
Quando criança, todo mundo foi avisado que não pode olhar pro Sol. Olhar pro Sol dá dodói. Ao que parece, A Alemanha não teve isso (ok, teve). Havia até um plano para explicar aos krauts que olhar direto para o Sol continua sendo uma péssima ideia mesmo quando a Lua está fazendo das suas na frente dele. O plano falhou; não porque a informação não estivesse disponível (estava, em profusão, repetida por oftalmologistas e autoridades de saúde antes mesmo do fenômeno acontecer), mas porque as pessoas… bem, as pessoas continuam sendo idiotas, mesmo na Terra da Engenharia. Resultado: um monte de chucrutes (não os literais) baixaram hospital com pobrema nos zóio.
Iluminando a estupidez galopante das pessoas, esta é a sua SEXTA INSANA!
No dia 12 de agosto, um eclipse solar parcial cruzou a Zoropa e chegou a encobrir cerca de 90% do disco solar no sudoeste alemão, num daqueles eventos que fazem escritórios esvaziarem e pescoços torcerem para cima em uníssono, como se o continente inteiro tivesse sido convocado para uma aula de Astronomia ao ar livre. Claro, você irá pensar que as pessoas estavam preparadas para isso, certo? Pensou errado, otário!
O resultado, horas depois, não foi só espanto e fotos bonitas de rede social. Foi uma fila de um bandicorno com dor nos olhos, ardência e manchas na visão batendo à porta de hospitais em Berlim, Mannheim, Stuttgart e Freiburg. Dezenas de pessoas, em cidades diferentes, redescobrindo ao mesmo tempo por que a retina não gosta de ser tratada como plateia de fogos de artifício.
Em Mannheim, cerca de 20 imbecis chegaram à clínica oftalmológica do hospital universitário poucas horas depois do eclipse (o solar, mas não duvido nada que ficariam na frente de um Mitsubishi Eclipse só pra ver o que acontece), queixando-se de dor de cabeça e tontura, o combo clássico de quem decidiu fitar uma estrela de perto sem intermediários. Os médicos devem ter perguntando se foi comida e uma velhinha disse: “sim, mas o rapaz prometeu casar depois da Lua Nova”.
Em Stuttgart, outras 20 criaturas com sérias debilidades mentais apareceram até o meio-dia seguinte, desconfiadas de que algo tinha dado errado atrás dos próprios olhos (tinham razão em desconfiar). Em Freiburg, 8 pacientes já bateram à porta durante a madrugada e deram de cara cm médicos impacientes com tanta burrice, e o dia seguinte trouxe reforços com ardência, dor de cabeça e manchas no campo visual. Não por acaso: Freiburg foi justamente onde o eclipse atingiu maior intensidade, por volta das 20h17, com 90% do Sol coberto.
Quanto mais escuro fica o céu, mais o cérebro humano se convence de que está tudo bem olhar direto para cima, e é exatamente aí que a armadilha se fecha. Isso aconteceu porque a matemática da luz solar não perdoa arredondamentos otimistas.

Num dia comum, o brilho do Sol dói o suficiente para que a gente desvie o olhar por reflexo, um mecanismo de defesa tão eficiente quanto subestimado. No eclipse, essa luminosidade cai, o desconforto imediato desaparece, e o reflexo protetor vai dormir justamente quando mais se precisava dele. A córnea e o cristalino, ainda assim, seguem fazendo seu trabalho de lentes, concentrando toda a radiação que sobra bem no centro da retina, na mácula, a região responsável pela nitidez, pela leitura, pelos detalhes finos da visão.
E para piorar (porque sempre pode piorar!), a retina não tem receptores de dor. Então a lesão pode estar acontecendo em tempo real, silenciosa, enquanto a vítima acha que está tendo uma experiência espiritual com o cosmos.
Os sintomas, aliás, nem sempre avisam na hora. Podem aparecer minutos depois, podem esperar até o dia seguinte, numa espécie de boleto atrasado que o corpo manda cobrar sem juros, mas sem misericórdia: visão borrada, manchas escuras no centro do campo visual, linhas retas que de repente parecem onduladas, imagens fantasmas que insistem em ficar, cores que mudam de personalidade. E antes que alguém pense em se gabar dos óculos escuros que usou “por garantia”: não adiantaram nada.
Óculos de Sol comuns, mesmo os caros, mesmo com proteção UV, não bloqueiam a radiação capaz de fritar a retina em segundos. Vidro fumê e filme de raio-x, improvisos que a criatividade popular sempre reinventa, reduzem o brilho visível, mas não a parte invisível que realmente causa o estrago. É a diferença entre abaixar o volume da campainha e desligar o alarme de incêndio.
O curioso é que o vilão nem precisa de muito espaço para agir. O Escritório Federal de Proteção Radiológica da Alemanha e o Hospital Universitário de Freiburg fizeram questão de lembrar que mesmo com 99% do Sol coberto, o 1% restante ainda carrega energia suficiente para queimar a retina em poucos segundos. Ou seja: a Lua pode fazer quase todo o trabalho, mas o “quase” nessa equação é onde mora o perigo, esperando pacientemente por alguém confiante demais. Há até uma palavra para representar estas orientações höraufindiesonnezustarrendudummköpfe.
A boa notícia, se é que cabe alguma neste episódio, é que os exames preliminares não encontraram danos permanentes entre os avaliados nas três cidades (o que me deixou triste por saber que não vão aprender nada com isso). Desta vez, o susto ficou maior que o estrago. Mas o roteiro se repete a cada eclipse, em cada país, com a regularidade de uma piada que a humanidade insiste em não aprender.
Moral da história: quando o céu resolver fazer streaming ao vivo de um eclipse, use os óculos certificados, resista à tentação do olhar “rapidinho”, e lembre-se de que a Natureza não está nem um pouco interessada no seu senso de oportunidade fotográfica. Ela vai continuar queimando retinas distraídas de gente igualmente convicta de que “dessa vez vai ser diferente”.
Para terminar: leiam, em alemão: 555555. Me mandem vídeo lendo.
Fonte: G1
