Dos Estrangeirismos e Linguagens internéticas

Computadores são a transformação cultural da década em que vivemos. O mundo já viu sua cultura oral transformar-se em uma cultura impressa, com a invenção da prensa de Gutenberg. Agora, vê a cultura impressa transformar-se em uma cultura digital. Essa mudança altera a maneira com que as pessoas se organizam perante a informação e seu manuseio.

Na sociedade informático-mediática nascem novas formas de ler, escrever, pensar e aprender. O ciberespaço mistura noções antes entendidas separadamente. Mistura as noções de unidade, de identidade e de localização. A hipertextualidade, não como apenas um mero produto da tecnologia, mas um modelo relacionado com as formas de produzir e de organizar o conhecimento, substitui sistemas conceituais fundados nas idéias de margem, hierarquia, linearidade, por outros de multilinearidade, nós, links e redes. As redes digitais desterritorializaram o texto, fazendo emergir um texto que não tem fronteiras rígidas e não há mais um texto mas texto em movimento, sempre em mudança.

A crescente produção de conhecimento e de como ele poderia ser armazenado e organizado de modo a ser achado com rapidez e eficácia, quando necessário, levou o cientista americano Vannevar Bush – diretor do Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico dos Estados Unidos durante a 2º Guerra Mundial – a idealizar o MEMEX (Memory Extension), uma máquina capaz de armazenar grandes quantidades de informações e que ficou conhecida como a precursora da idéia de hipertexto. O MEMEX poderia armazenar diversos tipos de materiais, incluindo notas manuscritas, registros datilográficos e fotos. Uma “indexação associativa” criaria e manteria links entre itens para facilitar a localização e correlacionamento das informações. O sistema seria composto por uma grande mesa com um sistema de armazenamento de microfilmes operado por alavancas, e o resultado mostrado em apenas uma tela.

Em 1960, Theodor Holm Nelson teorizou um sistema de base de dados e nomeou-o Xanadu Docuverse, considerado a idéia precursora da mídia Web. A idéia baseava-se em uma espécie de biblioteca universal virtual onde qualquer um poderia navegar, a partir de textos com vínculos (hipertextos), e pegar livros, enciclopédias, revistas, jornais e imagens. Tim Berners-Lee colocou em prática os pensamentos de seus antecessores para propor seu modelo da Web mais próxima da forma como conhecemos hoje.

O hipertexto é uma técnica de armazenamento e apresentação da informação baseada num sistema de referências cruzadas que formam uma rede de associações (à semelhança da forma como se processa o pensamento humano, baseado em associações de idéias num percurso não seqüencial) que ligam texto, imagens, sons e ações, permitindo ao utilizador procurar e encontrar itens relacionados e circular entre eles facilmente, ativando palavras-chave que dão acesso a outros documentos.

O hipertexto é usado praticamente em todos os sites disponíveis na Internet, fornecendo uma maneira de se explorar grandes conteúdos textuais em espaços (telas) reduzidos. O hipertexto pode ser visto como um dos maiores recursos das mídias interativas uma vez que, a grande maioria das visitas aos sites existentes na internet tem como objetivo a busca da informação. Essa informação, muitas vezes de grande extensão, só pode estar presente na Internet por meio do hipertexto, que a descentraliza em diversos fragmentos de textos menores interligados por links eletrônicos, o famoso “clique aqui para saber mais”.

Grandes mudanças ocorrem na leitura e na escrita quando são utilizados recursos de hipertexto. Este tipo de composição que faz uso de diferentes recursos tecnológicos (hipertexto e multimídia) para apresentação da informação, coloca a língua – falada, escrita e iconográfica – num contexto muito mais rico do que um ensaio escrito pode proporcionar.

Na leitura de Ramal o hipertexto subverte a linearidade, o monologismo, a noção de autor e leitor, a forma e, até mesmo, a postura física do leitor. Segundo Mendes:

O hipertexto, como conceito, é uma alternativa a uma linearidade rígida e autoritativa dos textos – e dos seus discursos – convencionais. Pelo meio da leitura o leitor, co-participante da construção do texto, tem à sua disposição um grande número de opções. A partir destas é-lhe possível sair do bloco textual que lia e selecionar novos espaços de escrita e de leitura. Em tempo imediato em simultaneidade.

O hipertexto é, de certo modo, uma versão do dialogismo de Bakhtin. Clark e Holquist indicam que “o ponto de vista bakhtiniano é que eu posso significar o que eu digo, mas só indiretamente, num segundo passo, em palavras que tomo da comunidade e lhe devolvo conforme os protocolos que ela observa. Minha voz pode significar, mas somente com outros – às vezes em coro, porém o mais das vezes em diálogo”.

Com o cursor do mouse permanentemente presente no texto do monitor, como um sinal concreto de que, no momento em que desejarmos, poderemos invadi-lo, reescrever seus caminhos, optar por outras vias, o hipertexto é construído por muitas mãos, e aberto para todos os links e sentidos possíveis. O hipertexto possibilita, desta forma, a escrita coletiva, um tipo de texto que permite colaboração e revisão dinâmica.

Para Lévy é no hipertexto que o leitor/usuário pode realmente se fazer autor porque ele não percorre uma rede pré-estabelecida, mas cria sempre novas ligações criando a sua própria rede. Assim, a leitura e a escrita trocam seus papéis. Ao estruturar um hipertexto toda leitura torna-se também um ato de escrita. Acabando com a distinção entre ler e escrever, definindo o autor sempre como produtor e consumidor de informações textuais, o hipertexto subverte a relação entre autor e leitor.

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