A cidade que esqueceu de inventar reis

Há um roteiro que a história repete com a monotonia de uma novela mexicana. Vila prospera, vira cidade, e aparece um sujeito de coroa (ou tiara sacerdotal) reivindicando que os deuses o escolheram pessoalmente para acumular a maior parte do excedente. O Egito teve seus reis e pirâmides, a Mesopotâmia seus reis-sacerdotes e Creta o suntuoso palácio de Cnossos. Por décadas, o consenso entre historiadores foi simples e fatalista: cidade que cresce é cidade que concentra riqueza no topo.

Só que uma cidade no que hoje é o Paquistão parece ter perdido a memória desse roteiro. Entre 2600 e 1900 A.E.C., ela cresceu, prosperou, virou a maior metrópole do Vale do Indo e, em vez de gerar uma elite cada vez mais destacada, fez o oposto: ficou mais igualitária à medida que enriquecia. Nada de palácios, nada de tumbas de ouro, nada de estátuas de governantes olhando para baixo com desdém arquitetônico.

O dr. Adam S. Green é Senior Lecturer em Sustentabilidade na Universidade de York (o título oscila para “Lecturer” em algumas páginas mais antigas da própria instituição, prova de que até currículo de arqueólogo que estuda Idade do Bronze demora para ser atualizado) e pesquisa a relação de longo prazo entre desigualdade e sustentabilidade, com trabalho de campo extenso no norte da Índia desde o doutorado na New York University. Foi ele quem liderou a investigação sobre Mohenjo-daro, aplicando ao Vale do Indo a mesma lógica que já vinha testando em outros lugares: medir o tamanho das casas para descobrir o quanto uma sociedade antiga concentrava, ou não, sua riqueza.

Parece bobo, mas é exatamente o tipo de dado que economistas usam até hoje para calcular o coeficiente de Gini, aquele número que separa sociedades relativamente equilibradas de sociedades em que um punhado de gente tem iate e o resto tem dívida. Olhando a cidade como um todo, Mohenjo-daro apresenta um Gini de 0,44, já bem abaixo do que se via em cidades contemporâneas como Ur e Ugarit, na Mesopotâmia, ambas acima de 0,6, e muito abaixo do palaciano Cnossos cretense, que chega a impressionantes 0,86 (para efeito de comparação, é o tipo de número que hoje classificaria uma sociedade entre as mais desiguais do planeta).

No bairro de DK-G South, o único trecho da cidade com dados detalhados o suficiente para acompanhar a evolução ao longo do tempo, o Gini caiu de 0,39 por volta de 2500 A.E.C. para 0,23 por volta de 2100 A.E.C. Dentro da própria Mohenjo-daro, a distância entre ricos e pobres encolheu conforme os séculos passavam. O oposto exato do que os manuais de urbanização preveem.

O artigo de Green e seu pessoal evita a tentação fácil de transformar isso numa fábula moral direta, mas nota que essa queda na desigualdade coincide com um período de aumento visível na prosperidade da cidade e com o amadurecimento do seu plano de ruas, cada vez mais organizado e mais uniformemente servido por infraestrutura como poços e sistemas de drenagem.

A cidade não ficou mais igual apesar de crescer. Ficou mais igual enquanto crescia, com amenidades urbanas se espalhando por bairros inteiros em vez de se acumularem em torno de um centro palaciano que, convenientemente, nunca existiu.

Fica então a ironia incômoda de encerrar o texto: quatro milênios antes de qualquer fórum econômico discutir “capitalismo inclusivo” em painéis com café gourmet, uma cidade de tijolos de barro já tinha resolvido, na prática e com números de Gini que hoje fariam qualquer think tank aplaudir de pé, o problema que ainda debatemos em teoria.

Nossos tatatatatatatatatatatatatatatatatatataravós fizeram isso sem precisar erguer uma única estátua para lembrar disso.

A pesquisa foi publicada no periódico Antiquity.

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