O falecimento da Internet

Uma das maiores invenções do século XX foi a computação pessoal. Saímos dos grilhões que dependíamos de terminais burros acessando mainframes. Cada um podia ter seu próprio computador, fazer seus próprios programas ser senhor do seu pequeno mundo virtual. O problema é que você tinha que saber muito de eletrônica, tinha que saber muito de programação e ter o seu próprio computador mas para simples satisfação pessoal, o que não ajudava muito. Então, surgiu o Altair: sabendo programação, você podia usar as chavinhas para programá-lo. Veio Steve Wozniak e fez algo amigável. Veio os diferentes tipos de computadores (Commodore, Z-Spectrum, Amiga etc). Cada máquina com seu Sistema Operacional próprio. E então, o IBM-PC e o mundo foi outro. Você podia instalar o DOS e ter uma imensa variedade de programas, com a grande virada do Windows, que transformou tudo em muito mais amigável.

Ah, sim, veio o MacOS que jura que foi kibado pelo Windows, mas sabemos muito bem que tio Bill Gates pagou uma grana gostosa para a Xerox para ter a interface gráfica, enquanto a Apple praticamente roubou na cara dura com anuência dos executivos da fábrica de copiadoras, no que resultou em pedido de demissão em massa do PARC da Xerox.

Outra grande revolução em termos de Tecnologia de Informação (recuso-me a chamar puramente de “tecnologia”, já que isso é retardo mental de quem não sabe o que a palavra significa): a Internet. Milhões, bilhões de páginas. Todo mundo compartilhando conhecimento, desde o seu dia na praia até acontecimentos da Idade Média.

Muitos sites, muitos blogs. Muita informação. E então, veio o maior câncer de nosso tempo: a monetização.

Não me entendam mal, eu adoro ganhar dinheiro, Capitalismo é bom que qualquer um pode ganhar dinheiro na Internet. O problema foram o que empresas como o Google fizeram. Primeiro, agiram feito traficantes: ofereceram o docinho, um bom quinhão pela publicidade, dentro em pouco condicionou a quem tinha maiores views, maior pagerank, maior compartilhamento, maior leitura, mais e mais e mais e nada de primar qualidade e sim mais e mais e mais “conteúdo”. A saída foi a profusão de sites de memes, clubinhos para alavancar o pagerank, um monte de conteúdo, é verdade, mas imperava o “conteúdo”. Páginas de fofoca foram catapultadas. Isso começou a levar problemas pro Google, já que tinha que pagar por isso tudo; então, ele começou a criar métodos draconianos para considerar a monetização, nem que inventasse violações tiradas do reto. O anunciante pagava, Google ficava com tudo.

Nesse meio tempo, veio o YouTube. Era para você colocar seus vídeos de família, sua viagem e coisas do gênero. Google comprou o YouTube e fez o melhor que podia fazer: merda. E com o que? Exatamente, a monetização. Pessoal até começou a postar uns conteúdos interessantes, mas daí veio as exigências do YouTube: mais conteúdo, vídeos longos, mais conteúdo, mais conteúdo, mais, mais, muito mais, e mais e mais. Começaram a aparecer os vídeos de humor e daí evoluiu para os youtubeiros. Mais uma vez, Google começou a capar as monetizações, porque ficava insustentável. Os produtores de conteúdo de verdade migraram para plataformas pagas como o Nebula ou montaram perfis no Patreon para ajudar a financiar seus canais.

Nesse meio tempo também, veio o TikTok e o Instagram. Mesma ladainha: pessoal postando coisa legal, oferecendo monetização, surgimento de um monte de perfis, alvorecer dos influenceiros, capando monetização, vindo um monte de marcas em auxílio já que se tem muitos seguidores será ótimo para divulgar as marcas. O conteúdo? Bye bye.

E então o Elon Musk compra o Twitter e institui a monetização. Tudo de novo: monetização, alavancamento, surgimento de um monte de lixo, capando monetização, marcas, etc. Mesma coisa sempre, e sempre a avidez das plataformas exigindo mais e mais e mais e mais e mais…

Mas o ponto de disruptura foi o ChatGPT e outras plataformas de Inteligências Artificiais.

Isso juntou o útil com o agradável. Se arrumar conteúdo para produzir mais e mais e mais material para postar em redes sociais (blogs morreram, lembre-se), seja em forma de texto, áudio e vídeo, as IA conseguem produzir rapidamente uma saraivada delas. E isso gerou outro problema, porque de início as IA não buscavam na Internet e daí vinha o conceito de “alucinar”. O que não estava no banco de dados delas, elas simplesmente inventavam. Outra coisa a se lembrar é que IA de LLM mimetizam como seres humanos falam/escrevem. Ela não se preocupa com o conteúdo, porque não foi feita pra isso. Se ela tem uma base de dados do Stephen King, ela escreve alguma loucura com o modo de Stephen King escrever.

Houve uma tempestade de “conteúdo”, a maior parte feita de lixo. Pessoas como o Fake History Hunter mostrando os chamados AI Slop acabam bloqueados por perfis de “História”. Quando antes a moda era divulgação científica (com youtubeiro falando que diamantes evaporam e energia não existe), agora é fácil postar alguma imagem feita por IA com um texto inventado. Às vezes um vídeo inteiro. E pode ter certeza de que isso viraliza, pois pensamento crítico nunca foi forte nas pessoas, que estão sempre buscando o viés de confirmação.

A quantidade de perfis explodiu, e isso fez Elon Musk agir como Google: quer mais e mais e mais. Antes a monetização bastava ter selo azul. Qualquer interação era contada. Depois, só passou a contar a interação com selos azuis. Agora, você precisa ter no mínimo 500 seguidores com selo azul. Isso para estimular que você traga mais gente assinando o selo azul, a todos a promessa de conteúdo. Não dá pra produzir conteúdo assim, então, tem que inventar. AI slop.

Alguns aproveitam e criam uns 3 ou 4 perfis e eu mesmo já identifiquei vários assim, em que cada um dos 4 dá retuíte no conteúdo dos outros 3. Claro, isso é proibido pelas regras, mas só é proibido se alguém descobrir.

Agora, o ChatGPT, Claude, Grok etc buscam na Internet, mas o que buscam é, cada vez mais, conteúdo feito por IA. Ou seja, as IA estão se autoalimentando e com os vários AI slops por aí, as informações erradas vindas das alucinações dos LLM irão compor o “conhecimento” e base de dados da IA, que será tido pelos seus usuários com verdadeiro. Sem curadoria, sem pesquisa paralela, sem pesquisa reversa, sem nada. Pura aceitação, como uma verdade definitiva. O conteúdo, o conhecimento próprio, irá morrer, sem ser divulgado, como estava sendo quando a montoeira de lixo compartilhada entre os pageranks altíssimos eclipsando gente que postava informações curtas, mas perfeitas. Vídeos de 30 minutos “explicando” algo que demoraria 2 minutos, com muita propaganda e sem efetivamente ensinar nada.

Esse é o conceito de Internet Morta, pois o compartilhamento de saberes morreu e todos dependem das IA. Você posta alguma coisa, mesmo com link sobre o assunto e algum imbecil vem e pergunta “É verdade, Grok? Duhhh!”

Pessoal cansa de mostrar um vídeo de uma reação química que parece magia do dr. Estranho, quando na verdade é IA ou mesmo After Effects: zilhões de likes e compartilhamentos. Você informa que aquilo é falso, não importa. Vão dar RT e baixar o vídeo e respostar simplesmente porque dá alta visualização. A realidade não importa, a monetização, sim. Ou seja, a avidez das empresas de “Tecnologia” em lucrar cada vez mais com publicidade induz em acabar com a própria Internet, e nisso a Meta, dona do Facebook, lucra querendo que você PAGUE para ser visto.

E pagam. Pois só assim angariam investidores e anunciantes e gente que queira pagar para anunciar as coisas, seja um restaurante, o Governo Federal ou mesmo o STF. E o conteúdo, claro, é IA. Basta ver a redes sociais dos próprios órgãos governamentais, digno de paiseco terceiro-mundista: um monte de meme, nenhuma informação, já que ninguém quer informação, a bem da verdade.

Quem quiser seus conteúdos terão que fazer os seus próprios. A Wikipédia ainda existirá, livros ainda existirão. Ao que depender das empresas, o velho PC, o computador pessoal, será extinto e regrediremos aos tempos dos terminais burros e acesso via celulares, que só servem para consumir conteúdo e não produzir.

A desculpa da IA elevou as peças de computadores a preços altíssimos, cada vez mais caros; memórias, placas de vídeo, armazenamento (SSD e HD) e já vamos para os processadores e placas-mãe. O objetivo é realmente transformar o PC em algo caríssimo, voltado para quem tem dinheiro, muito dinheiro. A culpa é do uso intensivo da IA? Vamos lá, você não acredita mesmo nisso, né? Muito mais fácil os terminais burros usados por gente que está sendo forçada a se emburrecer, e estão alegremente concordando com isso, pois, pensar e aprender coisas dá trabalho.

O que antes prometia acesso a todo conhecimento da Humanidade acabou sendo uma imensa bolha, em que basta um puxar de tomada por algum governo autoritário ou proto-autoritário (e estamos cheios dele, mesmo os que se dizem “democráticos”).

Ficaremos isolados em casa, e se você depende do Kindle, YouTube e Spotify para consumir cultura/entretenimento, seja quais forem, lembre-se que basta quererem que os livros que você “comprou” sumirão dos seus aparelhos, as músicas deixarão de estar nos seus perfis, filmes não existirão mais nos catálogos e não importa que você pagou por isso tudo, pois, tudo está na “nuvem” e tudo será ceifado, e você não poderá nem mais buscar conteúdo ou informação, pois as IA se tornaram “A” informação, para a felicidade das grandes empresas, dos governos, dos políticos. Se você não tem seus pdf, seus mp3 ou seus mp4, diga adeus a isso tudo, pois, só terá o que lhe deixarem ter.

Estamos caminhando para uma Idade das Trevas verdadeira; antes a Idade Média não era bem uma Idade de Trevas e ignorância, mas também não se tinha acesso a conhecimento facilmente, já que o conhecimento era contido e guardado por uma elite e voltado para uma elite, enquanto todos os cidadãos comuns tinham direito a trabalhar, comer, dormir, acordar, comer, trabalhar, comer, dormir… Estamos voltando para isso, com o adicional de vermos vídeos e postagens falsas produzidas por alguém que você não conhece que se esconde por trás de perfis criados por IA, com avatar criado por IA, com biografias criadas por IA, com “conteúdo” criado por IA, que servirá de base dedados que alimentarão as IA.

Esse foi o fim da Internet. Que a terra lhe seja leve.

Mas… vai que…


PS. Só de raiva, fiz a imagem no Photoshop

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