O nosso vocabulário se compõe historicamente do seguinte modo:
1. Do substrato ou da România Ibérica, onde se deu a formação do português, espanhol e catalão. O substrato ibérico é composto de palavras nativas ou pré-românicas ibéricas, como baía, barro e esquerdo; mesclado de palavras célticas, como gato, cerveja;
2. Com palavras gregas, como esmeril, guitarra, galé e ainda com palavras fenícias, como mata, malha etc.
3. De um elemento latino ao português: por crase: nudu > nuu > nu, pede > pee > pé, por desnasalização do n intervocálico: rana > rãa …, bonu > bõ…, por queda da sonora intervocálica: radiu > *radio > raio; mediu > *medyo > *medo > meo > meio; por sonorização da surda intervolálica: vita > vida; por assimilação: adversu > avesso, persicu > pêssego; por vocalização: octu > oito, nocte > noite; por vocalização do grupo lt: alteru > *autro > outro, multu > muito; etc.
4. De um superstrato da România, como o fato de os germânicos realizarem as invasões bárbaras (séc.V d.C.), vencerem o seu antigo opressor, os romanos, mas terminarem por abrir mão do seu idioma e adotar o latim. Porém, marcaram a sua presença com germanismos, como os nomes dos pontos cardeais. O elemento árabe, outro dominador da Península Ibérica, se fez presente a partir do século VIII e desses arabismos provemos o nosso dicionário português. São exemplos: algodão, alface, alfazema, álcool, alfafa, alcachofra, algema, alicate, alfaiate, álcool etc.Dessa constante tendência nas mudanças das formas das palavras latinas, como a desnasalização em sinu > senu > seo > seio; arena > area > areia; frenu > freo > freio; a crase em lana > lãa > lã, pede > pee > pé, nudu > nuu > nu, videre > veer > ver, sede > see > sé; a queda das sonoras intervocálicas em gradu > grau, nodu > noo > nó, e da adaptação de elementos germânicos e arábicos na língua portuguesa, temos a formação do gênio português, que explicitaremos adiante.
Desde a influência positivista do século XIX, se passou a denominar essas mudanças de evolução e as suas causas seriam provenientes de leis fonéticas, por conta daquele momento histórico abordado acima: tirar princípios científicos das ciências (a Física e a Química) que identificam seus fundamentos de modo absoluto (mas que sofreram nova dimensão de investigação desde a teoria da relatividade de Albert Einstein, morreu em 1955). E há de se observar que existe uma tendência fonética ou correspondência fonética entre lacu > lago, pela regularidade das ocorrências fonéticas.
Se não tivesse acontecido a intervenção de escritores, principalmente em relação àqueles que tinham consciência da filiação latina do português, não teríamos um vocabulário tão rico nos nossos dias – além do que isso testemunha a importância da escrita para os povos civilizados em relação à língua oral, já que no processo histórico de evolução do latim para o português só no restariam aqueles étimos do caso lexicogênico, como inteiro, trevas, cadeira.
De quantas palavras se formam o Latim Vulgar? Não temos esse dado? Mas não é um inventário extenso e não deve ultrapassar a mil palavras, enquanto um dicionário moderno conta com cem mil no Antenor Nascentes e quase trezentas mil no Antônio Houaiss. Ora, se a comunicação se realizou em Latim Vulgar, mais tarde Português Arcaico, em torno deste reduzidíssimo número de palavras (hipótese de mil), então as lacunas eram largas e obrigaram, conforme os princípios da norma de Eugênio Coseriu, aos falantes a buscar recursos em vários vizinhos, chegando mesmo a recorrer ao próprio Latim Clássico.
Portanto, não reaproveitaríamos o termo íntegro, como primitiva de integralizar, desintegrar, integrante etc.; assim, desconheceríamos tenebroso, tenebrião etc.; bem como, não disporíamos de catedrático, cátedra etc. Não teríamos também conhecimento de formas derivadas no nosso vernáculo do Latim Literário: domus, equus, bellum, ludus – as quais não eram faladas em Latim Vulgar. Assim sendo, não teríamos domicílio, doméstico, domar etc.; eqüino, equitação (Antenor Nascentes) / equitação (Aurélio Buarque de Hollanda), eqüino etc.; bélico, belonave, rebelar, debelar etc.; lúdico e ludo. E mais: não teríamos a retomada ou recondução ao modelo latino de: abundância (em latim: abundantia) em lugar da forma histórica avondança, estimar (em latim: aestimare) pela forma histórica esmar; formoso (em latim: formosus) pela forma histórica fremoso; martírio (do grego ‘martýrion’ pelo latim: martyrium, ii) ao invés de marteiro. A forma olvidar resulta de uma forma divergente olbidar > olvidar (teria vindo do espanhol para o português?); (em latim: oblitare, um freqüentativo de oblivisci).
E note que os escritores buscaram o parâmetro de adaptação para o português no próprio Latim Vulgar. Ou seja, os nomes portugueses se fixaram em grupos temáticos, herança das diluídas declinações latinas, distribuídos em –a, –o, –e átonos finais (lua, rua), as surdas passavam a sonoras (vita > vida) e abundante palatalização (veclu > grupo ‘cl’ pulsare palatalizado, daí velho; > puxar; nidu > nio – com nasalização palatalizada do ‘i’ e, daí “ninho”).
