A última canção de um império: o Epitáfio de Seikilos

Há uma sala no Museu Nacional da Dinamarca onde a luz entra devagar, como se meros fótons tivessem consciência da importância do local. Caminhando por corredores silenciosos, chega-se perante uma pequena coluna de mármore. Ao redor, o silêncio educado e um pouco solene que só existe em museus e em velórios. Ali é o Departamento de Antiguidades, e a coluna está cercada de outros fragmentos gregos e romanos que também sobreviveram por acaso ou por teimosia. Vasos que perderam a alça. Estátuas que perderam o nariz. Moedas que perderam o brilho mas não o perfil do imperador. É uma sala de sobreviventes, uma espécie de sala de espera na qual cacos do passado aguardam, pacientemente, que alguém pare, incline a cabeça e leia… e escute.

A coluna ali presente canta silenciosamente por meio de letras gregas entalhadas há muito tempo, junto aos símbolos que indicam a melodia. Uma voz que atravessou o tempo que traz a sensação de que a pedra sussurra, baixinho, para quem se debruça sobre o vidro. Aquela coluna é o Epitáfio de Seikilos.

É estranho pensar que aquele objeto já foi vaso de flores num quintal quando a Turquia era Anatólia. Um pedestal que atravessou o incêndio de Esmirna escondido sob a proteção de mãos, não divinas, mas meramente mortais. A mesma pedra que já foi vandalizada por descuido doméstico hoje é protegida por vidro antirreflexo e sistema de alarme. Do desmazelo ao museu, da negligência ao altar. Assim é o destino de quase tudo que sobrevive: primeiro é ignorado, depois é sacralizado. Tudo o que vive brilha.

A Grécia Antiga era uma civilização sonora. Homero era cantado, não lido. Safo compunha para a lira, não para o silêncio de uma página. Havia concursos de música em Delfos, havia hinos, havia canções de trabalho, canções de amor, canções fúnebres, canções obscenas de taverna. E de tudo isso, de um oceano inteiro de melodias que embalou o nascimento da cultura ocidental, sobrou uma ilha: uma inscrição completa, com letra e notação, que cabe inteira numa única coluna de pedra. Existem fragmentos mais antigos, como o Hino para Nikkal, os hinos délficos, mas são cacos, migalhas, ossos soltos de um esqueleto que não se remonta. Seikilos é o único corpo inteiro que a arqueologia sonora nos deixou tocar. E ele quase não sobreviveu nem a isso.

A história da descoberta é, ela mesma, uma pequena tragédia disfarçada de anedota. Em 1883, o engenheiro irlandês Edward Purser supervisionava a construção de uma ferrovia perto de Aydın, sobre as ruínas da antiga cidade de Trales. Encontraram a coluna, e a esposa de Purser, sem culpa nenhuma, sem saber que segurava, decidiu que aquilo daria uma bela base para vasos de flores.

Serraram a ponta da coluna. Perderam para sempre uma linha inteira do texto. Só não perderam tudo porque, por sorte, o arqueólogo William Ramsay já havia feito um decalque em papel antes da faca entrar na pedra. Às vezes a História sobrevive por um triz, por um decalque feito a tempo, por um capricho doméstico que quase virou vaso e virou lembrança.

E a coluna nem parou de sofrer aí. Passou de mão em mão, foi parar na coleção particular do genro de Purser, em Buca, perto de Esmirna, e em 1922, durante a destruição de Esmirna, uma das maiores catástrofes humanas da região naquele século, foi um cônsul holandês quem a protegeu, mandando-a por Istambul e Estocolmo até Haia, onde ficou parada, praticamente esquecida, por décadas.

Só em 1966 foi adquirida pelo Departamento de Antiguidades do Museu Nacional da Dinamarca, revelada ao público no fim do ano seguinte. Uma peça que carrega em si a memória da Grécia clássica atravessou incêndios, guerras, mudanças de fronteira e o século XX inteiro para acabar exposta, tranquilamente, naquela vitrine de Copenhague onde a luz entra sem pressa.

Antes da canção, há um dístico em que a própria pedra fala em primeira pessoa, um recurso comum em epitáfios antigos:

ΕΙΚΩΝ Η ΛΙΘΟΣ ΕΙΜΙ ∙ ΤΙΘΗΣΙ ΜΕ ΣΕΙΚΙΛΟΣ ΕΝΘΑ ΜΝΗΜΗΣ ΑΘΑΝΑΤΟΥ ΣΗΜΑ ΠΟΛΥΧΡΟΝΙΟΝ

Eikṑn ḗ líthos eimí. títhēsí me Seikílos éntha mnḗmēs athanátou sêma polykhrónion.

Sou imagem e sou pedra, Seikilos me ergue aqui como marco duradouro de memória imortal.

E então, a pedra para de falar e começa a cantar. Dezessete palavras:

ΟΣΟΝ ΖΗΣ ΦΑΙΝΟΥ
ΜΗΔΕΝ ΟΛΩΣ ΣΥ
ΛΥΠΟΥ ΠΡΟΣ ΟΛΙ
ΓΟΝ ΕΣΤΙ ΤΟ ΖΗΝ
ΤΟ ΤΕΛΟΣ Ο ΧΡΟΝΟΣ ΑΠΑΙΤΕΙ

Hoson zés, pháinou
Medén hólos sý lýpou
Pros olígon estí to zén
To télos ho khrónos apaitéi

Enquanto viveres, brilha.
De todo não te aflijas,
Pois curta é a vida
E o tempo cobra seu tributo.

O classicista Armand D’Angour observou que a melodia de Seikilos casa perfeitamente com a letra de “Humpty Dumpty”. O homem que criou, talvez, a canção mais solene da Antiguidade nos deixou algo que também poderia embalar uma criança para dormir. A alta cultura e a cantiga de ninar, lado a lado, na mesma pauta de dois mil anos atrás.

Antes que a última linha fosse desgastada para que a senhora Purser pudesse usar a estela como base para vasos de flores, a dedicatória dizia:

ΣΕΙΚΙΛΟΣ ΕΥΤΕΡ […]ΖΕΙ[…]

O verbo “ζει” (zei), que significa “vive” ou “está vivo”, era uma convenção comum na Antiguidade para indicar que quem dedicava o monumento havia sobrevivido à pessoa homenageada, erguendo a peça em sua memória. As duas últimas palavras que ainda restam gravadas na própria pedra são (os caracteres entre colchetes representam uma reconstrução parcial possível da lacuna, ou talvez a abreviação de um nome):

Σεικίλος Εὐτέρ[πῃ], Seikílos Eutér[pēi]

Ou seja, “Seikilos para Euter(pe)”. Segundo essa reconstrução, portanto, a lápide e os versos nela gravados teriam sido dedicados por Seikilos a uma mulher chamada Euterpe, possivelmente sua esposa. Há, no entanto, uma leitura alternativa: a inscrição estaria se referindo a Euterpe, a Musa da poesia lírica e da música na mitologia grega, como forma de exaltar a própria habilidade poética de Seikilos. Existe ainda uma terceira reconstrução parcial possível:

Σεικίλος Εὐτέρ[που], Seikílos Eutér[pou]

que significaria “Seikilos de Euterpes”, isto é, “Seikilos, filho de Euterpes”.

Se “Euter” era a esposa falecida de Seikilos – e que o verbo final, “zei”, “ele vive”, seguia a fórmula funerária padrão para indicar que o dedicante sobrevivera à pessoa homenageada – temos um lamento bonito, triste e profundamente humano. Se Euterpe estava se referindo à musa ou simples indicação geográfica, jamais saberemos ao certo. Talvez não devêssemos saber jamais, pois, isso ajuda o mistério de nossa própria existência, no nosso próprio significado de estarmos aqui, 2000 anos depois, lendo sobre isso.

Fechamos os olhos e vamos ouvir as antigas palavras entoadas por Betty Harlaft, no Templo de Apolo, cuja melodia deve sempre estar em nós mesmos sussurrando em grego, a língua da cultura: Brilhe enquanto podes. Não há mistério esotérico, não há sabedoria secreta perdida, apenas um homem, talvez estrangeiro, talvez enlutado, talvez apenas orgulhoso da própria arte, pedindo para ser lembrado…

… e Seikilos conseguiu.


Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.