O Ironman alemão imortalizado por um pronunciamento escatológico

Há gente que perde uma mão em batalha e vira nota de rodapé em livro de história militar; mas nenhum deles é Götz von Berlichingen, o cavaleiro que perdeu a mão direita e acabou conhecido, não apenas pela sua bravura, mas por um de seus pronunciamenteos, ainda que tal expressão que já rondasse as terras alemãs antes da Alemanha existir, e que virou clássico nacional depois que Götz gritou a versão certa para o interlocutor errado.

Alguns alcançam a imortalidade de formas bem expressivas.

Gottfried – Götz para quem não tivesse fôlego de pronunciar o nome inteiro – nasceu em 15 de novembro de 1480 em Jagsthausen, o caçula de dez filhos do cavaleiro Kilian von Berlichingen e de Margarethe von Thüngen, num mundo que a Alemanha ainda não existia, e sim alguns principados saindo na porrada entre si. A linhagem franca já carregava o “von” desde o século XII e tinha terras o bastante para não passar fome, mas não tanta glória para dispensar o ofício das armas: o menino recebeu o nome do avô, passou a infância entre o castelo paterno e o Burg Sodenberg da mãe, tomou um verniz de letras num mosteiro e, ainda adolescente, entrou no serviço de parentes e príncipes, como todo filho caçula de fidalgo que pretendia virar alguém.

O que Götz ainda não sabia é que a carreira à moda antiga – brigar por quem pagasse (ok, mercenário, vamos dizer a palavra certa) – acabaria cobrando um preço bem específico.

O acontecimento aconteceu em 23 de junho de 1504, tendo acontecido durante o Cerco de Landshut, um daqueles conflitos de sucessão bávara que só interessam a especialistas e a quem estava levando tiro. Götz tinha 23 anos completos (a maioria das biografias arredonda para 24, prova de que nem os historiadores resistem à tentação de deixar a história redondinha) quando um disparo de artilharia estilhaçou a própria espada dele e enfiou os fragmentos de metal no braço.

Há inclusive uma hipótese nada lisonjeira de que o tiro tenha vindo da artilharia de Nuremberg, aliada de Götz naquela campanha: ele pode muito bem ter perdido a mão para fogo amigo, um detalhe tão constrangedor que nenhum roteirista sério ousaria inventar. De qualquer forma, o resultado foi a amputação da mão direita, ferimento que faria qualquer pessoa razoável considerar mudar de profissão: não era o caso de Götz, que decidiu que o problema não era estar sem mão, mas não ter uma mão boa o suficiente.

E aqui a história vira quase ficção científica renascentista, com um desenrolar bem delicioso.

A primeira prótese, encomendada logo depois do ferimento (entre 1504 e 1510), já era engenhosa para os padrões da época, mas foi a segunda versão, construída por volta de 1530, que transformou Götz em algo próximo de um super-herói medieval avant la lettre.

Pause.

O quão pedante tem que ser um escritor escrevendo em português um escrito que venha escrito avant la lettre?

Play.

O mecanismo não envolvia engrenagens miúdas nem nada tão futurista assim: eram molas, alavancas e um conjunto de travas de retenção (as tais Sperrklinken). O truque era simples e brilhante ao mesmo tempo, os dedos eram posicionados manualmente, com a ajuda da mão saudável (porque… né?), numa determinada pegada, travados naquela posição, e um botão liberava a abertura por ação da mola quando ele quisesse soltar o que estivesse segurando. Não era algo que faria inveja ao Homem de Ferro, mas era o que poderíamos chamar de uma “mão programável uma vez por vez”, o que já era absurdo o bastante para o século XVI.

Thanos precisou de seis pedregulhos cósmicos espalhados pelo Universo, uma manopla de ouro sob medida e um roteiro inteiro de filme para estalar os dedos e apagar metade da existência; Götz precisava só de um pedaço de ferro forjado, correias de couro e um sistema caseiro de molas para fechar o punho e arruinar o dia de quem estivesse na frente dele.

As duas próteses sobrevivem até hoje expostas no castelo de Jagsthausen, prova física de que a engenharia protética renascentista corria décadas à frente do que qualquer filme de capa e espada sugere, e sem precisar de um zé ruela grandão e com cor de berinjela para justificar o orçamento.


A vida profissional de Götz também não foi a de um nobre recolhido lendo poesia junto à lareira. Como cavaleiro imperial de recursos modestos, ele sobrevivia através da Fehde, o velho costume que permitia a pequenos nobres declarar guerra particular contra quem os tivesse ofendido ou, na prática, contra quem tivesse bens interessantes para saquear. O detalhe picante é que, desde o Ewiger Landfrieden de 1495, esse tipo de guerra privada já era formalmente ilegal em todo o Império.

Götz deu de ombros e simplesmente ignorou a lei e continuou praticando Fehde por décadas, o que lhe rendeu a Reichsacht, o banimento imperial (não uma vez, mas várias!!), tornando-o oficialmente um fora da lei em série que, mesmo assim, seguia sendo contratado por bispos e nobres para resolver desavenças a ferro (literalmente) e fogo.

Num episódio particularmente constrangedor, ele ainda foi arrastado, segundo ele próprio, contra a vontade, para liderar uma facção camponesa durante a Guerra dos Camponeses Alemães de 1525. Já na velhice, longe de se aposentar, partiu ainda em campanhas contra os otomanos em 1542 e na França em 1544, sexagenário e com uma mão de metal, o que só reforça a suspeita de que o homem simplesmente não sabia se aposentar, para horror dos desafetos.

MAS CALMA! Porque o melhor vem agora: nada disso é o motivo pelo qual ele foi eternizado (ou apenas por isso. Sim, tem mais).

Em 1516, nosso herói cercou o Burg Krautheim, um feudo que ele próprio detinha sob vassalagem ao arcebispado de Mainz, e para atrair o funcionário responsável pelo local, o amtmann Marx Stumpf (amtmann era um burocrata que podia ser um magistrado ou oficial enviado para mandar e desmandar num distrito), simplesmente ateou fogo a um estábulo de ovelhas.

Quando Stumpf apareceu na muralha para negociar, Götz, gritando de baixo para cima, soltou a frase que sua autobiografia registra como “er soldt mich hinden leckhenn”, algo como “Ele que vá lamber o meu traseiro.”, grosseira o bastante para a época, mas ainda longe da versão pornográfica que a posteridade decidiu associar a ele. Essa versão mais elaborada e mais vulgar, “Er kann mich im Arsche lecken!” (Ele pode lamber o meu cu!), é criação de Goethe, que em 1773 pegou o episódio real, mudou o cenário para um cerco ao próprio castelo de Götz e reescreveu a fala para deixá-la mais impactante no palco.

Ou seja, a citação mais famosa da história alemã é, tecnicamente, uma fanfic bem-sucedida. E o próprio insulto, ao contrário do que se costuma pensar, já circulava informalmente havia muito tempo: há registro de uma variante quase idêntica documentada em Bamberg em 1454, décadas antes de Götz sequer nascer. O que ele fez foi dar um rosto (ou uma mão de ferro) memorável a um xingamento que já era clássico no boteco medieval.

Ainda assim, o episódio pegou tanto que os alemães, sempre pragmáticos quando o assunto é evitar repetir um palavrão em sociedade educada, batizaram a fórmula com um codinome: “die Schwäbische Grußformel”, a Saudação Suábia, também conhecida simplesmente como “Götz-Zitat”, a citação de Götz. O nome é, aliás, uma pequena ironia histórica à parte, já que Götz era da Francônia, não da Suábia, e ninguém sabe ao certo por que a expressão acabou associada à região vizinha. De qualquer forma, o eufemismo funciona até hoje: um alemão pode mandar alguém receber a saudação suábia e será perfeitamente compreendido, sem que uma única palavra vulgar precise ser pronunciada em voz alta.

E aqui cabe uma nota que poucos esperam: a mesma veia escatológica que imortalizou Götz corria solta pela Viena musical algumas décadas depois. Mozart, entre uma sinfonia e outra, compôs cânones para cantar em rodas de amigos regadas a vinho, com títulos como “Leck mich im Arsch”, sim, praticamente o mesmo convite. A diferença é que, depois da morte do compositor, editores puritanos trataram de trocar os títulos por versões apresentáveis, o mesmo movimento de limpeza cosmética que a posteridade aplicou à frase de Götz.

Moral discreta: a cultura alemã de elite sempre conviveu bem com a linguagem de boteco, só depois é que alguém aparece para arrumar a casa.

Götz morreu em 23 de julho de 1562, no castelo de Hornberg, que ele havia comprado em 1517 e onde passou seus últimos anos ditando a própria autobiografia, já praticamente cego, para quem quisesse escrever por ele. Foi sepultado no mosteiro de Schöntal, aos 81 ou 82 anos, dependendo de qual data de nascimento se adote, tendo sobrevivido a guerras, cercos, prisões e ao próprio século XVI inteiro, o que já é uma conquista e tanto para um homem com meia mão e um talento excepcional para arranjar inimigos poderosos.

Mas a ironia final é que a posteridade não o celebra pela mão de ferro, nem pela carreira de fora da lei profissional, nem pelas décadas de brigas registradas em cartório. Celebra por uma frase que nem sequer é totalmente dele, reescrita por um dramaturgo décadas depois, e que sobreviveu à própria língua alemã moderna. Prova de que, na loteria da fama histórica, às vezes ganha não quem luta melhor, mas quem tem um bom editor.

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.