A sociolingüística estuda a linguagem no seio da sociedade e pode considerar como seu objeto os dados sociais da situação do emissor (origem étnica, profissão, nível de vida, idade, dentre outros circunstâncias sociais)
Cuidaremos aqui dos estrangeirismos que são empréstimos vocabulares ao português. Mas há em português, como em qualquer outro idioma, a partir de contatos com outros povos, possibilidade de incluirmos lingüisticamente múltiplos traços gramaticais peculiares a outros idiomas.
Celso Cunha conta o caso de um fazendeiro que viera ao Rio e, ao escrever para a família, resolveu contar um episódio que viu num circo. No meio da carta, veio a dúvida: “Eu gostei mesmo foi dos dois anões”. Ou seria “anãos”? Embora estivesse com as duas formas corretas na memória e a primeira de que se lembrou era apenas a mais usada, depois de alguns momentos de hesitação, terminou por redigir “Mas eu gostei mesmo foi de um anão e de outro anão”. (CUNHA, 1976: 68)
A visão míope de Pinheiro Chagas e António Feliciano de Castilho criticou José de Alencar pelos brasileirismos. E, por exemplo, seu nome (António) estaria grafado errado no Brasil, ele julgava errado em Portugal o que em Alencar era estilo: os tupinismos. Hoje quantos se chamam Iracema, Moacir, Caubi etc? Pinheiro Chagas e Castilho passaram e, se algum lingüista resolvesse abordar o problema à luz da nova visão da Lingüística, iria ressaltar o equívoco destes portugueses que defenderam um falso nacionalismo lingüístico.
Celso Cunha nos relata que um estudioso Dr. Castro Lopes (CUNHA, 1976: 34) ao repudiar galicismos e anglicismos, sugeriu formações latinas, substitutas de estrangeirismos, considerados “vícios de raça” (Idem, p. 34). São os seguintes exemplos: em vez de reclame diga-se preconício; não diga meeting, diga concião; ao invés de turista, fale ludâmbulo; premagem é melhor do que massagem; venaplauso, e não claque… O que o Dr. Castro Lopes não enxergou é que o estrangeirismo veio preencher uma lacuna no cotidiano da língua portuguesa.
É interessante lermos o comentário (MELO, 1975: 19) sobre um artigo de Monteiro Lobato na Revista D. Casmurro em 30 de junho de 1938. E destaca desta revista:
“Assim como o português saiu do latim, o brasileiro está saindo do português. O processo formador é o mesmo: corrupção da língua-mãe. A cândida ingenuidade dos gramáticos chama corromper ao que os biologistas chamam evoluir.”
A afirmação de Lobato parte do biologismo e evolucionismo lingüístico, o que é um método superado. Tem razão Celso Cunha quando afirma que todos os métodos trouxeram a sua contribuição… (CUNHA, 1976: 47) Mas o problema, ele continua, mais ou menos assim, são os posicionamentos humanos. Modernamente, tais termos (evolução, família de línguas…) continuam sendo empregados nos estudos históricos da língua portuguesa, apesar das restrições, por terem surgido num período cuja moda era generalizar valor científico unicamente a partir do modelo teórico de ciências como a Física, Química e outras, porque se estruturavam com o auxílio do cálculo matemático e o seu objeto de estudo era mais concreto.
Vejamos agora, a estrutura histórica da Língua Portuguesa.
Diacronicamente, faz parte de nosso repertório fonológico: a laringeal /x/ feita f, como em – ‘al.xajjât’ > alfaite, ou a labiovelar germânica /we/ feita /g/, como em – ‘werra’ > guerra (CÂMARA JR., [s/d.]: EMPRÉSTIMOS). Os empréstimos de estrutura gramatical ou flexionismo são raros e também não se encontram em português (idem, ibidem). Mas há afixos derivacionais, como o sufixo –agem (garagem) do francês, –ardo (felizardo) do germânico e abundantemente do grego prefixos e sufixos, primeiramente em latim e, em seguida, no português, como nas demais línguas da Europa moderna (idem, ibidem).
Já o disse Luís Vaz de Camões: “E na língua, na qual, quando imagina, / Com pouca corrupção, crê que é a latina” (Os Lusíadas I, 33). Camões é um divisor de água e, após ele, temos o Português Moderno. A língua portuguesa pertence a uma família de outras dez línguas neolatinas ou novilatinas. Mas será que só temos palavras do latim em português? A resposta é não.
O próprio latim, que é do grupo indo-europeu, tronco lingüístico comum ao grego, sânscrito e às línguas germânicas e, conforme múltiplos fatos históricos, não se manteve imune da influência dos outros, principalmente do seu apenas vizinho etrusco e do seu parente mais próximo, que é o grego, que, apesar de capturado militarmente, introduziu no Lácio agreste as artes, como diz Horácio, I a.C., na Epístolas II, 1,156: Graecia capta ferum victorem cepit et artes / Intulit agresti Latio.
A formação de um vocabulário dispersivo, como temos insistido acima, é comum a qualquer idioma. Assim, o inglês, desfrutando atualmente de raro prestígio, assimilou do latim mais cinqüenta por cento de seu vocabulário, mas não perdeu a sua estrutura lingüística de base germânica. Diante de outros fatos históricos, o português, como demonstraremos adiante, também assimilou vocabulário germânico, árabe… e, nas Grandes Navegações, por ocasião de muitos contatos, acumulou africanismos, asianismos, tupinismos e, mais recentemente, galicismos, anglicismos, castelhanismos, italianismos e germanismos.
