Há um número expressivo de helenismos em português. Note-se sua importante presença na articulação de prefixos, que compõe grande parte de nosso dicionário: anti- (contra), em antítese (idéias contrárias); pro– (em frente): em prólogo (o que se diz antes); eu– (bom): em Eugênio (o bem gerado); etc. e sufixos, como –ia, formador de abstração: eufonia (sufixo –ia denota qualidade, prefixo eu–, radical –fon–, som vocal); –ismo (com múltiplos significados: doutrina, peculiaridade lingüística, doença etc.): hedonismo (doutrina filosófica que considera o prazer como finalidade da vida); latinismo (empréstimos feitos ao latim); autismo (doença em que o paciente só se relaciona com o seu próprio mundo interior, sem se preocupar com nada do exterior) etc. Os radicais gregos são utilizados na nomenclatura científica e na comunicação em geral. Eles estão presentes de modo marcante em português e nas línguas européias, como já se observou acima.
Denominam-se latinismos as formas e expressões latinas, que não foram modeladas pelo gênio da língua (conforme já se comentou, adaptação de um empréstimo ao paradigma evoluído do Latim Vulgar), presentes em português desde a linguagem científica à vida cotidiana. São exemplos: habitat, deficit, sic, ibidem, idem, hábeas corpus, homo sapiens, lato sensu, stricto sensu etc. Há abreviaturas, como v.g., vergi gratia; etc., et coetera; a.C., antes de Cristo; d.C., depois de Cristo; etc. Sentenças consagradas: carpe diem, aproveita o dia; mens sana in corpore sano, mente saída num corpo sadio etc. Mencionem-se, por fim, os latinismos literários como ventos repugnantes, ventos que se repelem, ou seja, que sopram em sentidos contrários – atribuição de significado da forma repugnante está como no Latim Clássico; pelo modelo Vrbs Roma redige-se em português cidade Beja (CÂMARA JR., [s/d.]: “Latinismos”).
Concluindo essa parte, podemos dizer que temos dois inventários na Língua Portuguesa: a) as palavras lexicográficas e b) as palavras gramaticais. Assim, um dicionário – eternamente inacabado, pois jamais conseguiria abranger a totalidade lexicográfica de um idioma – esta pesquisa (COSTA, 2000: 24) (a citação nesta pesquisa significa a coleta de empréstimos de uma língua para outra qualquer) não chega ao fim.
Desse modo, mídia (datação de 1960), fetiche (datação de 1873), realizar – no sentido de compreender, perceber bem: Ele realizou a situação, entram para o português de maneira interessante: o primeiro no chegou por empréstimo ao Latim Clássico: é o nosso adjetivo médio, já que a evolução de mediu deu meio, como se viu acima, e, como muitos neutros latinos no plural formaram coletivo em português (ferramenta, lenha etc.), assim entrou media, substantivado como neutro plural, mas no inglês e, em seguida, o tomamos emprestado para a nossa língua; o segundo já existia com a forma portuguesa feitiço, tomado emprestado pelo francês (documentado de 1605), assumiu nova forma e nós retomamos esta nova forma de volta; e o verbo realizar denota em português tornar real, efetivar. Esta última observação alguns chegam denominar decalque.
Como evitar habeas corpus, Corpus Christi, causa mortis, alibi, idem, sic e tantos outros latinismos, que são até nome de documento e data religiosa, mesmo que se rejeite o latim, como fazem muitos? Como não falar femme fatale, tête-à-tête, hors-concours, lingerie, laissez-faire e outras, mesmo que não se fale francês? O termo cash, dinheiro em espécie, não é etimologicamente do inglês. Muitos acreditam, inclusive in Larousse diz mot anglais (COSTA, 2000: 55). No entanto, é do francês casse e fixou em inglês cash. Talvez pelo fato do inglês ser a linguagem de negócios, esta palavra tenha se difundido com sua marca: cash. Como se denominaria melhor a situação conflitante da África do Sul, senão com o ter apartheid, já que houve mais do que discriminação: houve uma ação (no elemento –heid) de separar (no elemento apart–)?
