Com a possibilidade de articular imagens, palavras e sons, o hipertexto amplia os recursos expressivos do texto escrito. Imagem e som ganham o status de “linguagem” e invadem o espaço do significante escrito para tornar-se, também, novos textos, concebidos com diferentes modelos e igualmente relevantes para a comunicação social.
Do livro de rolo, que não permitia ler, comparar e fazer anotações ao mesmo tempo, já que o leitor devia segurá-lo com ambas as mãos para poder correr o texto, ao livro encadernado, que permite virar as páginas, mas sempre em seqüência, uma após outra (e nunca uma e outra), passamos a um texto totalmente maleável. Um outro tipo de materialidade que nos permite a visibilidade das janelas, a abertura das múltiplas caixas de texto, os recursos de cortar e colar fragmentos, a infinidade de dobras caleidoscópicas. Muda a relação com o objeto: o texto não é mais algo palpável, mas feito de bites, e ocupam um espaço difícil de definir ou imaginar. Essas informações digitais são provisórias e plásticas. Obedecem a um ritmo específico de pertinência imediata e de obsolescência acelerada. A informatização instaura, como prevê Pierre Lévy, um novo regime de circulação e de metamorfose das representações e dos conhecimentos.
O webdesigner Jeffrey Zeldman separou a audiência da Internet em três categorias: os usuários, que vão para a Web procurando informações com fins específicos; os espectadores, que procuram entretenimento (sites de áudio, gráficos interessantes, informação surpreendente); e os leitores, que realmente lêem os textos que encontram nos Web sites.
Jakob Nielsen, engenheiro, ex-guru da Sun Microsystems e pesquisador americano, tem desenvolvido estudos a respeito de webwriting (redação para a Web) e usabilidade (facilidade que tem um recurso de computador para ser usado). Entre 1994 e 1997, ele e seu parceiro de pesquisas, John Morkes, desenvolveram três estudos sobre como efetivamente aproveitar a mídia binária de maneira satisfatória. Nielsen (2000) classifica os leitores da Web como “scanners à procura de informação”. Intrigado para descobrir de que forma as pessoas lêem na Web, ele concluiu, após realizar suas pesquisas, que “eles não lêem”. Seus estudos indicaram que 79% dos leitores da Web passam os olhos pelas páginas, lêem palavras-chaves soltas e algumas frases. Apenas 16% dos leitores lêem palavra por palavra o texto. Isso significa que, ao escrever um texto para a Internet, o texto deve ser “escaneável”, de fácil e rápida compreensão.
Um texto que, em parte ou no todo, necessite de uma segunda leitura para ser assimilado é um convite à desistência. Mas a concisão não é, aqui, um valor absoluto: períodos demasiadamente curtos e um vocabulário limitado favorecem a monotonia e desmobilizam o leitor.
Os textos da Web, em geral, são pragmáticos (textos não-literários), isto é, desempenham funções específicas, cujos objetivos são bem claros. Apresentam-se fundamentalmente em situações funcionais de leitura como textos acadêmicos, jornalísticos, didáticos, listas, relatórios, resumos, etc. Segundo Siqueira, “o leitor eficiente tem sempre um objetivo ao ler um texto pragmático e recorre a diferentes procedimentos para compreender o que está lendo”. De acordo com a prática de leitura do sujeito e com a familiaridade relativa ao material escrito, pode-se considerar dois tipos de processamento da leitura: a leitura ascendente ou bottom-up, e a leitura descendente ou top-down.
Na leitura ascendente ou bottom-up, o indivíduo opera a leitura letra a letra, sílaba a sílaba, por meio de um processo analítico-sintético, que se apoiará, segundo se crê, essencialmente nas regras de conversão grafema-fonema. Este será igualmente o tipo de leitura utilizado por aquele sujeito que se depara com uma ou outra palavra não familiar que o faz recorrer de novo ao processo elementar de leitura. Neste modo de ler, o objetivo é a compreensão dos pormenores, é uma leitura detalhada, atenta com menor velocidade para que os dados do texto possam guiar a leitura.
A leitura descendente ou top-down trata-se de uma leitura quase não-visual, uma vez que o sujeito tira partido de poucas pistas visuais para atingir o sentido do item em presença. O sujeito recorre, sobretudo ao seu léxico mental, a regras fonotáticas, decomposição grafêmica e de formação de palavras. Este tipo de leitura convida a adivinhar, a deduzir. Para uma confirmação, se ela for necessária, terá o leitor de recorrer ao processo ascendente, processo que este utilizará sempre que não fizer sentido aquilo que está lendo, ou sempre que esteja perante materiais novos, desconhecidos. Neste modo de ler, o objetivo é a compreensão geral, um sobrevôo rápido pelo texto dirigido pelos conhecimentos prévios do leitor em que prevalecem as suas próprias expectativas.
Não se exclui, porém, a possibilidade de algum desses processos ser mais característico de uns sujeitos do que de outros e como tal se vejam anuladas ou neutralizadas de certo modo a prática de leitura e a familiaridade com o material em presença.
O leitor proficiente utilizará esses dois processos complementarmente, uma vez que já tem prática suficiente para poder operar inferências e uma vez que acabará quase sempre por deparar com material desconhecido. Para a autora, será o tipo de leitor para quem esses dois processos se encontram disponíveis e a sua escolha representará uma “estratégia metacognitiva” que lhe permite controlar o seu próprio comportamento, enquanto leitor. Siqueira reitera que o leitor proficiente dificilmente aborda o texto pela leitura bottom-up, sendo a leitura top-down fundamental para ele. É o momento em que percebe a informação como um todo.
Pelo exposto infere-se que a leitura “escaneável” citada por Nielsen refere-se à leitura top-down. Não significa que o leitor da Web “não lê”, mas sim que ele efetua um sobrevôo pelo texto, com o objetivo de uma compreensão geral. Em função de seu interesse ou de suas necessidades, ele recorrerá ao processo de leitura bottom-up.
