CHOQUE DO DIA: Descobriram que aprovar alunos automaticamente faz reprovação despencar

Eu fico feliz em morar num país que finalmente resolveu sua crise educacional. Não foi necessário aumentar o salário dos professores, reduzir o número de alunos por turma, construir escolas em tempo integral, criar programas de recuperação de aprendizagem nem qualquer outra medida daquele tipo: cara, demorada e constrangedoramente trabalhosa. A solução foi muito mais elegante, e tem aquela beleza cristalina das ideias que parecem óbvias depois que alguém as enuncia: se os indicadores educacionais estão ruins, muda-se a forma de produzi-los. O problema some, os gráficos melhoram e todo mundo vai para casa feliz, inclusive o aluno que não sabe fração.

Vendo ser aprovada a burrice institucionalizada coo projeto de governo, esta é a sua SEXTA INSANA!

Os números divulgados pelo Ministério da Educação nesta semana impressionaram um monte de gente. Os dados mostram que a taxa de aprovação nas redes estaduais saltou de 91,7% em 2024 para 94,8% em 2025! Putzgrila, resolvemos o problema da Educação. Chupa, Finlândia! Nos tornamos numa potência pedagógica com uma geração de adolescentes que trocou o feed do Instagram pelos fundamentos da álgebra. Professores inspirados transformando vidas em escolas com goteira.

Ok, tem a parte indigesta que a realidade é bem menos cinematográfica, e não envolve professores nem adolescentes tão diretamente quanto se poderia esperar: o mecanismo responsável por essa proeza chama-se progressão parcial, que é o nome técnico e administrativamente inofensivo para o que gerações anteriores chamavam de aprovação automática, mas com alguma… mudanças (que não mudam o resultado final).

O funcionamento é simples: em vários estados, o aluno pode reprovar em até seis disciplinas e ainda assim avançar para a série seguinte. Em uma grade curricular típica do Ensino Médio, essa quantidade representa aproximadamente metade das matérias que o estudante deveria ter assimilado. Ele pode fracassar sistematicamente em uma fração considerável do conhecimento que a instituição se propôs a transmitir e, ainda assim, receber da mesma instituição a informação de que está apto a prosseguir.

A jornaleirada fico boquiaberta ao saber que os estados que adotaram as versões mais generosas da medida apresentaram os resultados mais expressivos. O Rio de Janeiro elevou sua taxa de aprovação no ensino médio de 80,8% para 91,8% em um único ano, no mesmo ano em que passou a permitir reprovação em até seis disciplinas sem perda do ano letivo. O Rio Grande do Norte saltou de 77% para 93%. A Paraíba avançou quase dez pontos percentuais. Minas Gerais e Rio Grande do Sul registraram crescimentos igualmente relevantes, com versões ligeiramente mais econômicas da mesma política.

A sequência de coincidências é tão consistente que começa a sugerir uma lei natural ainda não catalogada, segundo a qual flexibilizar critérios de aprovação produz efeitos mensuráveis sobre as taxas de aprovação.

Nenhum caso, porém, supera o Pará em grandiosidade narrativa. Em 2023, o estado adotou a progressão parcial com até cinco disciplinas e viu sua taxa de aprovação disparar de 76,4% para 99%, subindo da penúltima para a sexta posição no ranking estadual do Ideb em um único ciclo.

NOVENTA E NOVE PORCENTO! Um resultado tão extraordinário que coloca o observador diante de apenas duas hipóteses razoáveis: ou o Pará descobriu uma geração de estudantes cujas capacidades cognitivas deveriam ser imediatamente investigadas por neurocientistas de todos os continentes, ou alterar os critérios de aprovação alterou as taxas de aprovação. Como a primeira hipótese exigiria uma revisão completa do que a humanidade sabe sobre adolescência, cognição e a relação entre seres humanos e o ensino de geometria, a segunda acaba parecendo ligeiramente mais robusta.

O que o Pará não conseguiu replicar com a mesma velocidade foi o crescimento na outra metade do Ideb, aquela que mede o que os alunos efetivamente aprenderam. O aprendizado avançou de 5,41 para 5,69 na nota média padronizada, um resultado que, em números absolutos, é honesto, mas que tem o inconveniente hábito de estragar comemorações quando colocado ao lado do salto de 23 pontos percentuais na aprovação.

O Ideb é calculado pela combinação entre taxa de aprovação e desempenho acadêmico. Quando um dos fatores sobe de maneira acelerada, o índice acompanha o movimento. Não é pedagogia. É aritmética. A mesma aritmética que, com uma ironia que nenhum roteirista dispensaria, muitos dos alunos promovidos ainda precisam aprender.

Os defensores da medida costumam lembrar, com razão, que os países com melhor desempenho educacional no mundo abandonaram há décadas a reprovação em massa como instrumento pedagógico. Isso é verdade e merece ser levado a sério, mas isso foi pelo sentido inverso. Quando só sai aluno bom, não faz nem mais sentido aventar a reprovação. Ninguém pé reprovado, mesmo.

O detalhe que tende a desaparecer nessa comparação é que esses países substituíram a retenção por sistemas robustos de suporte ao estudante, acompanhamento individualizado, intervenções pedagógicas precoces e investimentos substanciais no ambiente escolar. Trocaram a punição pelo apoio. O Brasil parece ter encontrado um terceiro caminho, mais criativo: trocou a punição pela redefinição das regras, mantendo o ambiente escolar exatamente como estava e dispensando o investimento que tornaria a mudança pedagogicamente defensável. É como diminuir drasticamente os casos de estupro legalizando o ato. Pronto, nenhum outro estuprador será preso depois dessa medida.

No fundo, a medida possui uma elegância quase artística. Em vez de enfrentar os problemas do ensino, ela atua sobre os números que esses problemas produzem. É a tempestade perfeita para alavancamento da ignorância numa época genuinamente apaixonada por indicadores, dashboards e taxas percentuais que sobem. O carro continua com o motor fundido, mas o painel de instrumentos finalmente exibe números que inspiram confiança. E, como qualquer estudante aprende cedo ou tarde, há uma diferença considerável entre dominar a matéria e apenas parecer que a domina.

A questão é que, neste momento específico da história da educação brasileira, essa diferença não consta de nenhum índice oficial. E para fechar com chave de ouro: todos esses alunos estarão aptos a entrar numa universidade por meio de cotas. Vai dar certão!


Fonte: Grôbo

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