Dos Estrangeirismos e Linguagens internéticas

Sem a presença visual da escrita, a comunicação nas culturas orais requer a presença e a proximidade entre os interlocutores. Na interação face a face, os participantes estão fisicamente presentes e partilham o mesmo conjunto referencial de espaço e de tempo. Para uma cultura oral, aprender ou saber significa atingir uma identificação íntima, conceituando e verbalizando todo o conhecimento com uma referência mais ou menos próxima ao cotidiano da vida humana. As técnicas transformam-se, as narrativas se alteram ao sabor das circunstâncias e tornam a transmissão sempre uma recriação, carregada de novos sentimentos e afetos.

Na cultura manuscrita e, portanto, na cultura inicial da impressão, a leitura costumava ser uma atividade social, uma pessoa lendo para outras em um grupo. Ao produzir livros menores e mais portáteis do que os que eram comuns na cultura manuscrita, a impressão preparava psicologicamente o cenário para a leitura solitária em um canto tranqüilo e, eventualmente, para uma leitura completamente silenciosa. Embora a leitura inicialmente, na maioria das vezes, fosse uma atividade partilhada, a escrita e a impressão são atividades solitárias. Ao separar o conhecedor do conhecido, a escrita permite uma articulação crescente da introspecção.

Se no início do século ainda era comum a leitura em voz alta, na família ou em pequenos grupos, a cultura audiovisual passou a reunir as pessoas em volta dos aparelhos de rádio e de televisão. Essas novas formas de comunicação mediatizada muito contribuíram para recuperar a importância do mundo vocal, auditivo e mimético, que vinha sofrendo a repressão da palavra impressa. Combinados com o desempenho de tarefas domésticas, refeições familiares e interação social, os meios elétricos estão presentes em nossas vidas e vivemos em um ambiente audiovisual com o qual interagimos constante e automaticamente. Enquanto a cultura letrada incentivou um individualismo extremo, o rádio atuou num sentido exatamente inverso, ao fazer reviver a experiência ancestral de envolvimento tribal. As sociedades orais geram um forte sentimento de grupo uma vez que, ao ouvir as palavras faladas, os ouvintes transformam-se em um verdadeiro público. Nas culturas escritas, a leitura de textos escritos ou impressos transforma esses ouvintes em indivíduos, fazendo com que se voltem para dentro de si. A cultura eletrônica dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura oral – a “aldeia global” de McLuhan. Segundo Ong (1998), com um espírito de grupo de modo autoconsciente e programático, o indivíduo sente que ele, como indivíduo, deve ser socialmente receptivo.

O conhecimento de tipo operacional fornecido pela informática constitui um novo tipo de temporalidade social em torno do “tempo real”. A disjunção entre o espaço e o tempo possibilitou a “simultaneidade não espacial”. A experiência de simultaneidade, que pressupunha “o mesmo tempo” e “o mesmo lugar”, separou-se de seu condicionamento espacial. A simultaneidade ganhou mais espaço e se tornou global em seu alcance. O “aqui” e “agora” não se liga mais a um lugar específico, modelando nossa compreensão do mundo fora do alcance de nossa experiência pessoal. Os horizontes espaciais de nossa compreensão se dilatam, uma vez que não precisamos estar presentes fisicamente aos lugares onde os fenômenos observados ocorrem. Hoje somos capazes de interagir com outros e observar pessoas e eventos sem sequer os encontrar no mesmo ambiente espaço-temporal. A capacidade de experimentar se desligou da atividade de encontrar.

Ao intercalar um período de tempo entre a emissão e a recepção da mensagem, a escrita instaura uma nova situação prática de comunicação. Combinando a flexibilidade da interação humana com a independência no tempo e no espaço, sem perder velocidade, as redes de computadores oferecem possibilidades inéditas de interação mediatizada. De acordo com o tempo de demora entre o envio de mensagens e sua chegada ao destino, as comunicações mediadas por computador (CMC) resultam em modalidades sincrônicas – em tempo real, on line, como os chats – e assincrônicas – off line, como os e-mails – restabelecendo o hábito do exercício da escrita.

A possibilidade de ir a qualquer parte do planeta sem sair do lugar modificou as formas de convivência, promovendo “relações intensas entre corpos ausentes”. Em meio a um mundo de mudanças confusas e incontroladas, onde os movimentos sociais tendem a ser fragmentados, locais, com objetivo único, e efêmeros, as pessoas tendem a reagrupar-se em torno de identidades primárias – religiosas, étnicas, territoriais, nacionais – e “a busca pela identidade, coletiva ou individual, atribuída ou construída, torna-se a fonte básica de significado social” , criando comunidades virtuais.

Segundo Lewgoy & Arruda “nas imersões virtuais, rearticulamos, reestruturamos e transformamos as demais formas de linguagem utilizadas até então. Desta forma, se a humanidade evoluiu passando por certas técnicas fundamentais de comunicação oral e escrita, chegando hoje aos computadores, foi porque construiu saberes, apoiando-se em tecnologias revolucionárias”.

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