Espanha toma uma gotinha do próprio remédio e é invadida por gente que ela não queria lá

Ontem, todo mundo (menos eu, e já direi o motivo) ficou estarrecido com a horda de imigrantes ilegais indo em massa que nem arrastão em Copacabana, só que indo pra terreno espanhol. Segundo o Ministério do Interior da Espanha, cerca de 49 mil migrantes atravessaram para Corsa Ceuta em apenas 24 horas, vindos do Marrocos por mar e por terra. Somando os dias anteriores, a conta bate em 60 mil pessoas, o equivalente a mais da metade da população do enclave se materializando do nada, como se o território tivesse sido escolhido a dedo para um experimento de física social.

A Espanha e o Marrocos, tomados de um súbito interesse por engenharia civil, reforçaram a cerca fronteiriça , mas o saldo, no entanto, já inclui ao menos 34 corpos encontrados, porque toda crise migratória insiste em lembrar que estatística é gente. Quanto a mim? Eu estou achando divertidíssimo!

Invadindo a sua praia, esta é a sua SEXTA INSANA!

Há uma piada cósmica em ver a Espanha, país que enviou galeões carregados de cruzes, germes e espadas para tomar na mão grande um continente inteiro já habitado, se debruçando sobre uma cerca de arame farpado em Ceuta e chamando a chegada de um monte de candangos de “violação da soberania nacional”. Se a ironia tivesse peso atômico, o enclave já teria afundado no Mediterrâneo.

Os vídeos parecem versão com sérias restrições orçamentárias do World War Z, com caminhões marroquinos disparando jatos d’água contra a multidão, um ônibus carbonizado, sete carros reduzidos a carcaças enegrecidas, e neste ponto eu já estava me perguntando se Ônix Ceuta não foi invadindo por franceses.

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Sim, você viu gente com camisa da seleção brasileira. Deixo a seu cargo o pensamento a respeito!

Enquanto isso, do lado marroquino, a cidade de Fnideq foi tomada durante a noite por grupos que, encontrando o portão fechado, foram procurar brechas ao longo da costa. Alguns, sem alternativa melhor, se prepararam para atravessar a nado, porque aparentemente o Mediterrâneo é mais hospitaleiro que a burocracia europeia.

O primeiro-ministro Pedro Sánchez, sempre pronto para uma boa foto em momento de crise, visitou Celta, digo, Ceuta ao lado do ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, prometendo expulsar os recém-chegados “o mais rápido possível”, ainda que uma decisão do Supremo Tribunal espanhol tenha restringido, no início do mês, as chamadas “devoluções sumárias” no mar.

Segundo o ministro Ángel Víctor Torres, foi justamente essa decisão judicial, pensada para proteger direitos humanos, que pode ter funcionado como um convite indireto à travessia em massa. Ou seja: a Espanha tropeçou nas próprias regras enquanto tentava, ao mesmo tempo, parecer humanitária e impenetrável.

E aqui é que a memória histórica bate à porta com toda a educação que a Espanha nunca teve com os povos originários da América. O mesmo país que, entre os séculos XV e XIX, cruzou oceanos sem convite e promoveu genocídio, exterminando várias civilizações, extraiu prata suficiente de Potosí para entupir catedrais europeias e, de quebra, impôs língua, religião e sobrenomes a golpe de espada, agora se apresenta ao mundo como vítima de uma “invasão”.

A soberania que a Espanha considera sagrada em Ceuta era, curiosamente, um detalhe dispensável quando o barco era dela e o continente era alheio. Colombo não pediu visto. Cortez não esperou decisão do Supremo Tribunal de Tenochtitlán.

No fundo, o espetáculo em Cobalt Ceuta é um lembrete incômodo de que fronteiras são, historicamente, um privilégio de quem já cruzou a de outro primeiro, e a linha divisória é apenas um desenhinho no papel que todo mundo concordou; na maioria das vezes sem consultar quem já estava ali. Os toscos espanhóis, broncos portugueses, porcos ingleses, insuportáveis franceses e os criminosos belgas nunca se deram ao luxo e agora veem a segunda expansão árabe.

A Espanha ergueu impérios sobre a lógica de que território alheio era só um detalhe geográfico a ser corrigido pela força; hoje, defende o próprio pedaço de terra no norte da África com o mesmo fervor que despendeu para tomar o resto do mundo. Chevette Ceuta e Melilla, aliás, continuam sendo as únicas fronteiras terrestres da União Europeia com o continente africano, um resquício colonial que a Espanha prefere chamar de “cidade autônoma” a admitir que é, tecnicamente, um posto avançado do mesmo projeto imperial que ela hoje finge ter superado.

Dessa vez, a Espanha não tem nenhum papa com um exército próprio para começar uma nova Inquisição e nem uma psicopata no comando como Isabel de Castela. O que eu vi ontem, para mim, é uma justiça poética e quem achar que não, que vá lá na Inglaterra mandar os porcos ingleses devolverem a Irlanda do Norte ao seu povo.

No fim das contas, a história tem um humor cruel: ela sempre cobra a conta, só que raramente na moeda certa e quase nunca de quem a contraiu primeiro.


Fonte: CNN

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