A insana Bomba de Morcegos

Planeta Terra, cidade Tóquio. Como todas as grandes metrópoles em sua época, Tóquio tinha um grande problema: a Segunda Guerra Mundial. No amanhecer de 1943, o rugido de um avião irrompe o ar frio da manhã, cruza o céu e larga um container que parece uma bomba comum. Só que não é. A uns 300 metros de altitude, o troço se abre e liberta milhares de morcegos. Silenciosos, rápidos, quase invisíveis, eles se espalham pela cidade procurando um cantinho escuro para descansar. Infiltram-se sob telhados, em casas e prédios, sem critério especial. Mas esses não são morcegos comuns.

Cada um carrega uma pequena bomba incendiária amarrada ao corpo. Quando o sol nasce, o temporizador dispara. Milhares de ignições simultâneas incendeiam as construções de madeira do Japão. Em minutos, a cidade inteira está em chamas.

Parece roteiro de filme B, daqueles que você assistia de madrugada da Band e acordava se perguntando se foi real ou pesadelo induzido por pizza velha. Mas o problema é que essa história é real… ou quase!

Antes da primeira bomba atômica ser testada, o governo americano estava explorando outras opções para armas secretas. E existe um capítulo na história da Segunda guerra Mundial chamado “Bat Bomb”, a bomba de morcegos. Prepare-se, porque a realidade supera qualquer ficção. Você sabe… Tom Clancy blábláblá.

A ideia por trás da bomba de morcegos era engenhosamente simples: uma carcaça vazia carregaria 1.040 morcegos em vez de explosivos. Cada bicho teria gel incendiário tipo napalm com fusível temporizado amarrado ao corpo. Largados sobre Tóquio pouco antes do amanhecer, quando naturalmente procuram abrigo, os morcegos deveriam desencadear uma tempestade de incêndios por toda a cidade.

O plano previa lançamento de grande altitude, paraquedas abrindo a 1.200 metros, morcegos acordando e voando livre a 300 metros. Daí em diante: procura por abrigo em sótãos e beirais, detonação num raio de 30 a 60 quilômetros, incêndios em locais de difícil acesso. Nos anos 40, a maioria dos prédios em Tóquio era de madeira, não concreto. A substância incendiária deveria gerar chamas onde ninguém conseguiria apagar. Boa sorte tentando alcançar aquele sótão virando fornalha.

Mas quem teve essa ideia maluca? Foi Lytle Adams quem apresentou a proposta ao governo em 1942. Ele não era químico nem especialista em arma, mas um cirurgião-dentista que inventava coisas por diversão. Depois de visitar as Cavernas de Carlsbad no Novo México e ver milhões de morcegos, teve uma inspiração súbita. Em janeiro de 1942, escreveu ao presidente Roosevelt: “Prezado Senhor Presidente, anexo uma proposta destinada a assustar, desmoralizar e excitar os preconceitos do povo do Império Japonês.”

Roosevelt ficou intrigado. Em memorando interdepartamental, escreveu: “Este homem não é louco. Parece uma ideia perfeitamente maluca, mas vale a pena investigar.” O interesse do governo não era tão surpreendente. Afinal, o mesmo governo pesquisava mísseis guiados por pombos e umas bombas esquisitas que tinha uns trecos extremamente minúsculos se chocando e gerando uma explosãozaça imensa. No meio da guerra, qualquer coisa minimamente viável era considerada.

Colocar o projeto em prática, porém, exigiu preparação digna de MacGyver encontra dr. Doolittle. Primeiro: que morcego usar? O maior, o morcego-mastim ocidental com 50 cm de envergadura, poderia carregar 400 gramas, mas não havia exemplares suficientes. Um mais comum, o orelhudo de Townsen, carregaria 85 gramas mas não era resistente. No final, escolheram o morcego-de-cauda-livre mexicano (Tadarida brasiliensis mexicana). Pesando entre 11 e 14 gramas, conseguia voar com carga de até 17 gramas. Além disso, vive naturalmente sob telhados e pontes. Perfeito para os propósitos do exército!

Felizmente, 50 a 100 milhões deles viviam concentrados no Novo México e Texas. Cerca de 9 milhões habitavam as cavernas de Carlsbad. Pesquisadores visitaram mil cavernas e 3 mil minas, usando redes de 90 centímetros em postes de 3 metros nas entradas. Capturavam até 100 morcegos em três tentativas, colocando-os refrigerados em hibernação (ou o mais próximo disso, já que mamíferos não hibernam). Construíram então a unidade H2: cápsula de celulose com napalm, do tamanho de dois segmentos de dedo.

Originalmente planejavam usar fósforo branco, mas o napalm (gasolina espessada) era mais seguro de manusear e queimava a temperatura mais baixa. Para prender nos morcegos, usavam clipes cirúrgicos na pele solta do peito com barbante curto. Os bichos eram carregados em tubo metálico de 1,5 metro com três bandejas compartimentadas.

Em 15 de maio de 1943, o teste aconteceu na Base da Força Aérea em Carlsbad, Novo México. A bomba foi lançada de um B-25. Inicialmente funcionou: paraquedas abriu, morcegos voaram carregando iniciadores falsos. Mas uma rajada de vento desviou o curso. Alguns decolaram, outros não acordaram direito e caíram. Aí as coisas ficaram estranhas. Não se sabe exatamente como, mas alguns morcegos acabaram com dispositivos incendiários reais e temporizadores ativos.

Provavelmente, alguém sugeriu para fotos, mas o tempo estava quente. Os morcegos acordaram e decolaram, encontrando abrigo na base auxiliar recém-construída: quartel, outros prédios, torre de controle. Quando o temporizador disparou, a base entrou em chamas. Como o projeto era ultrassecreto, ninguém chamou bombeiros. Hangares, veículos (incluindo o carro de um general) e parte significativa da base auxiliar queimaram.

Um comandante da Força Aérea ficou realmente chateado com sua base novíssima parcialmente destruída. Os testes não trouxeram resultados esperados. Os animais não se comportaram como previsto, o mecanismo falhou, e surgiram problemas inesperados. Quando fêmeas ficaram grávidas, por exemplo, os machos não se alimentavam bem, limitando a utilidade dos bichos aos últimos 5 meses do ano. Com tanta burocracia e aborrecimento, a Força Aérea cancelou o projeto.

Mas a história não terminou ali. A pedido de um oficial dos Fuzileiros Navais que observava, a Marinha assumiu com o sinistro codinome Projeto X-Ray. As primeiras experiências começaram em 13 de dezembro de 1943. Durante testes posteriores, 30 incêndios foram iniciados. Vinte e dois se apagaram sozinhos, mas quatro precisariam de bombeiros reais. Eram intensos. Morcegos com bombas destruíram com sucesso uma maquete de aldeia japonesa. A bomba foi finalmente reconhecida como arma eficaz.

O relatório do químico-chefe dizia que o projeto era mais eficaz que bombas incendiárias comuns. Bombas padrão iniciariam 167 a 400 incêndios por ataque, enquanto a bomba de morcegos entregaria entre 3.625 a 4.748 incêndios. Testes em larga escala foram programados para agosto de 1944. Após dois anos de pesquisa, o projeto estava pronto para guerra.

Mas quando o almirante Ernest King, chefe de operações navais, descobriu que os morcegos só estariam prontos em meados de 1945, cancelou tudo em outubro de 1944. Havia outro experimento militar acontecendo simultaneamente, prestes a superar a bomba de morcegos. Adams chamou esse projeto secreto desconhecido de “o absurdo mais bobo que você já ouviu”, sem perceber que era a bomba atômica desenvolvida em Los Alamos.

No final, o Projeto X-Ray custou US$ 2 milhões (equivalente a US$ 35 milhões hoje). Quanto aos dispositivos incendiários, foram usados em forma diferente. Em 9 de março de 1945, forças americanas lançaram 2 mil bombas incendiárias de napalm sobre Tóquio. A tempestade de fogo consumiu mais de 4 mil hectares e matou mais de 100 mil pessoas. Mas a equipe dos morcegos não estava mais envolvida.

A grande ironia é que pode realmente ter funcionado. Os testes finais foram bem-sucedidos. A vila japonesa simulada queimou perfeitamente. Mas a escolha foi entre milhões de morcegos ou um cogumelo atômico. Sabemos qual opção venceu. Talvez, em algum universo paralelo, a Segunda Guerra tenha terminado não com o brilho cegante de Hiroshima, mas com o bater de asas silencioso de milhares de morcegos mexicanos. Nunca saberemos. O que sabemos é que essa história permanece como lembrete de que a realidade é muito mais estranha que qualquer ficção.

Afinal, quem precisa de alienígenas quando você tem dentistas visionários e uma base militar que se incendiou acidentalmente testando armas secretas?


PS. Este artigo é baseado principalmente no livro Bat Bomb: World War II’s Other Secret Weapon, de Jack Couffer, membro mais jovem da equipe do Projeto X-Ray, e em documentos militares desclassificados.

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