O homem que quis carregar o Império e acabou esmagado por ele

Há muitas maneiras de um rei morrer. Batalha, envenenamento, conspiração de corte, uma queda não muito discreta das escadas do palácio e até comer demais. A História está cheia de monarcas que partiram desta para melhor de formas que fariam corar qualquer roteirista de tragédia grega. Mas poucos conseguiram a façanha de Ying Dang, o Rei Wu, do reino de Qin, que em 307 A.E.C. decidiu provar ao mundo que era o homem de maior proeza atlética do Período dos Reinos Combatentes, e foi literalmente esmagado pela própria ambição. No caso dele, a ambição tinha a forma de um caldeirão de bronze do tamanho de uma banheira de hidromassagem imperial.

Para entender a magnitude do que vai acontecer a seguir, é preciso conhecer o personagem. Rei Wu havia subido ao trono ainda jovem e governaria apenas três anos ao todo, mas nesse curto intervalo deixou uma impressão inesquecível. Era fisicamente imponente e completamente obcecado com o seu poder muscular. Não é metáfora: ele promovia lutadores e homens de constituição excepcional para cargos importantes na corte, como quem hoje contratasse um campeão de MMA como diretor financeiro. Governava o Estado de Qin, que naquela época já era uma potência ascendente do que viria se tornar a China, a sombra que crescia sobre os outros seis reinos e que algumas décadas depois daria origem ao primeiro império unificado chinês. Aos 21 ou 22 anos, tinha tudo a seu favor. E então visitou Luoyang.

Luoyang era a capital da moribunda dinastia Zhou Oriental, uma corte que a essa altura tinha mais tradição do que poder real, com autoridade nominal apenas, algo como o Vaticano, mas sem os recursos e as obras de Bernini e Michelângelo. Lá estavam guardados os nove ding lendários (九鼎 ; Jiǔ Dǐng), enormes caldeirões de bronze com três pés que, segundo a tradição, haviam sido fundidos pelo Rei Yu, o Grande, o semilendário fundador da dinastia Xia, considerado o primeiro a domar as cheias do Rio Amarelo e, portanto, patrono mítico da civilização chinesa.

Os nove ding não eram meras peças ornamentais: eram o símbolo último da legitimidade imperial. Quem os possuísse, ou simplesmente os levantasse, estaria, na cosmologia política da época, reivindicando o Mandato do Céu. A lógica era simples e sedutora: se você consegue erguer o peso simbólico do império, merece governá-lo. Na História vimos várias mitologias similares, como o nó górdio de Alexandre da Macedônia e Excalibur do Rei Arthur.

Vale uma distinção importante aqui, porque a palavra ding abriga duas realidades muito diferentes. De um lado, os nove ding de Yu, o Grande: objetos míticos, politicamente poderosos e arqueologicamente inexistentes. Foram transferidos para a capital de Qin após a queda da dinastia Zhou, mas quando Qin Shi Huang finalmente unificou a China em 221 A.E.C., o paradeiro deles já era desconhecido. O próprio Primeiro Imperador enviou mil homens para vasculhar o Rio Si, onde se dizia terem afundado. Não encontraram nada, mas o que não falta é lendas a respeito: afundaram de vez, foram fundidos para fazer armas ou moedas, ou simplesmente nunca existiram como objetos físicos e sempre foram mais símbolo do que bronze.

Por outro lado, existem os ding históricos reais, desses a arqueologia tem muito a dizer. Os caldeirões de bronze da dinastia Zhou Ocidental, por exemplo, eram objetos colossal e inequivocamente reais: o Da Ke Ding, hoje no Museu de Xangai, pesa mais de 200 kg, mede quase um metro de altura e traz 290 caracteres inscritos documentando os feitos de um oficial da corte. Não é peça de lenda: é registro administrativo em bronze, o equivalente da época a uma portaria no Diário Oficial, só que muito mais pesado e consideravelmente mais bonito.


Da Ke Ding

Esses ding históricos sobreviveram soterramentos milenares, guerras e até a ocupação japonesa na Segunda Guerra Mundial, quando a neta do colecionador que guardava o Da Ke Ding o escondeu atrás de entulho e pregou o cômodo, mantendo-o oculto enquanto os soldados japoneses batiam à porta até sete vezes por dia. Os nove ding de Yu não tiveram guardiã tão determinada, e o mundo não os viu mais.

O caldeirão escolhido por Rei Wu para sua demonstração de virilidade geopolítica era o chamado “Ding Vermelho com Padrões de Dragão” (龙文赤鼎), um dos nove ding de Zhou, colosso de metal que provavelmente pesava centenas de quilos. Era exatamente esse simbolismo que tornava o gesto tão atraente e, como se veria em seguida, tão catastrófico. Seu amigo e companheiro de proezas físicas Meng Yue (), ele próprio célebre pela compleição descomunal, estava ao lado para encorajar a façanha. A cena que se seguiu foi, nos primeiros segundos, exatamente o que Rei Wu esperava: ele agarrou o ding, fez força e o ergueu do chão. A multidão aplaudiu. Meng Yue sorriu. O Mandato do Céu parecia bem encaminhado.

O Universo, contudo, tem um senso de humor peculiar. Ao tentar dar um passo com o caldeirão erguido, movimento que provavelmente parecia trivial depois de já tê-lo levantado, a constituição física do rei simplesmente cedeu. O ding escorregou e despencou diretamente sobre a perna, esmagando a tíbia com a delicadeza de uma bigorna sobre um palito de dente. O que havia sido um momento de triunfo transformou-se, em fração de segundo, em catástrofe. A multidão que aplaudia deve ter ficado em silêncio constrangedor.

Rei Wu foi carregado para dentro, sangrando gravemente. Durante a noite, os ferimentos se agravaram a ponto de o sangue jorrar até pelos olhos. Ele morreu pouco depois. O brevíssimo reinado de um homem obcecado com a própria potência física terminou pela ausência dela, no pior momento possível, diante de uma plateia.

As consequências imediatas foram, como de costume na política chinesa da época, brutais e eficientes. A corte precisava de um culpado, e Meng Yue estava ali, conveniente e acessível. Afinal, fora ele quem encorajara o rei na aventura. Foi executado junto com toda a sua família, prática que os historiadores da época registram com a mesma secura com que hoje se noticiaria uma multa de trânsito.

A morte sem herdeiro direto de Rei Wu desencadeou uma crise de sucessão clássica: vários príncipes disputaram o trono de Qin com a voracidade típica de quem sabe que o perdedor não vai apenas perder o cargo. No fim, seu meio-irmão mais novo, que viria a ser o Rei Zhaoxiang, assumiu o poder com o apoio de parentes influentes e de sua mãe, a poderosa Imperatriz Viúva Xuan. Zhaoxiang reinaria por mais de cinquenta anos e continuaria a expansão implacável de Qin, a mesma que, décadas depois, culminaria na unificação de toda a China sob Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador. Aquilo que Rei Wu tentou obter pela musculatura, seu sucessor obteve pela estratégia, pela guerra e pelo tempo.

A história foi preservada por Sima Qian, o pai da historiografia chinesa, em seu monumental Shiji (Registros do Grande Historiador), obra do século II A.E.C. que permanece até hoje a fonte fundamental sobre a China antiga. Sima Qian não era homem dado a moralizações piegas, mas a ironia da situação dispensa qualquer comentário explícito: o rei que promovia a excelência física acima de tudo foi destruído exatamente por tentar demonstrá-la. É o que os gregos chamariam de hýbris, o excesso de orgulho que ofende os deuses e convida ao desastre, e que os chineses registraram com a precisão clínica de quem entende que a história não precisa de drama adicional quando os fatos já são suficientemente dramáticos.

Vale notar o que o episódio revela sobre a política simbólica da China antiga. Os nove ding não eram meros objetos decorativos: eram literalmente o Estado em forma material. Quem os controlasse detinha a legitimidade; quem ousasse levantá-los sem respaldo divino estava cometendo um ato de presunção cósmica. Rei Wu não foi apenas imprudente fisicamente: foi imprudente metafisicamente. Tentou forçar o reconhecimento do Céu com os músculos quando o Céu, evidentemente, preferia esperar mais algumas décadas para entregar o mandato a alguém com um projeto mais consistente e com mais cuidado ao manusear utensílios pesados.

Há algo simultaneamente trágico e deliciosamente absurdo na morte de Rei Wu de Qin. Ele era jovem, governava um dos estados mais formidáveis de sua época e tinha, por todos os indicadores, um futuro promissor. Mas decidiu que o momento certo para desafiar o peso simbólico de toda uma civilização era aquela tarde em Luoyang, diante de uma plateia, com um caldeirão de bronze que havia sobrevivido a séculos e não tinha nenhuma intenção de colaborar com qualquer mortal impaciente. O caldeirão permaneceu. O rei, não.

E assim a história registrou mais uma lição sobre a diferença entre potência real e potência presumida, lição que, considerando a frequência com que os poderosos de plantão insistem em repeti-la, evidentemente ainda não foi devidamente assimilada. Por fim, fica a reflexão filosófica: jovem só faz merda.

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