Richard Dawkins discute a “verdade” de Deus frente à ciência

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Imagine uma mesa de jantar na qual Jesus Cristo e Charles Darwin (1809-82) compartilhariam uma refeição. É, para dizer o mínimo, uma imagem insólita. Mas não se trata de uma tentativa de recriar a última ceia: se pudesse escolher com quem gostaria de compartilhar sua última refeição, provavelmente seriam eles que o zoólogo Richard Dawkins, 58 68 anos, teria escolhido. Darwin, pela admiração que tem pelo trabalho do homem que criou a Teoria da Evolução. E Jesus Cristo… bem, para perguntar como é que tudo aconteceu na realidade.

Filho de um casal de ingleses, Dawkins nasceu em Nairóbi, no Quênia. Seu pai, um fazendeiro, havia sido convocado para lutar durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o que o obrigou a se mudar para o país africano. Após o final da guerra, a família permaneceu no Quênia até 1949, voltando para a Inglaterra quando o zoólogo tinha oito anos. Assim, nos dois países, a educação de Dawkins misturou explicações científicas sobre plantas e animais (vindas de seus pais, estudiosos do naturalismo) com o ensino anglicano que recebia na escola. Talvez as possíveis contradições entre as respostas que obtinha dos pais e dos professores tenha sido responsáveis por fazê-lo duvidar, com apenas 9 anos, da existência de Deus.

Aos 15, perdeu completamente tudo o que restava como crença religiosa, e assumiu-se ateu. Já havia nesse ateísmo uma das características que o tornaria mais popular como cientista: uma vontade de ferro de entender – e ser capaz de explicar – questões complexas como o sentido do universo ou da própria existência humana. Ser ateu, para Dawkins, não significa em absoluto desistir de buscar explicações para essas questões fundamentais do homem, mas sim acreditar que a ciência traz respostas muito mais completas e profundas do que a religião, qualquer que seja ela.

Foram essas perguntas que dirigiram os estudos do inglês para a biologia. Graduou-se em zoologia em Oxford em 1962; lá, foi aluno do ganhador do Prêmio Nobel de Medicina (1973) Nikolaas Tinbergen. Este, ao perceber a aptidão de Dawkins para os estudos acadêmicos, continuou a tutorá-lo até 1966, quando o recém-formado zoólogo mudou-se para os EUA, para ser professor-assistente na Universidade da Califórnia. Mas ele não permaneceu muito tempo longe da Inglaterra: voltou a Oxford em 1970, e lá construiu uma sólida carreira acadêmica como professor e pesquisador.

Somente em 2008 é que Dawkins anunciou sua aposentadoria da principal cadeira que ocupava na universidade, a “Simonyi Professorship for the Public understanding of Science”, uma cadeira oferecida a homens que devem fazer importantes contribuições para o entendimento público de algum campo científico. Dawkins ocupava este posto desde 1995 – e pode-se dizer que fez por merecer o cargo.

Em 1976, publicou um livro extremamente polêmico que explicava suas ideias acerca da teoria da evolução e seus desdobramentos para um público mais amplo do que os especialistas da área: ‘O Gene Egoísta’ (Cia. das Letras, 2007) causou impacto ao demonstrar a hipótese de que a seleção natural não seleciona indivíduos que tem sucesso em sobreviver, mas sim os genes desses indivíduos. Os indivíduos morrem; os genes se perpetuam. O corpo, então, pode ser visto como uma máquina de sobrevivência (expressão que Dawkins criou a partir das teorias de seu antigo mentor) para esses genes. Assim, a explicação para a reprodução não é a da perpetuação da espécie – uma espécie se reproduz e se protege para garantir a perpetuação dos genes, e não da espécie em si.

É vitorioso aquele gene que for capaz de melhor utilizar sua máquina de sobrevivência e o meio ambiente em benefício próprio, o que inclui fazer uso de outras máquinas de sobrevivência, sejam elas de sua espécie ou não. O livro dividiu a crítica, tanto de especialistas como de leigos.

Para aqueles que o repudiaram, uma das principais falhas da teoria seria a ideia de que, se os genes fossem efetivamente o centro da questão, poderiam ser vistos como “monstrinhos” manipuladores que apenas utilizam os corpos para seus próprios fins. Dawkins afirma que essa é uma interpretação simplista e equivocada, pois equivaleria a dizer que o corpo é apenas a soma de todos os genes, quando na verdade é produto da interação entre eles.

Os leitores favoráveis às ideias de Dawkins concentraram-se em pontos mais sutis de sua teoria, desprezando a suposta demonstração de que somos apenas uma espécie de robôs controlados por nossos genes egoístas. O zoólogo chega mesmo a utilizar a metáfora dos robôs, mas para explicar um ponto mais profundo: a ideia de que todos os seres – incluindo os humanos – são mortais; mas nossos genes, por outro lado, estão muito próximos da imortalidade. Cuidar de filhos e parentes próximos é algo que os seres humanos fazem por seu próprio egoísmo, pois representam a possibilidade de propagar nossos genes. E quanto às relações que preservamos que nada têm a ver com parentesco? Uma explicação possível é a de reciprocidade, ou seja, cuidamos de um indivíduo na espera de que ele aja de maneira recíproca, garantindo assim a sobrevivência de nossos genes.

O ponto de Dawkins é demonstrar que os genes, para se transmitirem para a próxima geração, induzem os indivíduos a agir de uma determinada maneira. Eles são o foco, são o que de fato sobrevive ou morre.

Não há como ficar indiferente a uma fala ou a um texto do cientista britânico. São indiscutíveis a força e a paixão com as quais ele apresenta suas teorias e as defende. Na verdade, ele é tão incisivo em suas argumentações que passa a impressão de que não acredita, de forma nenhuma, que possa estar errado. Ele não consegue resistir a uma possibilidade de debate, e nunca deixa de responder a uma questão – ainda que as respostas sejam, muitas vezes, consideradas evasivas. No centro do debate científico acerca da formação do espírito humano, Richard Dawkins aproveitou sua exposição na mídia para lançar um dos pontos mais controversos da história do homem: a questão da religião e da crença em um deus, qualquer que seja ele.

Como cientista, o inglês diz que é parte de sua missão ser hostil em relação à religião. Há anos conduz uma verdadeira batalha contra a fé em Deus e contra a ideia de um criador do mundo. Levou essa ideia tão a sério que, um ano depois de ser eleito um dos três intelectuais mais influentes do mundo (em 2005, juntamente com Umberto Eco e Noam Chomski),

Dawkins lançou sua obra mais polêmica e mais lida em todo o mundo – “Deus, um delírio” (Cia. das Letras, 2007) –, que vendeu centenas de milhares de cópias e tornou-se um best-seller. No livro, o zoólogo explica, numa linguagem acessível e extremamente interessante, as razões que o levam a não crer em deus e nem mesmo em alguma religião.

Ele vai além. Quer demonstrar que a religião (qualquer uma) é nociva aos homens e trouxe muito mais violência do que paz. Por último, deseja motivar os ateus em todo o mundo a se declararem ateus e assumirem sua postura como seres descrentes.

Toda essa cruzada contra a religião tem um fundo relativamente simples, para Dawkins qualquer religião incentiva as pessoas a se contentarem com poucas respostas ou mesmo respostas pobres, superficiais. Quando teve contato com a Teoria da Evolução proposta por Darwin, percebeu que ela trazia respostas tão mais completas e tão superiores à ideia de um Criador que se tornou inviável acreditar nele. Muito pelo contrário, a possibilidade da existência de um deus torna toda e qualquer tentativa de explicação da origem da vida ainda mais problemática. Certo, há muitas coisas que a ciência ainda não explica, então como é que a interferência de uma inteligência superior criadora pode auxiliar na obtenção dessas explicações? Por mais que essa inteligência possa ser a resposta para tudo, não o é para si mesma, pois nada sabemos sobre ela.

Dawkins, ateu em toda a sua convicção, se recusa a admitir a possibilidade de uma explicação que não explica nada, apenas induz à aceitação passiva das pessoas. Ele se torna até mesmo um pouco agressivo ao comentar a ideia de crença em si: existem as ideia de fadas, duendes e unicórnios cor-de-rosa, certo? Ora, a maior parte das pessoas não acredita em nada disso, uma vez que não há provas de sua existência. Por que haveria de ser diferente com essa entidade chamada Deus, de cuja existência também não temos prova absolutamente nenhuma? Dawkins diz preferir acreditar na ciência, que oferece provas para suas teorias, mas não possui todas as respostas, do que numa religião, que oferece todas as respostas, mas absolutamente prova nenhuma. Assim, combater a religião equivale a incentivar o pensamento, a renovar a busca por compreensão.

Em seu livro, o zoólogo deixa claro que fala de um deus que é um ser inteligente, pessoal e criativo. Um ser que criou o Universo, que faz milagres, que é onipresente, onipotente e onisciente. Este ser, Dawkins deixa claro, não existe. O que pode existir é o que ele chamou de um “deus einsteiniano”, baseado nas ideias do físico Albert Einstein (1879-1955) – um profundo respeito e reverência em relação à perfeição e complexidade da natureza. Um respeito em relação à beleza do mundo – porém, a beleza não é suficiente, é necessária a verdade. E a verdade exige evidência, algo que a religião não traz.

Segundo o zoólogo, nossa sociedade tem uma estranha tolerância à religião, o que leva a uma quase total falta de percepção dos males que ela pode trazer ao homem – e, para ele, traz. No livro “Deus, um delírio”, exemplifica uma situação que considera emblemática dessa tolerância: “quero que o mundo todo estremeça ao ouvir uma expressão como ‘criança católica’ ou ‘criança muçulmana’. Fale de uma “criança de pais católicos”, se quiser; mas, se ouvir alguém falando de uma ‘criança católica’, interrompa-o (…)”.

Para Dawkins, as marcas desse “recrutamento infantil” para as religiões são particularmente maléficas: uma criança não tem discernimento para decidir sua religião, assim como não tem para definir uma posição política. Qualquer um ficaria chocado se rotulássemos um menino de quatro anos como uma “criança marxista”, ou “criança neoliberal” por causa da crença de seus pais. Porém, achamos que isso é perfeitamente tolerável em relação à religião, tirando de muitas crianças a possibilidade de fazer efetivamente uma escolha. Não é à toa que, de uma forma geral, a maior parte das pessoas acredita na mesma religião de seus pais. Na visão de Dawkins, isso faz com que a crença em um deus ou outro não passe de um acaso infinitesimal que se refere exclusivamente à família na qual você nasceu. Mais um bom motivo, diz ele, para não acreditar em religião nenhuma.

A “conversão ao ateísmo” (como ele brinca em seu site richarddawkins.net) não termina em seu livro. Ele apoia e divulga constantemente a campanha lançada pela comediante inglesa Ariane Sherine a favor do ateísmo. Ela viu em um ônibus londrino a frase “Quando o Filho do Homem vier, encontrará Ele fé na Terra?”. A tal propaganda também indicava um site que dizia que todos aqueles não crentes estavam condenados a uma eternidade no inferno. Como resposta, Sherine criou o “ônibus ateu”, que circula em várias partes do mundo levando a seguinte frase: “Deus provavelmente não existe. Agora pare de se preocupar e vá aproveitar a vida.”

Dawkins auxiliou o lançamento da campanha e comemorou a imensa adesão que ela recebeu. Além disso, a frase do “ônibus ateu” é totalmente inspirada nas ideias de Dawkins. O uso do termo “provavelmente” vem do fato de que Dawkins afirma constantemente que é preciso relativizar o conhecimento humano, pois não se pode provar a impossibilidade da existência de Deus, por mais improvável que ela seja. Além disso, é também o zoólogo que menciona que uma vida longe da religião é uma vida mais feliz e mais livre. Viver como ateu significa não acreditar que há uma outra vida; sendo assim, um ateu sabe que tem que viver ao máximo, e com toda a intensidade possível, a única vida que tem.

Polêmico? Com certeza. É também desafiador, e é nisso que se concentra o zoólogo britânico. Ele diz acreditar que, quando as pessoas são forçadas a pensar sobre suas crenças religiosas, a maior parte delas acaba por questioná-las e por começar a duvidar. Afinal, pode ser que haja conforto numa crença na vida após a morte ou num sentido maior para a existência – mas esse conforto não cria uma ideia mais verdadeira. E que conforto haveria em se acreditar em prováveis mentiras?

Dawkins costuma afirmar que não consegue conceber um Deus que, caso existisse, privilegiaria homens que acreditaram nele, mesmo sem provas de sua existência. E diz que ao morrer, se deparar com um Deus impiedoso e furioso que lhe pergunte por que Dawkins não acreditou nele, responderá como o dramaturgo e ensaísta irlandês e vencedor vencedor do Prêmio Nobel de 1925, George Bernard Shaw (1856-1950) sugeriu: “Não há provas suficientes, Deus, não há provas suficientes”.


Fonte: Folha Online

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Sobre André Carvalho

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