Hackers fazem geladeiras entrarem numa fria

Eu acho que nada é mais simples que uma geladeira. Você liga na tomada, ela fica gelada por dentro. O que pode ser complicado? Simples: no mundo da enshitification, até coisas simples como geladeiras ficam complicadas. Aí alguém resolveu que conservar comida precisava de interface na internet, manutenção remota e software que depende de uma cadeia de empresas e contratados. Como falei lá no artigo linkado acima, a geladeira da casa dos seus avós durou trinta anos, tinha motor simples, tubulação de cobre, sem firmware, sem parafuso proprietário, sem nada que exigisse chamar assistência técnica autorizada para trocar uma peça de cinco reais. Agora, esta bagaça tem até tablet. PARA QUE?

Agora, o último caso envolvendo geladeiras modernas foi quando um agente infeccioso invadiu equipamentos em centenas de supermercados franceses. A infecção aqueceu o que deveria estar gelado, estragou toneladas de alimentos e, em algumas unidades, provocou incêndios. Em novembro, a infecção voltou.

O intervalo é a parte mais clara da história. Não foram dois surtos separados por décadas ou por patógenos diferentes. O primeiro ainda estava no noticiário quando outras lojas europeias descobriram que seus equipamentos de refrigeração tinham sido contaminados de novo. As temperaturas subiram, os estoques foram comprometidos e a comida teve de ser descartada. E o agente que infectou sequer era ser biológico.

Na noite de 11 para 12 de outubro de 2026, sistemas de refrigeração de centenas de supermercados franceses foram comprometidos. Temperaturas chegaram a 50 °C, alimentos foram descartados, houve incêndios. A investigação passou a abranger equipamentos de diferentes fabricantes, inclusive Danfoss e Copeland/Dixell. Não era geladeira doméstica com aplicativo travado: eram instalações que conservavam o estoque de estabelecimentos inteiros.

A Ars Technica (você sabe que eu coloco os links lá pro final, salvo quando eu quero fazer diferente) descreveu controladores conectados à Internet, vulnerabilidades conhecidas e equipamentos desatualizados. Neste caso não temos a famosa Internet of Things (Internet das Coisas) e sim o Internet of Shit (autoexplicável).

A Pen Test Partners detalhou um mecanismo de autenticação baseado em código calculado a partir da data do controlador, sem segredo individual por aparelho. Nas unidades que compartilhavam o mecanismo, o mesmo código diário era válido. Recuperado o algoritmo, o processo podia ser automatizado. Para produzir o aquecimento, havia funções legítimas de degelo e configuração, com capacidade de distribuir ajustes e desativar ou atrasar alarmes. O equipamento não precisou aprender a fazer algo novo, e sim aceitar comandos de quem não deveria estar ali e executá-los além dos limites seguros.

A função de degelo já existia. O gerenciamento centralizado já existia. A possibilidade de alterar parâmetros já existia. O invasor encontrou uma estrutura pronta para trabalhar em escala.

Menos de um mês depois, na madrugada do dia 2 de novembro, supermercados de outros países europeus relataram problemas semelhantes, justificando o dia, já que estavam praticamente mortos por dentro. Na Suécia, os congeladores chegaram a 50 °C. O ataque teria ocorrido às duas da manhã e só foi percebido horas depois. Na Bélgica, 15 unidades do Carrefour e 5 da Spar foram afetados. Houve ocorrências em Luxemburgo e na Estônia. Na Irlanda, 13 lojas SuperValu tiveram sistemas atingidos e precisaram retirar produtos de venda. Um comerciante belga relatou refrigeradores a 18 °C e cerca de 15 mil euros perdidos em carne. Não é preciso chegar a 50 °C para destruir um estoque, basta estar acima de 10 °C que a magia da não-conservação de alimentos faz o serviço.

A autoria permanece desconhecida, assim como a eventual ligação entre os episódios. Pode haver continuidade, imitação ou caminhos diferentes. A repetição, porém, já mostra que a primeira ocorrência não encerrou o problema.

Criminosos não são o que os filmes vendem. Não apontam para uma geladeira, digitam meia dúzia de comandos e fazem o queijo obedecer. Precisam encontrar um caminho: interface exposta, credencial previsível, programa vulnerável, equipamento abandonado. O caminho existia porque alguém decidiu que o equipamento precisava de acesso remoto. A Forescout encontrou orientações de fabricantes para acesso externo e encaminhamento de conexões aos controladores. Em levantamento publicado depois do ataque francês, identificou quase 13 mil serviços expostos em 99 países e territórios. São interfaces observadas, não uma contagem de geladeiras individuais. A exposição não pode ser atribuída só a um funcionário distraído.

Há equipamentos cujo ciclo de suporte já terminou. O AK-SM 800 chegou ao fim de vida em maio de 2021; a linha AK-SC 355 foi retirada em 2016. Um aparelho pode continuar funcionando fisicamente quando já não existe o mesmo compromisso de manutenção de seu software. Mandar “atualizar tudo” não resolve o que já não recebe atualização, e assim, algo que servia apenas para gelar coisas dentro passou a ser meio de cultura de ataques maliciosos por seres biológicos de duas pernas a quilômetros de distância, bastando ter um teclado.

A explicação por incompetência isolada fica incompleta. Há incompetência, sim. Há também um projeto comercial: conectar equipamentos, reduzir visitas de técnicos, centralizar operações e ampliar a dependência de fornecedores. Cada participante obtém uma vantagem imediata. Sustentar a segurança durante toda a vida útil da instalação exige trabalho posterior, dinheiro e responsabilidades claramente atribuídas. Quando o prejuízo apareceu, o contratado podia apontar para a loja, a loja para a informática e o fabricante para o equipamento antigo. A comida estragada permaneceu no mesmo lugar.

Não estou dizendo que fabricantes desejem ver seus produtos sabotados. Estou perguntando por que os benefícios comerciais foram organizados com mais eficiência do que as obrigações que deveriam acompanhá-los. O criminoso comum aproveita a fraqueza para prejuízo imediato. A empresa que montou a estrutura aproveita a mesma estrutura de forma contínua. Os dois dependem da decisão anterior de transformar uma função básica em ponto de acesso remoto. O segundo ataque, semanas depois do primeiro, serve principalmente para mostrar que essa decisão não foi revista.

Essa lógica também chegou à casa. Quando escrevi sobre a enshittification e sobre instalar minha TV, estava tratando dessa transformação: você compra uma coisa para cumprir uma função e recebe uma relação permanente com contas, permissões e serviços. Eu queria assistir Netflix. Não oferecer informações sobre minha rotina para poder usar uma televisão.

Na geladeira doméstica, a coleta pode alcançar a alimentação. O aviso do SmartThings contempla, conforme os recursos utilizados, preferências alimentares e imagens de alimentos colocados e retirados de aparelhos compatíveis. Associados a outros registros, esses dados podem sugerir hábitos e restrições. Quem comprou o aparelho é um cliente e um produto ao mesmo tempo. Em negócios que também monetizam dados e publicidade, quem deseja conhecer ou alcançar esse comprador pode ser outro, com interesses diferentes. O segundo cliente de vez em sempre tratado com mais consideração.

Serviços de inteligência perceberam a oportunidade. Em 2016, James Clapper, então diretor de Inteligência Nacional dos EUA, registrou que a Internet das Coisas poderia ser usada por esses serviços para vigilância, identificação, localização e acesso a redes e credenciais. Isso não prova que alguém acompanha o Danoninho. Sustenta a pergunta sobre quem mais pode aproveitar uma infraestrutura construída para observar e intervir a distância. As empresas entregam a estrutura. Outros a usam.

Na Europa, essa intervenção destruiu alimentos duas vezes em poucas semanas. Em casa, podemos discutir dados e privacidade. Em hospitais, instalações agrícolas e outros ambientes refrigerados, as consequências mudam. A conexão oferece usos distintos; a obrigação de limitar seus poderes continua sendo humana.

Enquanto isso, alguma geladeira de trinta anos segue funcionando numa cozinha brasileira, sem conta, aplicativo ou interface remota. Pode gastar mais energia e fazer um barulho infernal. Mas não oferece a um terceiro um caminho de rede para mexer no termostato. A ausência de conectividade produz uma proteção involuntária. Isso não imuniza o Brasil nem demonstra que nossos supermercados estejam seguros. Mostra uma vantagem concreta da simplicidade. Podemos melhorar compressores, vedação e eficiência sem entregar toda função básica a uma cadeia de acesso remoto e suporte comercial.

O primeiro ataque deveria ter tornado essa discussão urgente. O segundo mostrou o preço de continuar tratando a exposição como inconveniente técnico enquanto se vende a conectividade como necessidade.

As geladeiras não pediram Internet. Alguém decidiu que aquilo seria um bom negócio. Seria interessante descobrir para quem.


Fontes:

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