Na cultura oral, quase toda a estrutura cultural estava fundada sobre as lembranças dos indivíduos, associada ao manejo da linguagem. A transmissão da história se dava através das narrativas orais: o narrador relatava as experiências passadas a ouvintes que participavam do mesmo contexto comunicacional. As mensagens trocadas estavam disponíveis somente aos interlocutores e tinham duração transitória, enquanto durava a memória de seu conteúdo. Para reter e recuperar o pensamento articulado, a experiência era intelectualizada mnemonicamente através de padrões moldados para uma pronta repetição oral. O conhecimento, uma vez adquirido, devia ser constantemente repetido. O saber e a inteligência praticamente se identificavam com a memória e o mito funcionava como estratégia para garantir a preservação de crenças e valores.
A escrita inaugurou uma segunda etapa na história humana. Com ela, mudaram as relações entre o indivíduo e a memória social. Com a escrita, as palavras se encerram num campo visual e a nova maneira de estocar conhecimento não se verifica por intermédio de fórmulas mnemônicas, mas no texto escrito, que relativiza o papel da memória como um auxiliar cognitivo situado fora do sujeito. O saber está lá, disponível, consultável, definitivamente preservado. A memória separa-se do sujeito ou da comunidade tomada como um todo. A memória da cultura escrita já não cabe apenas no conto: ela é constituída de documentos, vestígios, registros históricos, datas e arquivos. A inteligência deixa de ser associada à memória para ser a prática da razão, da capacidade de relacionar termos. Em vez do horizonte de eterno retorno das narrativas orais, a escrita estabelece no texto o sentido de linearidade e continuidade fora da mente. A partir do momento em que a tarefa da memória não mais se refere somente às lembranças humanas, a encenação da ação cede lugar, em parte, a disposições “sistemáticas”. O texto une fisicamente tudo o que contém e permite recuperar qualquer tipo de organização de pensamento. À lógica da justaposição, própria da oralidade, contrapõe-se a lógica do encadeamento. Tudo passa a estar inscrito numa cronologia. Como o texto encontra-se isolado das condições particulares de sua criação e recepção, as culturas escritas passam a construir discursos que bastem a si mesmos: o registro das experiências e das hipóteses, o conhecimento especulativo, o documentário de comprovações, a compilação de teorias e paradigmas. A ambição teórica será a construção de enunciados que falem por si mesmos, sem a necessidade de mediadores ou intérpretes. A escrita dá impulso às estruturas normativas e desempenha um papel fundamental na constituição do discurso científico.
A impressão transformou profundamente o modo de transmissão dos textos. Os antigos manuscritos imitavam a comunicação oral – perguntas e respostas, discussões contra e a favor – organizavam-se ao redor do comentário de um grande texto ou propunham trechos selecionados e compilações. Foi somente a partir do século XVI que generalizam-se as apresentações sistemáticas de uma “matéria” espacializada, dividida de acordo com um plano coerente: paginação regular, sumário, cabeçalhos aparentes, índice, uso freqüente de tabelas, esquemas e diagramas. Uma vez bem interiorizada a impressão, o livro é percebido mais como uma espécie de objeto que “contém” informação científica do que como, anteriormente, uma elocução registrada. A verdade está nos livros impressos não como objeto de decifração, mas como lugar de acumulação do saber. A impressão sugere que as palavras são coisas e que o material do qual o texto trata é, analogamente, completo ou coerente em si mesmo, provocando uma sensação de fechamento, uma sensação de que o que se encontra em um texto foi finalizado, atingiu um estado de completude. A cultura impressa tende a perceber uma obra como separada das outras obras, uma unidade em si mesma, dando origem às noções românticas de “originalidade” e “criatividade”, que separaram mais ainda uma obra individual das outras obras, vendo suas origens e seus significados como independentes da influência exterior. O alfabeto e a impressão, aperfeiçoamentos da escrita, desempenharam um papel essencial no estabelecimento da ciência como modo de conhecimento dominante. Ao oferecer novas possibilidades de recombinação e de associações em uma rede de textos incomparavelmente mais extensa e disponível do que no tempo dos manuscritos, a impressão estimulou e tornou possível em grande escala a quantificação do conhecimento.
A cultura audiovisual teve sua revanche histórica no século XX. A tecnologia elétrica parece favorecer a palavra falada, inclusiva e participacional, e não a palavra escrita especializada, afetando consideravelmente nossos valores. A difusão da televisão representou o fim de um sistema de comunicação essencialmente dominado pela mente tipográfica e pela ordem do alfabeto fonético. A TV se tornou o modo predominante de comunicação, um meio novo caracterizado pela estimulação sensorial. A imagem da TV exige que, a cada instante, “fechemos” os espaços da trama por meio de uma participação convulsiva e sensorial que é profundamente cinética e tátil, envolvendo todos os nossos sentidos em profunda inter-relação. Dessa forma, ao incentivar a criação de estruturas em profundidade no mundo da arte e do entretenimento, criando, ao mesmo tempo um profundo envolvimento da audiência, a TV mudou nossa vida sensória e nossos processos mentais. Kerckhove (1997) aprofunda essa reflexão ao afirmar que “a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente” (p. 38). Segundo o autor, a tela do vídeo tem um impacto tão direto sobre nosso sistema nervoso e nossas emoções, que o indivíduo age e reage de forma crescentemente fisiológica, tornando-se vulnerável e suscetível à sedução multissensorial. Dessa forma, a TV desafia nossa outrora dominante e literária forma de pensar, substituindo-a pela oralidade, tátil e coletiva. Presas nas garras do “ponto de vista” e do hábito de abordar uma coisa de cada vez, as sociedades altamente letradas se desconcertam quando se defrontam com novas estruturas de opinião e sentimento resultantes da informação instantânea e global.
Diferentemente das acelerações mecânicas que davam margem à manifestação seqüencial, a nova tecnologia elétrica exige o processamento instantâneo do conhecimento mediante uma interação, onde todas as espécies de impressões e experiências se intercambiam e se traduzem, permitindo-nos reagir ao mundo como um todo. Babin e Kouloumdjian (1989) observam que, diferentemente da linguagem escrita, que desenvolve mais o espírito de análise, de rigor e de abstração, a linguagem audiovisual treina múltiplas atitudes perceptivas, constantemente solicita a imaginação e reinveste a afetividade com um papel de mediação primordial no mundo. Dessa forma, sem afetividade não há audiovisual. Ao contrário de matar a imaginação, os autores acreditam que a livre profusão de imagens, tal como nos fornece hoje o cinema, a televisão e a publicidade, estimula forças imaginantes. Somente quando a imagem é imposta, intelectualizada e estereotipada ocorre o bloqueio da imaginação. Chamados ao emprego simultâneo de nossas faculdades, somos “ameaçados” por uma libertação que põe à prova nossos recursos internos de auto-emprego e de participação imaginativa na sociedade. Passamos a ser nômades à cata de conhecimentos – nômades e informados como nunca do especialismo fragmentário, mas envolvidos no processo social total (McLUHAN, 1998).
Atingindo todas as técnicas de comunicação e de processamento de informações, a digitalização conecta o cinema, o radio, a televisão, o jornalismo, a música, as telecomunicações e a informática, tornando-se determinante para a evolução cultural e as atividades cognitivas. A gradual convergência da tecnologia de informação e comunicação para um sistema digital comum de transmissão, processamento e armazenamento está criando um novo cenário técnico em que a informação pode se converter rapidamente e com relativa facilidade em diferentes formas, com maior flexibilidade, tanto no seu manuseio quanto na sua transmissão. “O suporte da informação torna-se infinitamente leve, móvel, maleável, inquebrável” (LÉVY, 1995, p. 102).
A artificialidade do conceito de livro como uma obra acabada quando da sua publicação, é resolvida pelo hipertexto digital, por sua característica de obra em aberto, devido à ausência de um suporte definitivo, que pode sempre ser retocado. Se a escrita desenvolveu o ressentimento contra o plágio e a tipografia tornou a palavra um bem material, resguardada pelas modernas leis de direitos autorais a partir do século XVIII, a nova escrita hipertextual ou multimídia, ao inventar novas estruturas discursivas onde a significação é resultado da associação entre som e o movimento, necessita, agora, de uma equipe de autores. A invenção científica moderna traduz-se como um trabalho cada vez mais coletivo. Com a evolução das formas eletrônicas de transmissão de sinais, o acesso à informação por meios informáticos torna-se cada vez mais natural ao homem comum. A interação perdeu seu caráter imediato e se libertou do ambiente físico. Cada vez mais os indivíduos preferem buscar informação em outras fontes do que nas pessoas com quem interagem diretamente no dia-a-dia. Conectado a outras novas técnicas de telecomunicação, o instrumento informático permite a criação, a circulação e a estocagem de uma imensa massa de informações, antes monopolizadas por uma pequena elite de trabalhadores intelectuais.
O estoque e a conservação do saber, entretanto, não são a preocupação maior da informatização, apesar das suas incomensuráveis possibilidades materiais de armazenamento. Lévy acentua que, acreditar que a informática dá continuidade ao trabalho de acumulação e de conservação realizado pela escrita graças, por exemplo, aos bancos de dados, seria desconhecer as principais finalidades da maior parte dos bancos de dados. Segundo o autor, esses “são antes espelhos do que memórias”, uma vez que não contêm todos os conhecimentos verdadeiros sobre um assunto, mas sim o conjunto do saber utilizável. Seu conteúdo é usado, mas não é lido no sentido próprio da palavra. Enquanto nas culturas orais a memória fundia-se com o coletivo humano por não dispor de quase nenhuma técnica de armazenamento exterior, e nas culturas escritas o conhecimento podia ser em parte separado da identidade das pessoas, exigindo uma verdade crítica, o saber informatizado pode ser recomposto, multiplicado, modificado à vontade. O que importa não é conservar o saber, mas sim, evoluir incessantemente a partir do conhecimento que esse saber informatizado disponibiliza. As teorias cedem lugar aos modelos, que não são nem verdadeiros, nem falsos, nem mesmo testáveis. Serão apenas mais ou menos úteis, mais ou menos eficazes ou pertinentes em relação a este ou aquele objetivo específico.
Lévy acrescenta que o modelo digital, por sua característica operacional, não deve ser lido ou interpretado como um texto clássico, e sim, explorado de forma interativa. Com dispositivos aptos a conectarem-se cada vez melhor aos módulos cognitivos e sensoriais dos usuários, múltiplos modos de interação (reconhecimento parcial da fala, síntese vocal, telas táteis, mesas digitalizadoras para desenho ou escrita à mão, comandos através do movimento dos olhos, comandos da voz ou gestos da mão…) possibilitam a ação mútua e simultânea de usuários e sistemas. Ao manipular parâmetros e simular situações, o usuário de um programa adquire um conhecimento por simulação do sistema modelado, que funciona como um módulo externo e suplementar para a faculdade de imaginar. Como uma imaginação auxiliada por computador, a simulação remete a um aumento dos poderes da imaginação e da intuição. Dessa forma, a simulação corresponde às etapas da atividade intelectual anteriores à exposição racional: a imaginação, a bricolagem mental, as tentativas e erros. A ampliação da memória (banco de dados), imaginação (simulação), percepção (sensores digitais, realidades virtuais), raciocínio (inteligência artificial), pelas novas tecnologias intelectuais favorecem novas formas de acesso à informação e novos estilos de raciocínio e de conhecimento (LÉVY, 1999).
