Idiota age como idiota e xinga astronautas dizendo que eles não foram ao Espaço

Sexta-feira, finalzão de semana, todo mundo pronto pra sextar (exceto eu porque é dia 22 e o salário é uma longe lembranaç). O cérebro humano deveria estar descansando, hidratando, talvez contemplando uma pizza sinistra de ótima (já pedi a minha) e decisões ruins perfeitamente aceitáveis para depois das oito da noite. Seria assim, mas fomos novamente arrastados para o grande esgoto radioativo da civilização digital, já que depois da invenção de celulares com câmeras, o bando de Morlocks saiu debaixo da pedra e fica atazanando pessoas.

Um desses imbecis decidiu abordar os astronautas da missão Artemis II no Capitólio dos Estados Unidos para acusá-los de nunca terem ido ao Espaço. A esta altura, a Seleção Natural já deve estar preenchendo formulário de desistência, e Darwin ergue os ombros e diz “mas nunca falei que a seleção era para gente mais esperta”.

Voando até a Fronteira Final da Idiotice, esta é a sua SEXTA INSANA!

Os quatro tripulantes (Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen) estavam em visita oficial a Washington depois de completar a primeira missão lunar tripulada em 54 anos. Foram ao redor da Lua. Quebraram o recorde de distância da Terra, superando a marca infame da Apollo 13. Voltaram ao Pacífico no dia 11/04. E então, durante passagem pelo Capitólio, foram abordados por um corno que apareceu nos vídeos gritando “parem de mentir” e “vocês nunca foram ao Espaço”, com a energia de quem descobriu uma verdade cósmica entre dois episódios de podcast conspiracionista.

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Aparentemente milhares de engenheiros, décadas de pesquisa, cálculos orbitais, telemetria, rastreamento independente, radioamadores, satélites, observatórios, transmissões globais e participação da Agência Espacial Canadense são menos convincentes do que um sujeito segurando o celular na vertical com expressão de quem perdeu a guarda compartilhada da própria sanidade. Nenhum outro país se meteu para dizer, o tipo de coisa que a China A-DO-RA-RI-A!

Nisso, temos o detalhe extraordinário: não estamos falando de alguém questionando dados técnicos específicos, analisando inconsistências físicas ou debatendo Engenharia Aeroespacial. Não, claro que não! O babaca simplesmente pulou direto para “TUDO É MENTIRA!!”. É o raciocínio científico equivalente a encontrar uma torradeira queimada e concluir que eletricidade é invenção da maçonaria intergaláctica.

A missão Artemis II decolou em 1.º de abril de 2026, realizou o sobrevoo lunar no dia 6 e virou o planeta de cabeça para baixo ao trazer as primeiras imagens do lado oculto da Lua feitas por seres humanos desde 1972. Existe documentação técnica, imagens, monitoramento independente e participação internacional. Mas o conspiracionista moderno olha para tudo isso e pensa: atores. A coitada da NASA, que mal consegue esconder orçamento do Congresso sem vazamento, teria mantido uma conspiração global perfeita envolvendo milhares de pessoas por décadas, sem uma única fuga de informação, tudo isso para enganar justamente um homem cuja maior conquista intelectual da semana foi comentar “acordem” em vídeo tosco.

Existe algo fascinante na arrogância da burrice contemporânea. O ignorante antigo ao menos tinha alguma vergonha. O moderno transforma ignorância em identidade pessoal. Ele não quer aprender: quer pertencer ao clube secreto dos “despertos”, aquela seita informal de pessoas que confundem analfabetismo científico com coragem intelectual.

E claro que havia discurso religioso misturado na gritaria. Sempre há. Conspiracionismo moderno é praticamente um fanatismo de baixo orçamento. O sujeito não apenas discorda da realidade: acredita estar numa batalha cósmica contra forças ocultas. Ele acha que quatro astronautas passaram dias escondidos atrás de uma cortina em Nevada enquanto Hollywood simulava órbita lunar usando PowerPoint e fumaça de gelo seco.

“Deus está vendo!”, gritou o cidadão. Sim. E provavelmente reconsiderando o livre-arbítrio.

E aqui é preciso lembrar um episódio histórico absolutamente maravilhoso. O último indivíduo que resolveu chamar Buzz Aldrin de mentiroso descobriu da pior maneira possível que provocar um ex-piloto militar treinado pela Força Aérea americana talvez não fosse estratégia brilhante. Em 2002, um conspiracionista abordou Aldrin, já com mais de setenta anos, chamando-o de covarde e fraudador. Buzz respondeu com um soco tão seco, tão preciso e tão cirurgicamente merecido que o sujeito quase entrou em órbita baixa sem necessidade de foguete.

Foi um momento histórico em que a Ciência Experimental encontrou aplicação prática imediata na mandíbula de um idiota. O homem caiu sem som, sem imagem e provavelmente sem conexão com o Wi-Fi conspiratório por alguns segundos gloriosos. Buzz talvez tenha sido apenas um visionário cansado.

O pior é que essa gente usa GPS, Internet via satélite, consultam previsão meteorológica, comunicação global baseada justamente na Ciência que afirma ser falsa. É como negar a existência do oceano enquanto passeia de jet ski.

Os astronautas, para seu crédito eterno, mantiveram calma profissional admirável. Astronauta moderno precisa de treinamento psicológico completo: não basta sobreviver ao vácuo espacial, à radiação cósmica e ao risco de combustão explosiva dentro de um cilindro metálico voador. Também precisa sobreviver ao contato prolongado com a Internet sem perder o réu primário.

Talvez esse seja o verdadeiro Grande Filtro da Humanidade. Não a guerra nuclear, ou asteroides ou ainda o colapso climático. Talvez civilizações inteligentes simplesmente desistam quando percebem que, mesmo depois de chegar à Lua, ainda precisam convencer um Zé Ruela de boné de que a Lua existe.

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