muito das possibilidades.


Fonte: Gemind

14 comentários em “Quando a Apple inventa algo melhor que livros

  1. André… eu, particularmente, prefiro o livro em papel mesmo… talvez por uma nostalgia retrógrada, talvez pelo manuseio mais fácil… sei lá ! Não consigo imaginar deitar em uma rede e ficar com um computador no colo acessando as páginas virtuais e lendo um livro de Jorge Amado ou Issac Asimov. Mas por outro lado, não posso deixar de parabenizar quem use tal tecnologia ( principalmente os mais novos – em idade – ). Talvez, se eu fosse mais jovem, poderia optar por essas facilidades ( vejo meu neto, levando o notebook pra faculdade e pergunto se não é mais fácil escrever num caderno ou fichario… ele sorri e diz: Não ). Em relação ao futuro do ensino não sou tão otimista quanto você… mas, como diz aquele samba… ” sonhar, não custa nada….”

    1. Como eu disse, eu prefiro os dois. O ebook é mais prático, ocupa menos espaço e à prova de irmão desenhista. Sobre o futuro do Ensino… bem, eu penso em algo além do Brasil.

  2. Achei muito interessante a matéria e os novos produtos da Apple. Porém, acho que não aguentaria muito tempo lendo no Ipad. Li algumas obras no computador e meus olhos ardiam facilmente. Comprei o Nook ST da B&N e até agora não tive maiores problemas com ele. O legal que consegui modificá-lo e agora tenho acesso tanto a B&N Store quanto a Amazon. Inclusive comprei dois livros, um do Kuhn e outro do Popper, na Amazon e estou lendo no Nook. ;-)

    Quanto ao trecho do texto a respeito de Sociologia e Filosofia, comentei uma foto e olha o quê deu:

    Foto: http://cl.ly/46081c0C0Z3y421F3M40/o

    Comentários: http://img818.imageshack.us/img818/3384/debatey.jpg

    PS: Sei que saí um pouco do artigo, mas não aguentei segurar esta pérola. :lol:

    1. Achei muito interessante a matéria e os novos produtos da Apple. Porém, acho que não aguentaria muito tempo lendo no Ipad.

      Hades do Céu, vcs ainda não entenderam…

  3. Caraca! R$1478,00 por um livro??? E o Kindle não é tããão barato.

    Há uns meses atrás procurei por e-books oficiais de ensino fundamental e médio e não achei. Só consegui digitalizações, algumas bem toscas.

    Livros infantis nem procurei. Pelo jeito não vai ser tão vai educar o pimpolho que vem por ai com e-books, a não que ele aprenda inglês antes de aprender português.

  4. Aqui em brasília, onde moro, colégios já começaram a fazer isso esse ano. Ou seja, os alunos já vão usar o Tablet. Achei a iniciativa válida. Ninguém é obrigado a ter um, lógico. Mas sabem como é, se um tem, todos vão querer. E foi o que aconteceu. Vamos ver se a experiência da certo.

    Não sei como vai ser a questão de preços dos livros eletrônicos. Se vai ser mais barato e se estão todos disponíveis. Provavelmente ainda não. Além da vantagem do preço, existe um claro ganho em relação a diminuição do peso carregado pelos alunos. Detalhe, os cadernos ainda são obrigatórios, ou seja, os alunos têm que escrever à moda antiga. Ufa.

    Extrapolando um pouco o assunto do texto, a presença dos tablets não seria um primeiro passo (ainda bem curto) para o fim da caligrafia? Eu acredito que sim, mas isso é pura especulação minha. O que remete aquele outro texto publicado aqui algum tempo atrás.

    1. Extrapolando um pouco o assunto do texto, a presença dos tablets não seria um primeiro passo (ainda bem curto) para o fim da caligrafia?

      A caligrafia (letra bonita, em seu sentido vernacular) se perdeu faz tempo e não foi por causa dos tablets.

      1. Tive uma professora de Língua Portuguesa que falava o seguinte:
        Existem dois tipos de letra, a que entendemos e a que ninguém entende.
        Ouvir isso era enobrecedor!

  5. O iPad é um sonho de consumo. Mesmo sendo barato aqui no Japão ainda não criei coragem para adquirir um. Preciso resolver o meu problema crônico em fazer dívidas. Um dos motivos para querer um iPad? Ora, já cansei de ler no iPhone…

  6. Sabe aquele momento em que você não lembra de algo, mas tem certeza de ter lido sobre o assunto no livro X? Claro, você sempre pode procurar pelo índice, mas e se o assunto Y não estiver listado?

    Been there, done that. Por isso que eu amo os e-books (e o CTRL+F) :cool:

  7. Sou a favor de tudo que possa auxiliar e melhorar o ensino e a aprendizagem.
    “Exercícios interativos, animações”, as possibilidades de uso são imensas, aprender e “se divertir”, nada melhor!

    Eu tento, mas não consigo entender os elevados preços de livros no Brasil.
    Mas isso se resolve com uma petição on-line ou um dia do preço justo. :twisted:

  8. É, seus argumentos exemplificando o uso da ferramenta me fazem entender o conteúdo e a ideia, mas ainda dá uma tristeza pensar que essa revolução (mesmo que não aqui) poderá tornar as crianças mais e mais distantes daquela metodologia de livro, caderno e lousa. Ah… Não se importe muito com meu pensamento André, é porque eu fui educada no sistema Piaget, e céus, pareço macaco treinado, se eu não fizer do jeito que sempre aprendi, não guardo as informações.

    1. poderá tornar as crianças mais e mais distantes daquela metodologia de livro, caderno e lousa.

      Como coisa que elas estejam interessadas. Lembre-se Piaget não pode controlar sua vida. Entregue-se de corpo e alma e saia dessa dessa vida de pecado. ;)

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