
A história humana está repleta de práticas que fazem você agradecer por ter nascido na era dos antibióticos e do saneamento básico. Mas poucas dessas práticas atingem o nível de “MAS HEIN?” que a relação dos romanos antigos com urina conseguiu alcançar. Estamos falando de uma civilização que construiu aquedutos magníficos, estradas que duraram milênios e um império que dominou o mundo conhecido e… bem, e que também fazia largo uso de urina para atividades do dia a dia.
Romanos achavam que o xixizão era recurso natural valioso demais para desperdiçar. Não estamos falando de um uso ocasional e discreto. Os romanos transformaram urina em indústria, cobraram impostos sobre ela e a incorporaram em praticamente todos os aspectos da vida cotidiana, da lavanderia à medicina. Bem-vindo ao mundo onde fazer xixi era literalmente seu dever cívico!
A genialidade romana (ou insanidade, dependendo da sua perspectiva) estava em reconhecer o potencial químico da urina antes mesmo de entender o que era Química (com ela a oração e a paz). A rigor, romanos não eram chegados a Ciência; era tipo o brasileiro, mas eles podiam argumentar que nasceram antes de Lavoisier, e você aí que faz mistureba para limpar chão é apenas um preguiçoso que dormiu nas minhas aulas.
Os romanos eram práticos, não teóricos. Aquilo funciona? Oba, vamos usar. POR QUE funciona? Tempvs fugere, frater! Mas os romanos. À sua maneira, sabiam das coisas e as receitas e tratados eram apenas documentos sobre como usar, não para entender os meandros científicos. Por exemplo, o pessoal do Lativm sabia que conforme a urina envelhece, sua composição se transforma e produz amônia. A palavra “amônia” tem uma origem que mistura templos egípcios, esterco de camelo e a confusão encantadora dos escritores romanos antigos.
O nome vem de Amon (ou Aμμων, se você preferir a versão grega), a divindade egípcia cujos sacerdotes tinham o hábito peculiar de queimar solos ricos em naquilo que hoje chamamos de cloreto de amônio nos templos
Esses solos eram generosamente enriquecidos com esterco e urina de animais. Plínio, o Velho menciona no Livro XXXI da sua História Natural um sal chamado “hammoniacvm”, batizado assim por causa da proximidade com o Templo de Júpiter Amon na província romana da Cirenaica. O problema é que a descrição que Plínio dá desse sal misterioso não bate nem um pouco com as propriedades reais do cloreto de amônio. Herbert Hoover, ao traduzir a obra De re metallica, de Georgius Agricola, sugere diplomaticamente que Plínio provavelmente estava falando de sal marinho comum e apenas inventando o resto. Mas não importa, a confusão pegou, e esse sal duvidoso acabou batizando a amônia e todos os compostos de amônio que conhecemos hoje.
Os romanos não tinham a menor ideia do que era amônia em termos científicos, mas através de tentativa e erro descobriram que urina velha era incrivelmente útil para amolecer materiais, limpar sujeira e até matar bactérias, mesmo sem saber que bactérias existiam. Era Ciência empírica na sua forma mais primitiva e malcheirosa!
A indústria têxtil romana era completamente dependente da urina. Curtumes usavam misturas de água e urina para amolecer tiras de couro, tornando o material maleável o suficiente para ser moldado em armaduras para soldados ou sandálias para senadores. O couro romano era famoso por sua qualidade em todo o mundo antigo, e o segredo sujo por trás dessa fama era literalmente sujo: piscinas de urina fermentada onde o couro ficava de molho.

A lã de ovelha usada para fazer túnicas também passava pelo mesmo processo encantador: mergulhada em urina para amaciar as fibras antes de serem tecidas. E não parava por aí. Depois que as roupas estavam prontas, a urina envelhecida servia como agente fixador perfeito para tingimento, garantindo que as cores permanecessem vibrantes por mais tempo. O método funcionava tão bem que continuou sendo usado por alfaiates e curtidores europeus por séculos depois da queda de Roma.
Manter Roma limpa era literalmente questão de todo mundo fazer seu número 1 nos lugares certos. Mictórios públicos estavam estrategicamente posicionados pelas ruas da cidade, e os cidadãos eram ativamente encorajados a urinar nessas piscinas coletoras. Não era questão de higiene pessoal, mas sim coleta de matéria-prima industrial. Além disso, deixava as ruas menos fedidas, o tipo de coisa que alguns bairros periféricos do Brasil bem que podiam adotar.

O xixi acumulado era então usado para lavar roupas, com lavadeiras pisoteando as peças ensopadas em urina como se fosse uma máquina de lavar primitiva e repugnante. A amônia ajudava a soltar a sujeira das fibras, e depois o mesmo líquido era usado para limpar ruas e paredes da cidade e… é, acho que eu me antecipei com a parte das ruas não estarem fedendo a urina. My bad!
Basicamente, fazer xixi em Roma não era apenas necessidade fisiológica; era contribuição para bem-estar urbano coletivo. Cidadania responsável nunca foi tão literal. Mas foi na medicina que a relação romana com urina atinge níveis verdadeiramente impressionantes de “como alguém teve essa ideia?”
Médicos romanos usavam urina como desinfetante para limpar feridas, aproveitando sem saber as propriedades antibacterianas da amônia para matar germes e prevenir infecções, séculos antes da teoria dos germes ser desenvolvida. Através de pura tentativa e erro, descobriram um conceito básico da Medicina Moderna usando métodos absolutamente nojentos.
Galeno refinou as ideias de Hipócrates sobre urina, teorizando que a urina representava não um filtrado dos quatro humores e da condição geral do corpo, mas sim um filtrado especificamente do sangue. Galeno foi o primeiro a demonstrar através de experimentos que os rins são órgãos excretores de urina, algo que parece óbvio hoje mas que na época foi uma descoberta revolucionária. Ele buscava tornar o diagnóstico pela urina mais específico e usava a expressão “diarreia de urina” para descrever micção excessiva. Sim, Galeno realizou seu estudo sobre a urina, mas principalmente do ponto de vista diagnóstico, examinando a urina dos pacientes para entender suas condições médicas, mas não como tratamento.
Um outro uso da urina era para o tratamento de problemas de pele como acne severa, eliminando óleos naturais da mesma forma que fazia com couro ou lã, deixando a pele mais lisa e limpa. Até aqui, dá para argumentar que havia alguma lógica prática, por mais repulsiva que fosse.
Mas então chegamos ao território do verdadeiramente inacreditável: romanos bochechavam urina para curar dores de dente e garganta inflamada. Alguns médicos romanos chegavam a recomendar beber xixi como tratamento para várias doenças. Era provavelmente uma extensão da experiência com amônia combatendo infecções, mas é difícil imaginar o tipo de desespero médico necessário para pensar “sabe o que vai curar essa tosse? Um belo copo de mijo fresco”.
Existe debate histórico sobre se os romanos realmente usavam urina para escovar os dentes; alguns acadêmicos argumentam que essa era uma prática celtibérica e que qualquer romano flagrado fazendo isso seria ridicularizado publicamente. Porque aparentemente havia limites até mesmo para a obsessão romana com xixi, e escovar os dentes com ele cruzava a linha do aceitável para o absurdo.
A Economia da urina em Roma era tão robusta que eventualmente atraiu a atenção do governo, porque se há uma coisa que governos adoram é taxar coisas! O Imperador Nero introduziu o primeiro imposto regulando o comércio de urina. Mas foi o Imperador Vespasiano quem se tornou famoso por implementar uma taxa abrangente sobre a coleta de xixi dos mictórios públicos que ele próprio financiou. Quando seu filho Tito reclamou da natureza humilhante de taxar urina, Vespasiano supostamente segurou uma moeda perto do nariz do filho e disse “Pecvnia non olet”, ou seja, “o dinheiro não tem cheiro”. A frase virou famosa, e a lição era clara: não importa quão nojenta seja a fonte de receita, dinheiro é dinheiro.
No final das contas, urina era ferramenta incrivelmente versátil na Roma Antiga. Da produção de roupas à limpeza de cidades, do tratamento médico à manutenção de uma sociedade funcional, a amônia resultante de piscinas envelhecidas de xixi ajudou a sustentar um império.
Numa sociedade que não tinha sistema de esgoto nos padrões de hoje por séculos, reciclar urina era maneira eficiente de lidar com resíduos humanos e ainda extrair valor econômico deles. De qualquer forma, a metade das residências brasileiras não possuem saneamento básico, e nem aproveitam a urina. Ou seja, metade do Brasil está pior que o romano da Antiguidade!
Quanto aos romanos, algumas de suas tradições merecem ser preservadas, como aquedutos, estradas e arquitetura monumental. Outras, como beber mijo medicinal, podem ficar exatamente onde estão: enterradas no passado distante onde pertencem.
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