A guerra contra o paywall dos artigos científicos continua

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Fosfoetanolamina morta, fosfoetanolamina posta. Longa vida às doulas

Aaron Swartz deveria entrar no meu rol de Grandes Nomes da Ciência, mas eu teria pouco a escrever sobre ele, sua trajetória, enfim. Talvez seja um erro mas não é por falta de merecimento. Ele merece. Tal qual Prometeu, Swartz trouxe algo do reino dos deuses e deu aos Homens, pagando uma penitência severa por isso, e agora é tarde. Swartz já não está mais entre nós. A drª Alexandra Elbakyan é uma seguidora, herdeira, digamos assim, do Prometeu moderno.

Ambos caçados, ambos perseguidos. E pelo mesmo motivo:o Conhecimento. Ou a divulgação dele, de forma que os meros mortais tenham acesso a tudo que se produz em termos de publicações científicas.

Aaron Hillel Swartz nasceu em Chicago, no estado norte-americano de Illinois, aos  8 dias de novembro de 1986. Swartz fez uma mudança tremenda na Ciência, mas ele não era bem um pesquisador. Na verdade ele era um ativista. Membro do Centro Experimental de Ética da Universidade Harvard, Swartz contribuiu muito para com o que conhecemos como Internet. Foi um dos autores que criou o RSS e um dos fundadores do Reddit.. Se você não sabe o que é isso, você não conhece bem a Internet, assim como não sabe nada sobre Barsoom.

Swartz foi um cara perseguido e o motivo é altamente discutível. Ele usou a rede do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts e descarregou um volume imenso de publicações científicas para distribuir gratuitamente. O pessoal do JSTOR.

O JSTOR (ou Journal Storage) é um sistema de arquivamento de periódicos científicos, sendo hoje uma organização sem fins lucrativos independente, auto-sustentável, blábláblá. Tão sem fins lucrativos que para você poder ler os periódicos precisa pagar. Mas de quem é o conhecimento? Seria dos cientistas? Mas por que o dinheiro que os assinantes da JSTOR pagam para ter acesso e este dinheiro não vai para o pesquisador? É uma entidade sem fins lucrativos, logo, o dinheiro deveria ser apenas para cobrir os gastos, pois não? Mas os pesquisadores também precisam pagar para publicar lá.

Eu já tinha publicado que o paywall de artigos científicos deveria acabar. A Ciência não é minha, não é sua, é de todos nós. Eu entendo que o pesquisador precise ter seu nome creditado, mas você pagar pela Science, Nature etc só por causa de UM artigo é muito, se levarmos em conta que isso não é revertido para o pesquisador. Swartz também achava e liberou geral (os artigos). Ganhou de presente uma perseguição implacável. Foi acusado por crime de invasão de computadores por “ter usado formas não convencionais de acesso ao repositório da revista”.

Isso porque era reincidente, pois Swartz já tinha sido visitado pelo sr. Processinho por liberar gratuitamente informações que eram de domínio público, mas os sacripantas cobravam por isso.

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Não vou, entretanto, seguir alguma linha de pensamento conspiracionista. Tenho mais para falar e não quero perder tempo. Vamos falar da pedra no sapato de várias editoras: Alexandra Elbakyan.

A drª Elbakyan é bioengenheira e virou programadora. Nascida no Cazaquistão – um lugar maravilhoso, com o melhor potássio do mundo e as prostitutas mais limpas da região (exceto o Turcomenistão) –, Elbakyan é a fundadora do Sci-Hub, uma espécie de Locadora do Paulo Coelho Nerd (você não sabe o por quê de Locadora do Paulo Coelho? Por isso aqui)

Elbakyan ficou conhecida como a Robin Hood da Ciência, mas eu acho que é uma alcunha incorreta. Ela não rouba de ricos para dar aos pobres. Ela sequer rouba. Ela dá às pessoas o que é delas por direito: O conhecimento. Duvido que cientistas fiquem contra ela. Só editoras como a Elsevier, que diz que ela faz pirataria, uma Anne Bonny Científica, uma Mary Harvey da Pesquisa.

O Sci-hub mantém um repositório de mais 47.000.000 de artigos científicos, dando um balé nos sistemas que restringem o acesso aos usuários que não podem, não querem ou não têm como pagar. As editoras estão bem boladas com a cazaquistanesa, mas é como xixi em piscina: depois que está aí disponível, já era, não tem como acabar.

Assim como o pessoal do PirateBay (aquele site que você conhece bem, mas nunca usou, pois é uma pessoa honrada que acha que pegar torrent faz Jesus chorar), Elbakyan está pouco se lixando pros processos. Os advogados da Elsevier estão curtindo um dobrado, ainda mais porque a Pirateira Cazaque não mora nos EUA, e vive trocando o domínio do Sci-Hub. Uma verdadeira senhora mijada nas jacuzzi.

Eu, particularmente, acho que todo o conhecimento deve ser de todas as pessoas. Se se pagasse pelos artigos e parte desse dinheiro fosse para o pesquisador, seria válido. Mas não é esse o caso. A ganância das editoras faz com que nos sintamos à sua mercê.

O pesquisador, por outro lado, precisa que sua pesquisa tenha credibilidade, de forma que ela não seja confundida com bobagens criacionistas, gente tirando pesquisas fraudulentas da bunda e declarações que se encontraram unicórnios. Para isso, temos o Fator de Impacto. Uma Plos One distribui gratuitamente, mas já foi pega distribuindo lixo, mas até a Science e Nature já deram derrapadas, só que com menos frequência. Essas duas últimas possuem Fator de Impacto alto, o que garante maior lisura na pesquisa, acarretando em maior  reconhecimento pelo mundo acadêmico. Mas se apoiar nisso para extorquir belas quantidades de dólares por apenas um trabalho, que você nem saberá ser lhe atende ou não, ou apenas para as pessoas que querem saber o que se tem produzido nas universidades e centros de pesquisa, é uma grande sacanagem.

Eu não coloco link do Sci-Hub, mas apenas por querer dar a fonte oficial. Você tem total liberdade de ir lá e pegar o que quiser, não mando direito nem na minha vida, quanto mais na sua. Da mesma forma, não sou eu quem lhe diz para baixar ou não baixar torrent de filme. Eles não deixarão de existir por causa disso,e todo mundo sabe muito bem onde encontrá-los. Se não souber, sempre pode ver na Globo, daqui a 5 anos, cheios de cortes. Entretanto, é muito diferente pegar torrent do Batman x Superman e ter acesso a uma pesquisa científica sobre tratamentos de esclerose lateral amiotrófica, ainda mais se algum parente seu está com essa doença.

É um direito das pessoas saber, de conhecer, de ter acesso ao conhecimento. Ou voltaremos aos tempos da Idade Media em que só os potentados e o clero (e o clero eram os potentados da época, em sua maioria) tinha acesso ao saber, através de livros escondidos em suas bibliotecas, como retratado no Nome da Rosa. Tal como no livro, me sinto no direito de terminar com um adágio em latim (que não está nesse livro):

Res publica non dominetur!


Fonte: Ars Technica via @RonaldoGogoni, que tambpem escreveu sobre isso, e você poderá ler AQUI

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Sobre André Carvalho

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